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“É preciso sair da ilha para ver a ilha… ou não?”

“É preciso sair da ilha para ver a ilha… ou não?”

Entre exames, médias, dúvidas e sonhos, o novo episódio do Peço a Palavra pergunta se é mesmo preciso sair da ilha para encontrar o futuro ou se, às vezes, ele também começa em casa.

Como leitora, mas acima disso como madeirense, esta frase de Saramago sempre mexeu um pouco comigo. Fui criando várias interpretações para ela. Uma das minhas amigas mais próximas é de cá mas só a conheci em Lisboa, partilhávamos os mesmos espaços porém só fora da ilha a encontrei… a mais forte foi mesmo “tenho de sair daqui para estudar e para me encontrar”.

Esta história não é única, estamos a iniciar um mês marcado pelo peso desta decisão em centenas de jovens, recém-adultos, a fazer as suas inscrições nos exames nacionais, a procurar residências em todos os cantos do país, a viver “os últimos” do secundário, a ver se a média pela qual trabalharam os últimos anos vai dar, uma pressão que nem tendo passado por ela consigo descrever, só mesmo em pesadelos.

A entrada no ensino superior é um tema de relevo na sociedade. No episódio desta semana do Peço a Palavra, uma produção da Académica da Madeira em colaboração com a TSF Madeira e a Associação para Promoção da Herança Madeirense, exploramos este tema central na vida de todos os finalistas do ensino secundário.

São vários os fatores a ter em conta: para cursos como Medicina, a ideia de que podemos perder uma parte de nós, devido a toda a pressão associada, ainda assombra muitos. Muda o comportamento durante o secundário para com a média, uma nota numa pauta que pouco ou nada reflete o esforço ou as soft skills necessárias para um futuro profissional. Questiona-se, também, se o método para a entrada na universidade não deveria mudar. Num mundo em que o currículo vale cada vez mais, porque não incluir uma entrevista ou uma carta de motivação, que refletisse quem o aluno é, os seus projetos, ambições, essência?

Há, também, um estigma ainda enraizado acerca de ficar a estudar na Madeira, apesar de todas as vantagens. O ambiente, a proximidade com toda a comunidade académica, ou mesmo o simples facto de estar perto de casa e da família, são tudo fatores que contribuem para que a Universidade da Madeira seja cada vez mais vista como uma escolha estratégica para catapultar o futuro.

Por outro lado, não é uma escolha que se faça sozinho. As associações de estudantes têm o papel de trazer às escolas profissionais das diferentes áreas, debates e atividades para dar voz aos alunos, algo que ainda falta no sistema de ensino. Famílias que apoiem todas as decisões e amigos que façam o trilho connosco são também fulcrais nestas etapas.

Nota máxima… a que preço?

Afonso Brazão escreve no DIÁRIO sobre “impacto desta exigência desmedida na saúde mental é um problema que afeta uma grande quantidade de estudantes”,

Aos 18 anos, é esperada uma decisão de jovens que mal aprenderam a conduzir, se já sequer tiverem carta de condução, ou que apenas sabem cozinhar ovos e massa de atum. Uma decisão com que vão viver os próximo vinte, trinta anos, ou mesmo a vida toda, pois, por mais bem aceite que a mudança possa ser, voltar atrás é um risco que nem todos estão dispostos a tomar. Ao fim do primeiro ano de faculdade, sei bem como essa decisão me moldou: os meses de indecisão, com noites mal dormidas até chegar o mítico “excel” das notas do último colocado, e o “e agora?”, que ainda ecoa no fundo da mente.

A todos os que já passaram por isto, mas acima de tudo para os que ainda vão passar, às vezes sair parece a única opção, fugir daquilo que se conhece, conhecer novas pessoas e realidades fora da ilha, mas não se esqueçam que a frase de Saramago nunca foi sobre ilhas e sim sobre nós mesmos: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.” Que este seja um mês de decisões, mas, acima disso, de ver acima da média e seguir sonhos e ambições.

Eva Xavier
Associação para Promoção da Herança Madeirense
Com fotografia de Kyle Gregory.

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