A emissão do PEÇO A PALAVRA desta semana, na antena da TSF Madeira, centra-se no futsal e, em particular, no papel que o desporto pode desempenhar na formação, no bem-estar e na continuidade da prática desportiva entre os jovens. A conversa ganha especial atualidade por surgir num momento em que o desporto universitário em Portugal continua a revelar margem de crescimento, apesar do seu valor formativo, competitivo e comunitário. Falar de desporto, e particularmente do desporto universitário, “é muitas vezes falar de um potencial ainda por concretizar”, num espaço que “continua a não ser reconhecido e projetado como merece, apesar do seu valor formativo e do contributo que pode dar para a vida académica, pessoal e até profissional dos estudantes e de toda a comunidade”, como sustenta o presidente do Clube Desportivo Académica da Madeira, Vítor Duarte Vasconcelos.
O novo episódio foi dedicado à equipa de futsal do Clube Desportivo Académica da Madeira, um coletivo recente que procura afirmar-se num cruzamento particularmente relevante entre competição, formação e vida universitária. Fundado em maio de 2025, o Clube nasceu com o objetivo de reforçar a presença da comunidade académica no desporto regional, criando oportunidades para que os estudantes continuem a competir sem terem de abdicar do seu percurso académico. A ambição do clube, porém, não se esgota nos muros da universidade. Como refere o Presidente do Clube, trata-se também de “integrar atletas extra-universitários nesta comunidade, num espírito de partilha e crescimento coletivo”, procurando construir um modelo mais aberto, inclusivo e socialmente útil.
A importância desta discussão torna-se ainda mais evidente quando se observa o contexto português. Segundo a síntese nacional do Eurobarómetro, publicada em Portugal a partir dos dados da Comissão Europeia, 73% dos portugueses diziam, em 2022, nunca praticar exercício ou desporto, um valor muito acima da média da União Europeia, situada nos 45%. No mesmo sentido, o perfil de saúde da Comissão Europeia para Portugal assinala que, em 2019, apenas 17% dos adultos portugueses reportavam cumprir pelo menos 150 minutos semanais de exercício físico. Estes indicadores ajudam a perceber por que razão a entrada no ensino superior representa, tantas vezes, não o início de uma nova cultura desportiva, mas antes o abandono de hábitos já frágeis.
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É precisamente nesse ponto que o Clube universitário se quer afirmar como resposta. Como sustenta Vítor Duarte Vasconcelos, “a realidade que enfrentamos é a de um acentuado abandono da prática desportiva à chegada ao ensino superior” e, por isso, o clube nasce “com o propósito de contrariar essa tendência, afirmando-se como um motor de promoção e de incentivo para continuidade da prática desportiva no contexto universitário”. Mais do que criar equipas, trata-se de preservar percursos, reter jovens no desporto e impedir que a entrada na universidade funcione como momento de rutura com práticas que são importantes para a saúde, para a disciplina pessoal, para o sentido de pertença e para a construção de comunidade.
A emissão reúne Francisco Sombreireiro, Hélder Sousa e Gonçalo Jardim, jogadores da equipa de futsal, num painel conduzido por Vítor Duarte Vasconcelos e Luís Eduardo Nicolau. Ao longo da conversa, o programa procura perceber o que significa construir um clube, que dificuldades reais marcam a vida de quem tenta conciliar treinos e competição com exigências académicas, e que papel pode o desporto desempenhar na formação global de um estudante. A reflexão parte da experiência dos próprios atletas, mas abre-se a questões mais vastas sobre o lugar do desporto na universidade e sobre o modo como o ensino superior encara, ou continua a não encarar, esta dimensão da vida estudantil.
A discussão começa por alguns dos estigmas que ainda persistem. Um deles é a ideia de que o desporto universitário é inevitavelmente menos sério, menos exigente ou menos competitivo do que o desporto federado. Outro prende-se com a convicção de que cursos exigentes e prática desportiva regular são realidades incompatíveis. O episódio interroga essas perceções a partir da experiência concreta dos convidados, mas também à luz da evidência disponível. A Organização Mundial da Saúde e a própria Comissão Europeia têm sublinhado que a atividade física regular melhora a saúde mental, a qualidade de vida e o bem-estar, podendo também favorecer a função cognitiva e o desempenho académico. Em vez de ser um obstáculo ao estudo, o desporto pode ser um instrumento de equilíbrio, organização e rendimento.
