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Deodato C. Rodrigues na Feira do Livro de Lisboa

Deodato C. Rodrigues na Feira do Livro de Lisboa

Deodato C. Rodrigues participa na 96.ª Feira do Livro de Lisboa, onde a Cadmus apresenta a sua obra como expressão de uma literatura madeirense marcada pela memória, pela transformação social e pelo diálogo com novos leitores.

O escritor Deodato C. Rodrigues participa numa sessão de autógrafos na 96.ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, numa iniciativa promovida pela Cadmus, chancela editorial que, com o apoio da Direção Regional da Cultura, integra o pavilhão da Madeira no maior encontro nacional dedicado ao livro e à leitura. O evento acontece a partir das 14:00, na Praça Laranja, próximo ao stand da Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura – Livros da Madeira (H36) onde as suas obras encontram-se à venda com dezenas de autores da região.

A presença do autor na Feira do Livro de Lisboa assinala também o percurso recente da sua obra publicada pela Cadmus, que inclui as reedições de 2026 de O intenso labor dos tentilhões e Antes que a cidade morra, ambas esgotadas nas primeiras edições, bem como o lançamento de Os desamores em português, obra que alarga o universo literário do autor a novas geografias, comunidades, tensões sociais e conflitos humanos.

A Feira do Livro de Lisboa é hoje um dos acontecimentos culturais mais reconhecidos do país. A sua história remonta a 1930, quando a capital acolheu uma primeira iniciativa organizada em torno da promoção do livro e da leitura. Desde então, atravessou diferentes modelos, espaços e períodos da vida cultural portuguesa, afirmando-se como lugar de encontro entre editores, livreiros, escritores e leitores. Em 2026, regressa ao Parque Eduardo VII para a sua 96.ª edição, entre 27 de maio e 14 de junho, mantendo a vocação de grande montra nacional da edição e da criação literária.

Para a Cadmus, a participação no stand da Madeira representa uma oportunidade de levar ao público nacional autores que escrevem a partir da experiência insular, mas sem ficarem presos a uma leitura meramente local. No caso de Deodato C. Rodrigues, a Madeira surge como território de memória, resistência, conflito e transformação, lugar onde se cruzam a pobreza, a emigração, o trabalho, a ascensão social, a perda urbana, os afetos, a ambição e a sobrevivência.

Em O intenso labor dos tentilhões, o autor acompanha vidas atravessadas por algumas das realidades mais duras da sociedade madeirense do século XX. A obra convoca temas como o analfabetismo, o trabalho infantil, a pobreza, a emigração e a guerra colonial, mas evita reduzi-los a simples pano de fundo histórico. Através de personagens marcadas por circunstâncias difíceis, Deodato C. Rodrigues constrói uma narrativa sobre persistência, mobilidade social e procura de felicidade, fazendo da memória coletiva matéria literária. A edição de 2026, com 460 páginas, recupera uma obra cuja primeira edição se esgotou e que se tornou uma das portas de entrada no universo ficcional do autor.

Antes que a cidade morra parte da transformação do Funchal e da perda da sua matriz urbana original. A demolição do Pilar de Banger surge como sinal simbólico de uma cidade que se altera, enquanto personagens ficcionais e figuras inspiradas pela realidade testemunham as mudanças profundas da primeira metade do século XX. No centro da narrativa estão o Comendador João de Araújo e Pedro Damião, o Faca Mole, figuras que permitem observar, por contrastes sociais e humanos, a dureza da vida de muitos madeirenses. A obra não exige a leitura prévia de O intenso labor dos tentilhões, mas prolonga e completa a saga literária que Deodato C. Rodrigues tem vindo a construir sobre a última centúria madeirense.

Com Os desamores em português, Deodato C. Rodrigues desloca a narrativa para Lisboa e Lourenço Marques, atual Maputo, entre os anos cinquenta e oitenta do século passado. A obra cruza afetos, ruturas, ambição, convicções religiosas, papéis sociais atribuídos às mulheres e diferentes formas de violência, num contexto marcado por uma guerra que passa de ameaça latente a realidade aberta. Embora ancorado num tempo histórico específico, o livro convoca problemas que continuam a interpelar o presente, da desigualdade à exploração, da ignorância ao conhecimento, da decência humana ao poder destrutivo da ambição.

A sessão de autógrafos decorre num momento em que a leitura continua a ser um tema central nas políticas culturais e educativas. No relatório PISA 2022, a OCDE assinala que 77% dos estudantes de 15 anos em Portugal atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, acima da média da OCDE, fixada em 74%. Ainda assim, apenas 5% dos estudantes portugueses alcançaram níveis de desempenho mais elevados em leitura, abaixo da média da OCDE, que se situou nos 7%, mostrando que o país mantém uma base relativamente sólida, mas enfrenta dificuldades na formação de leitores com maior capacidade crítica e interpretativa.

Ler em tempos de scrolling

Manuel Luís Gonçalves escreve na edição de hoje do DIÁRIO sobre “o prazer da leitura, que requer tempo, introspeção e continuidade, entra em conflito com a lógica da recompensa imediata promovida pelos algoritmos no digital”.

Os mesmos dados revelam ainda uma diferença significativa entre raparigas e rapazes. Em Portugal, as raparigas superaram os rapazes em leitura por 21 pontos, e a percentagem de alunos com baixo desempenho foi mais elevada entre os rapazes, com 27% abaixo do nível 2, contra 19% entre as raparigas. Estes números ajudam a compreender que a promoção do livro não se limita ao aumento das vendas ou à presença em grandes feiras, exigindo também trabalho continuado junto dos públicos mais jovens e atenção às desigualdades nos hábitos de leitura.

No plano escolar, o Barómetro’23, estudo sobre as práticas de leitura dos alunos dos ensinos básico e secundário, realizado pelo OPAC, CIES-Iscte, no âmbito de uma encomenda do Plano Nacional de Leitura, com parceria da DGEEC e da Rede de Bibliotecas Escolares, reforça essa preocupação. Segundo a síntese divulgada pelo CIES-Iscte, 64% dos alunos do ensino secundário consideram os livros de leitura obrigatória aborrecidos, dado que levanta questões sobre a forma como a leitura é apresentada na escola e sobre a necessidade de a tornar mais próxima, livre e significativa.

A nível europeu, o mais recente Eurobarómetro sobre cultura confirma que a leitura se insere num quadro mais vasto de valorização da vida cultural. Segundo a Comissão Europeia, 87% dos inquiridos consideram que a cultura e o intercâmbio cultural devem ter um lugar muito importante na União Europeia, enquanto 86% defendem a importância do património cultural para a Europa.

A presença da Cadmus na Feira do Livro de Lisboa, no stand da Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura – Livros da Madeira, contribui para afirmar o livro como espaço de encontro entre a memória, a criação literária e a circulação pública da cultura, aproximando a literatura madeirense de leitores de diferentes gerações. A participação na Feira do Livro de Lisboa ganha especial relevância. Mais do que participar num certame comercial, a Cadmus afirma a importância de ampliar a circulação da literatura produzida a partir da Madeira, aproximando-a de novos leitores e reforçando a presença da criação literária insular no espaço editorial nacional.

Deodato C. Rodrigues desenvolveu uma vida profissional ligada à Educação, ao Desporto e à Administração Pública Regional. Foi professor em diferentes níveis de ensino, vogal do Conselho Diretivo do Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira e adjunto na Secretaria Regional de Educação. Na literatura, tem vindo a construir uma obra marcada pela atenção à memória social, à condição humana e às transformações da Madeira contemporânea.

Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Jonas Jacobsson.

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