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Manuel Heitor critica “cosmética institucional” na extinção da FCT

Manuel Heitor critica “cosmética institucional” na extinção da FCT

Manuel Heitor defende, em artigo no PÚBLICO, que a extinção da FCT e a criação da nova Agência para a Investigação e Inovação são uma medida de “cosmética institucional” que ignora os verdadeiros desafios da ciência em Portugal.

No seu artigo de opinião no jornal PÚBLICO, Manuel Heitor reagiu com preocupação ao anúncio do Governo sobre a criação da Agência para a Investigação e Inovação, que implicará a extinção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). O antigo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do governo de António Costa reconheceu que reformas são legítimas, mas considerou “estranho” que a decisão tenha sido tomada “de surpresa, sem discussão prévia e informada” com as comunidades científicas e de inovação. Para Manuel Heitor, a medida transmite mais “voluntarismo” do que estratégia, traduzindo-se numa alteração “de cosmética institucional” que não responde aos problemas centrais da política científica.

O autor destacou que, em quase três décadas, a FCT teve oscilações marcantes no seu orçamento, com períodos de crescimento e de cortes, e que a prioridade continua a ser o aumento sustentado do investimento em ciência. Apesar de Portugal ter hoje uma elevada concentração de investigadores face à média europeia, Manuel Heitor alertou que a intensidade do financiamento por investigador continua abaixo do padrão europeu, sendo este um dos principais desafios para a próxima década. Na sua perspetiva, a fusão com a ANI não responde a esta carência estrutural.

Outro ponto sublinhado por Manuel Heitor é o desalinhamento da decisão do Governo com o debate europeu, que aponta para a necessidade de reforçar a investigação de fronteira e atrair recursos humanos qualificados. Referiu que relatórios publicados em 2024 defendem maior investimento público e modernização dos sistemas de avaliação e financiamento, não a reconfiguração abrupta de agências nacionais. Para o antigo governante, a inovação disruptiva exige um reforço da ciência fundamental e uma melhor articulação com os mercados financeiros, e não apenas uma aproximação administrativa à inovação empresarial.

Manuel Heitor refere que, sem esclarecer aspetos essenciais como o estatuto legal e a capacidade de recrutamento da futura agência, a mudança corre o risco de não passar de uma operação de imagem. “A ciência e a inovação exigem muito mais do que uma alteração de cosmética institucional associada a novas designações”, escreveu, defendendo que a prioridade deveria ser enfrentar os desafios estruturais do sistema científico nacional, em vez de promover fusões apressadas que pouco contribuem para a sua resolução.

Luís Eduardo Nicolau
Com Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Donald Giannatti.

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