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Entre a Madeira, Lisboa e o futuro em Medicina

Entre a Madeira, Lisboa e o futuro em Medicina

O primeiro episódio de Dentro do Bloco acompanhou Júlia Dória e Luana Pantaleão numa conversa sobre o percurso em Medicina entre a Madeira e Lisboa, dos primeiros anos do curso à preparação para a PNA e à escolha da especialidade.

O primeiro episódio do programa Dentro do Bloco acompanha o percurso de duas estudantes que chegaram à fase final do curso de Medicina depois de passarem pela Universidade da Madeira (UMa) e pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Júlia Dória e Luana Pantaleão, alunas do 6.º ano, foram as convidadas da emissão de estreia, transmitida na TSF Madeira 100FM em julho. Produzido pelo Núcleo de Estudantes de Medicina da UMa e pela Académica da Madeira, o novo programa nasceu com o propósito de aproximar estudantes e abrir espaço para conversas sobre as várias etapas da formação médica. Experiências, dúvidas, dificuldades e aprendizagens entram numa emissão pensada tanto para quem já frequenta o curso como para quem se prepara para o iniciar.

Madalena Barbeito, Afonso Lopes e Guilherme Morais, do Núcleo de Estudantes de Medicina da UMa , conduziram a conversa com Júlia e Luana, partindo dos primeiros anos de formação na Madeira. As duas estudantes recordaram a passagem pela UMa e refletem sobre as bases adquiridas, a proximidade entre colegas e as particularidades de estudar Medicina num contexto marcado por turmas mais pequenas.

A dimensão da comunidade académica foi um dos pontos em análise. Num curso exigente, a relação entre estudantes, a entreajuda e o contacto próximo com quem atravessava as mesmas etapas podiam fazer a diferença. O episódio procurou perceber de que modo esse ambiente influenciou a experiência das convidadas e que aspetos da formação na Madeira permaneceram no seu percurso.

Como referiu Guilherme Morais, “a conversa não deixou de lado aquilo que poderia ter sido melhorado. O contacto clínico nos primeiros anos, a preparação prática e a ligação entre os conteúdos teóricos e a realidade hospitalar estiveram entre as questões colocadas as convidadas. Já perto de concluírem o curso, ambas foram desafiadas a olhar para trás e a identificar o que lhes tinha feito falta antes da entrada nos anos clínicos”.

A mudança para Lisboa representou um dos momentos centrais do episódio. A transição da UMa para a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa “implicou uma nova faculdade, outra cidade e uma rotina académica diferente”, segundo Júlia Dória. As convidadas falaram da adaptação a esse contexto e das mudanças sentidas, tanto no plano académico como pessoal.

Entre a proximidade da Madeira e a dimensão de Lisboa, a emissão procurou compreender o que tinha melhorado, o que se tornara mais difícil e até que ponto existira um verdadeiro choque na chegada à FMUL. A conversa abordou ainda a necessidade de criar novas rotinas e encontrar um lugar numa realidade com ritmos, espaços e exigências diferentes. Outro tema analisado foi a passagem dos anos teóricos para os anos práticos. Para quem se encontrava no início do curso, “a entrada na clínica era frequentemente vista como uma fase distante, acompanhada pela expectativa de que o contacto com os doentes tornaria a aprendizagem mais concreta”. As convidadas compararam as duas etapas e refletiram sobre as expectativas que levavam consigo antes de iniciarem a componente clínica.

Esta formação decorreu num país que apresentava um número elevado de médicos inscritos quando comparado com outros sistemas de saúde. A OCDE contabilizou em Portugal 5,8 médicos habilitados a exercer por cada mil habitantes, embora esse valor incluísse todos os profissionais licenciados e não apenas aqueles que prestavam cuidados diretamente aos doentes. A média usada pela organização como referência foi de 3,9 médicos em exercício por cada mil habitantes. A diferença entre as duas categorias recomendava prudência nas comparações, mas mostrou que o número de inscrições, por si só, não explicava a disponibilidade efetiva de profissionais nos serviços de saúde.

Os mesmos dados mostraram que Portugal tinha 7,6 enfermeiros em exercício por cada mil habitantes, abaixo da média de 9,2 registada na OCDE. O país aplicava ainda 10,2% do Produto Interno Bruto na saúde, acima da média de 9,3% da organização, apesar de a despesa por habitante permanecer inferior. Estes números enquadraram uma realidade que os estudantes encontrariam quando deixassem a faculdade e começassem a trabalhar: a formação médica não terminava com o diploma e desenvolvia-se dentro de um sistema com recursos, necessidades e desigualdades próprias.

O episódio trata de um dos “maiores desafios do percurso, a Prova Nacional de Acesso”, conhecida entre os estudantes como PNA. A prova realizava-se uma vez por ano e procura avaliar conhecimentos e capacidade de raciocínio clínico, privilegiando perguntas construídas a partir de situações clínicas. “Mais do que testar a memorização isolada de conteúdos, o modelo oficial pretendia avaliar aquilo que um médico sem formação especializada deveria saber interpretar e aplicar” conforme explicou Guilherme Morais.

