Procurar
Close this search box.
Procurar
Close this search box.

Ler em tempos de scrolling

Ler em tempos de scrolling

Manuel Luís Gonçalves escreve na edição de hoje do DIÁRIO sobre "o prazer da leitura, que requer tempo, introspeção e continuidade, entra em conflito com a lógica da recompensa imediata promovida pelos algoritmos no digital".

Num mundo onde vídeos de 15 segundos moldam o quotidiano digital e o scroll substitui o virar de página, a leitura enfrenta desafios inéditos. A cultura do imediatismo, do entretenimento fácil e do consumo domina o nosso tempo livre – e contamina até os momentos que exigem presença. Plataformas como o TikTok e o Instagram impuseram um novo ritmo à vida, deixando pouco espaço para o silêncio e para a concentração que a leitura exige. O prazer da leitura, que requer tempo, introspeção e continuidade, entra em conflito com a lógica da recompensa imediata promovida pelos algoritmos no digital. Nessa dinâmica, a atenção, um dos bens mais valiosos na era digital, é constantemente fragmentada, dificultando o envolvimento com narrativas e textos mais densos. Ler, hoje, exige quase um ato de resistência: uma escolha consciente de desacelerar, aprofundar e refletir num tempo marcado pela velocidade.

Um estudo recente da Universidade Católica revela que 86,6% dos jovens entre os 18 e os 34 anos leram pelo menos um livro no último ano, e 44,4% destes leram mais de cinco livros. A leitura continua a ocupar um espaço relevante na vida dos jovens – mesmo com a presença esmagadora dos ecrãs – dados que desafiam a narrativa alarmista de que os jovens deixaram de ler.

Segundo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – APEL, a faixa etária que mais compra livros em Portugal é precisamente dos 25 aos 34 anos. Esta tendência pode estar relacionada com o maior acesso às plataformas digitais, que democratizam o acesso a livros através de e-books e audiolivros, mas também com a sua busca crescente por equilíbrio entre vida profissional, lazer e enriquecimento pessoal. Em plena era digital, os livros persistem como âncoras de reflexão, pensamento crítico e imaginação.

Contudo, coloca-se a pergunta: serão os incentivos à leitura suficientes? Importa, também, redefinir o conceito de leitura. Com o avanço tecnológico, o ato de ler diversificou-se. Já não falamos apenas de livros físicos: audiolivros, e-books, newsletters e até podcasts que se tornaram parte de novas formas de leitura. A leitura, de facto, migrou para formatos mais fragmentados, mas isso não significa necessariamente uma perda de qualidade ou de profundidade em todos os casos. Plataformas como o TikTok, por meio de comunidades como o BookTok, têm desempenhado um papel relevante na formação de novos leitores, influenciando tendências de mercado e ampliando o acesso a livros e autores antes pouco conhecidos. Trata-se de consolidar uma cultura em que ler seja valorizado socialmente, não como exceção ou dever académico, mas como um hábito saudável e desejável.

As escolas e as universidades têm um papel determinante nesta transformação. Devem apresentar a leitura não como uma obrigação curricular, mas como uma atividade prazerosa e significativa. Projetos como clubes do livro, encontros com escritores, eventos de storytelling, desafios literários nas redes sociais ou integração da literatura com a arte são estratégias eficazes para aproximar os mais novos dos livros. Eventos como o Book 2.0, promovido pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, trazem para o debate o papel da inteligência artificial, da transição digital e da sustentabilidade no futuro da leitura e do setor editorial, adaptando o setor às novas exigências sociais e tecnológicas.

A leitura não está em vias de extinção – está em reinvenção. Porque, num tempo de excesso de informação e distrações, a leitura continua a se reinventar, adaptando-se às novas formas digitais de consumo de conteúdo.

No episódio desta semana do PEÇO A PALAVRA, colocamos a leitura a discussão, e conversamos com Rui Couceiro, antigo editor da Contraponto, do Grupo Bertrand Círculo, que partilhou connosco a sua experiência e visão transversal como leitor, autor e editor. A conversa será emitida na antena da TSF 100 FM Madeira e em podcast.

Manuel Luís Gonçalves
ET AL.
Com fotografia de Clay Banks.

Palavras-chave

  • All Posts
  • Acontece
  • Lá fora
  • No Campus
  • O amigo
  • Perspectivas
  • Uncategorized