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É por isso que uma das ideias fortes do programa passa pela crítica às condições concretas oferecidas aos estudantes-atletas. Como refere Vítor Duarte Vasconcelos, “a dificuldade de conciliação não está propriamente na vontade dos jovens atletas, mas nas condições que lhes são dadas”. Os horários pouco flexíveis, a falta de reconhecimento institucional e a escassez de estruturas de apoio continuam a ser obstáculos reais. Ainda assim, são esses mesmos jovens que, “diariamente e semana após semana”, demonstram que o desporto não prejudica o percurso académico e que, pelo contrário, pode contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional.
O episódio olha também para a articulação entre desporto federado e desporto universitário, recusando tratá-los como realidades incompatíveis. O clube participa no desporto federado regional, com todas as exigências competitivas e logísticas que isso implica, mas procura simultaneamente afirmar-se “como uma alavanca de promoção do desporto universitário”. Essa dupla pertença é uma das marcas mais interessantes do projeto. Como defende Vítor Vasconcelos, “não vemos estas duas dimensões do desporto como opostas, mas como complementares”. O desporto universitário pode e deve funcionar como ponte entre formação e competição, entre educação e performance desportiva, entre percurso académico e continuidade na prática.
Essa questão assume uma relevância particular no contexto madeirense. O Governo Regional da Madeira reconhece repetidamente que os custos das deslocações, se fossem suportados diretamente pelas entidades participantes, constituiriam “uma forte limitação à livre participação dos praticantes desportivos e clubes sedeados na Região Autónoma da Madeira nas competições nacionais”.
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Numa escala nacional, a própria federação que dinamiza o desporto universitário nacional, a FADU, tem vindo a reconhecer a necessidade de reforçar o setor. Em março de 2026, apresentou um estudo de diagnóstico sobre o desporto universitário nas instituições de ensino superior em Portugal, no qual se assinalava, entre outros dados, que 61% das instituições não dispõem de instalações desportivas próprias. No mesmo mês, a federação lançou o programa +DU, com o objetivo de acelerar o crescimento do desporto universitário em 15% ao ano e envolver 40 mil estudantes já na época 2025-2026. Estes sinais mostram que o problema é reconhecido e que há consciência de que o ensino superior português ainda está longe de explorar plenamente o potencial educativo, competitivo e social do desporto universitário.
Ao mesmo tempo, os números mais recentes da competição universitária mostram que este não é um universo residual. Nas Fases Finais dos Campeonatos Nacionais Universitários de Coimbra 2025 participaram 70 equipas e mais de 1500 agentes desportivos, sinal claro de que existe massa crítica, interesse e dinâmica competitiva. Já nos Jogos Europeus Universitários de 2025, Portugal foi representado por mais de 370 participantes de 32 clubes FADU e instituições de ensino superior. A questão, por isso, , reforça Vítor Duarte Vasconcelos, “não é a ausência de prática ou de talento, mas a capacidade de criar condições mais estáveis, mais visíveis e mais valorizadas para que esse ecossistema se consolide”.
Ao longo do programa, há ainda espaço para um momento mais leve, através da rubrica Exame de Recurso, em que os convidados são desafiados com perguntas sobre futsal, desporto universitário e realidade desportiva. Esse registo mais descontraído não é acessório. Ajuda a mostrar que é possível falar seriamente de desporto sem fechar a conversa num tom excessivamente técnico, aproximando o tema do público e sublinhando que a cultura desportiva também se faz de conhecimento partilhado, humor e participação.
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O episódio procura refletir sobre o que distingue um projeto desportivo novo quando ele nasce dentro de uma comunidade académica e com vocação de serviço a essa comunidade. As respostas dos convidados deixam perceber que o desporto pode funcionar como espaço de pertença, de disciplina, de responsabilização e de crescimento: não se trata apenas de ganhar jogos. Trata-se de criar estruturas capazes de impedir o abandono, acolher percursos diversos, estimular hábitos saudáveis e dar aos estudantes um contexto em que o esforço individual ganhe sentido coletivo”.
Como referiu o Presidente do Clube, “é neste cruzamento que acredito estar uma das maiores oportunidades para o desenvolvimento do desporto na Madeira, aproveitar o contexto académico para criar estruturas mais inclusivas e mais capazes, dar continuidade à prática desportiva de jovens que poderiam abandonar e valorizar não apenas o rendimento, mas todo o percurso, é também uma forma de pensar o ensino superior para além da sala de aula”. O clube, refere o Vítor Duarte Vasconcelos, apresenta uma ambição clara de contribuir para “um desporto mais estruturado, mais inclusivo e mais valorizado, não apenas pelos resultados que possam vir a ser alcançados, mas pelo impacto que o desporto tem na formação e na vida das pessoas”.
O PEÇO A PALAVRA é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 1969. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.
Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Dorian Bogdańska.