A preparação para a PNA trouxe dúvidas sobre matérias entretanto esquecidas, conteúdos que precisavam de ser atualizados e métodos de estudo diferentes dos utilizados nas avaliações da faculdade. Júlia Dória e Luana Pantaleão explicaram como estavam a organizar esta fase e se a encaravam como uma revisão do que tinham aprendido ou como um novo processo de estudo. A conversa passou pelo trabalho independente, pelos cursos de preparação e pela possibilidade de enfrentar a prova sem recorrer a esse apoio.

A importância atribuída ao exame tinha uma razão concreta. A classificação da PNA era expressa numa escala de zero a 150 pontos e participava, juntamente com a classificação final normalizada do curso de Medicina, na ordenação nacional dos candidatos. Era essa posição que determina o momento em que cada médico escolhe uma especialidade e uma instituição entre as vagas ainda disponíveis. “Uma diferença reduzida na classificação pode, por isso, alterar significativamente as opções existentes no momento da escolha”.

Os números do Internato Médico ajudaram a perceber a dimensão do processo. O mapa referente às escolhas de 2025 reuniu 2.330 vagas de formação especializada em Portugal. Desse total, 1.574 pertenceram a especialidades hospitalares, 691 a Medicina Geral e Familiar, 60 a Saúde Pública e cinco a Medicina Legal. A Medicina Geral e Familiar representou, assim, perto de 30% das vagas disponibilizadas. Estes valores tornaram mais clara a pressão associada à PNA. “A prova não funcionava apenas como uma avaliação de conhecimentos, mas também como um instrumento de ordenação para o acesso a milhares de lugares distribuídos por diferentes especialidades, instituições e regiões”, refere Afonso Lopes. “A nota acabava por cruzar preferências pessoais com a capacidade formativa existente e com as vagas que continuavam disponíveis quando chegava a vez de cada candidato escolher”.

Na Madeira, esta etapa assumiu uma dimensão particularmente próxima. Na prova realizada no Funchal em 2023 participaram 81 candidatos, de acordo com informação divulgada pelo Governo Regional. O número mostrou que, mesmo num território de menor dimensão, existia uma comunidade significativa de jovens médicos a enfrentar simultaneamente a preparação para o exame e as decisões que se seguiriam.

A ligação entre a PNA e a escolha da especialidade transportou uma pressão própria. As convidadas foram questionadas sobre as áreas que consideravam, o peso da classificação nessa decisão e a possibilidade de manterem várias opções em aberto. O episódio tentou perceber até que ponto se estudava com uma especialidade já definida ou se a escolha continuava dependente do resultado e da posição alcançada.

Para além da preparação académica, houve uma dimensão emocional que nem sempre era discutida. A pressão por um bom resultado, a comparação entre colegas e a dificuldade de preservar tempo para descansar, conviver e manter interesses fora da Medicina também fizeram parte desta etapa. Dentro do Bloco mostrou esse lado do percurso sem dramatismos, mas sem esconder a exigência que o acompanhava.

O percurso das convidadas inseriu-se numa realidade europeia igualmente marcada pela necessidade de formar e distribuir profissionais. Em 2023, trabalhavam na União Europeia cerca de 1,98 milhões de médicos. Alemanha, Itália, França e Espanha concentravam, em conjunto, quase 60% desse total. No mesmo ano, formaram-se aproximadamente 15 novos médicos por cada 100 mil habitantes no espaço europeu. Os dados europeus revelaram também diferenças acentuadas entre países. Em 2023, a Áustria registava 551 médicos em exercício por cada 100 mil habitantes, enquanto a Finlândia apresentava 288. O Eurostat assinalou que o número de médicos por habitante aumentara em todos os Estados-membros entre 2018 e 2023, mas alertou para o envelhecimento da profissão: em dez países, mais de 39% dos médicos tinham 55 ou mais anos. Formar novos profissionais era, por isso, apenas uma parte do desafio. Fixá-los, garantir capacidade formativa e distribuí-los de acordo com as necessidades da população continuavam a ser questões centrais.

Também a presença feminina na profissão tinha vindo a aumentar. Em 2023, 18 dos 26 países da União Europeia com dados disponíveis já tinham mais médicas do que médicos. Esta transformação acompanhava uma mudança visível nas próprias faculdades e ajudou a enquadrar percursos como os de Júlia Dória e Luana Pantaleão, duas estudantes prestes a entrar numa profissão em renovação geracional e demográfica.

No final da conversa, as convidadas deixaram conselhos para quem começava a estudar Medicina na Madeira e para os estudantes que se preparavam para a mudança para Lisboa. Mais do que oferecer respostas definitivas, o episódio reuniu experiências que podiam ajudar outros alunos a enfrentar cada transição com expectativas mais próximas da realidade.

Dentro do Bloco é uma produção do Núcleo de Estudantes de Medicina da UMa e da Académica da Madeira, na rádio TSF Madeira 100FM. O programa deu voz aos estudantes e aproximou a comunidade das experiências, dos desafios e das escolhas que marcaram a formação em Medicina. O episódio está disponível nas principais plataformas de podcast.

Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Artur Tumasjan.

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