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As realidades, os desafios e o futuro da prática desportiva na Madeira

As realidades, os desafios e o futuro da prática desportiva na Madeira

A emissão do PEÇO A PALAVRA na antena da TSF apresenta uma análise direta aos desafios, dados e vozes que moldam o presente e o futuro do desporto jovem na Madeira.
David Gomes, Ricardo Freitas Bonifácio, Avelino Silva e Vítor Duarte Vasconcelos integraram o painel do PEÇO A PALAVRA, emitido a 10 de dezembro de 2025 na rádio TSF.

A emissão do PEÇO A PALAVRA desta quarta-feira, às 16:00, na antena da TSF Madeira, centra-se num tema incontornável para a sociedade madeirense: o desporto nas suas múltiplas dimensões. Da vitalidade dos clubes ao percurso dos atletas, passando pelas políticas públicas que moldam o setor, procura-se compreender como esta atividade influencia a vida coletiva, fortalece a coesão social e gera impacto económico na região. A conversa na rádio aprofunda os desafios, as oportunidades e o papel que o desporto desempenha na construção de uma Madeira mais ativa, saudável e preparada para o futuro.

Neste episódio, o painel contou com a participação de Avelino Silva, Vice-presidente Desportivo da Associação de Futebol da Madeira (AFM), cuja experiência oferece uma leitura próxima da realidade dos clubes, das competições e do desenvolvimento formativo no arquipélago. Juntou-se a esta conversa David Gomes, Diretor Regional de Desporto (DRD), responsável pela coordenação das políticas públicas que enquadram a prática desportiva, o apoio às modalidades e a promoção de estilos de vida ativos na região. A conduzir a entrevista esteve Ricardo Freitas Bonifácio, Presidente da Direção da Académica da Madeira e Vítor Duarte Vasconcelos, licenciado em Educação Física e Desporto e Presidente da Direção do Clube Desportivo Académica da Madeira.

De acordo com os dados mais recentes divulgados pela Direção Regional de Desporto, a Madeira registou nos últimos anos um aumento expressivo na participação juvenil em competições federadas, com o número de atletas sub-18 a crescer de forma consistente e ultrapassar, segundo os relatórios públicos, os 30% do total de praticantes inscritos na região. A estes números soma-se a expansão dos programas de atividade física promovidos pelas escolas e associações locais, que continuam a captar milhares de jovens em modalidades de iniciação.

No panorama nacional, os levantamentos conduzidos pelo Inquérito Nacional de Atividade Física (INAF) e pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) mostram que a prática desportiva entre jovens tem aumentado, ainda que Portugal continue abaixo das metas internacionais. O INAF indica que cerca de metade dos adolescentes pratica desporto pelo menos uma vez por semana, valor que sobe para perto de sete em cada dez quando se consideram atividades escolares e extraescolares. Estes números revelam progressos, embora persistam diferenças regionais e uma quebra acentuada da prática após os 15 anos.

Na Europa, o Eurobarómetro sobre Desporto e Atividade Física de 2022 confirma uma realidade mais heterogénea. Entre os jovens dos 15 aos 24 anos, mais de 70 por cento pratica exercício ou desporto semanalmente, mas os contrastes entre países são marcados. Os países do Norte do continente apresentam níveis acima dos 80%, enquanto parte do Sul e do Leste da Europa permanece abaixo dos 50%. Apesar dessas diferenças, os dados europeus convergem numa conclusão sólida, indicando que quanto mais cedo o contacto com o desporto, maior a probabilidade de manter hábitos ativos ao longo da vida. Ao longo da emissão, as realidades regionais, nacionais e europeias estiveram presentes na conversa, ajudando a situar a realidade madeirense num cenário mais amplo.

A discussão com painel abrodou temas sensíveis que atravessam o quotidiano de clubes, de dirigentes e de famílias, revelando tensões reais no ecossistema desportivo madeirense. Avelino Silva tentou desconstruir o estigma de que “o futebol monopoliza atenções e recursos, deixando outras modalidades na sombra”. A experiência acumulada na Associação de Natação da Madeira permitiu-lhe reconhecer que a diferença de visibilidade é evidente, embora recordasse que essa desigualdade decorre tanto da tradição cultural como da procura efetiva por parte dos jovens. Ainda assim, admitiu que a questão merece vigilância e que cabe às estruturas desportivas promover maior equilíbrio e apoiar o crescimento de modalidades emergentes. O diretor regional que tutela o Desporto respondeu ao desafio da alegada “dependência total do financiamento público”, sublinhando que o tecido desportivo regional é diverso e que os subsídios existem para garantir acesso, competitividade e continuidade, mais do que para substituir o esforço próprio dos clubes, que são chamados a construir modelos sustentáveis. Ambos foram ainda confrontados com uma crítica recorrente à geração mais nova. A ideia de que “falta disciplina e compromisso”. O Vice-presidente Desportivo da AFM rejeitou generalizações, explicando que a motivação dos jovens mudou porque o contexto social também mudou, e que os clubes enfrentam o desafio de adaptar métodos de treino, de reforçar o acompanhamento e de criar ambientes mais apelativos para quem cresce num mundo de estímulos constantes. Ainda para combater os estigmas, sobre a percepção “de que praticar desporto é um privilégio e não um direito”, David Gomes destacou que a DRD procura contrariar precisamente essa barreira, investindo em programas de apoio, de transporte, de incentivos escolares e de iniciativas que garantam que nenhum jovem fica excluído por condições económicas ou geográficas. Ao reunir estas perspetivas, a conversa mostrou que o desporto na Madeira “vive entre conquistas reais e desafios persistentes, exigindo respostas pensadas e sustentáveis”.

O debate avançou por quatro eixos fundamentais que ajudam a traçar um retrato claro do que está em jogo no futuro do desporto madeirense. Começou pela formação, onde se questionou de que modo a AFM tem reforçado a captação de talento e a qualificação dos treinadores, num território que já viu nascer nomes com projeção mundial e que procura agora consolidar estruturas de base capazes de reter jovens promissores. Seguiu-se o tema das políticas públicas, com a DRD a ser desafiada a explicar como distribui fundos e apoios, garantindo que clubes grandes e pequenos beneficiam de forma equilibrada e transparente. A conversa abriu ainda espaço para o papel do desporto na saúde pública, interrogando se existem iniciativas que ultrapassem o âmbito federado e incentivem a participação de cidadãos comuns em atividades regulares. O painel pediu aos convidados que projetassem a Madeira desportiva daqui a uma década, num cenário marcado por desafios emergentes, incluindo a crescente adesão dos jovens às apostas desportivas, fenómeno que levanta questões éticas e sociais num setor que se pretende formativo e saudável.

Os indicadores mais recentes ajudam a enquadrar a dimensão do desporto regional. De acordo com os Relatórios Anuais da Direção Regional de Desporto e com os dados publicados, o arquipélago ultrapassa atualmente os 15 mil atletas federados distribuídos por várias modalidades, evidenciando um crescimento gradual ao longo da última década. No caso do futebol, estatísticas divulgadas pela Associação de Futebol da Madeira mostram que os escalões de formação representam mais de um terço de todas as inscrições, enquanto modalidades como natação, atletismo, andebol e judo apresentam também aumentos consistentes nos relatórios de atividade das respetivas federações regionais. Quanto às infraestruturas, os dados constantes do Plano de Investimentos da Secretaria Regional de Educação, Ciência e Tecnologia confirmam a requalificação recente de pavilhões, piscinas e relvados sintéticos em vários concelhos. Estas fontes convergem no mesmo retrato de que a Madeira tem reforçado a sua base desportiva e aumentado o alcance social das modalidades praticadas no arquipélago.

Nos próximos anos, a Madeira e Portugal enfrentarão desafios que exigem um reforço claro da ligação entre o desporto, a educação e as políticas públicas. O Presidente do Clube Desportivo Académica da Madeira destacou que “a prática desportiva entre estudantes do Ensino Superior continua aquém do desejável, pois, segundo o Eurostudent VII, apenas cerca de 40% dos estudantes portugueses praticam atividade física regular, valor abaixo da média europeia, que ronda os 50%”. Na região, os dados partilhados pela DRD mostram que a participação de jovens adultos nas modalidades federadas pode ter estabilizado, pois parece não ter crescido ao ritmo registado nos escalões de formação, revelando um ponto crítico na transição para a idade universitária. A exigência académica, a falta de infraestruturas próximas dos campi e a dificuldade em conciliar horários são fatores identificados repetidamente nas análises nacionais do IPDJ sobre abandono desportivo. Para a Madeira, isto traduz-se num risco real de perder talento num momento em que a região investe na qualificação dos seus jovens. Reforçar o desporto no Ensino Superior, seja através de clubes universitários estruturados, programas de apoio ou competições regulares, torna-se, assim, uma condição essencial para garantir a continuidade e a coesão entre os estudantes, num país que procura elevar os seus indicadores de atividade física juvenil para os níveis europeus.

O PEÇO A PALAVRA é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 69. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast, nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.

Luís Eduardo Nicolau
Com Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Dorian Bogdańska.

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