A Cadmus edita a obra 1566, novo romance histórico de Horácio B. Gouveia, obra que revisita um dos episódios mais marcantes da história da Madeira e do Porto Santo no século XVI, o ataque dos corsários franceses que, em meados desse século, atingiu a cidade do Funchal, deixando uma memória de devastação, medo e vulnerabilidade num território atlântico então marcado pela prosperidade.
O livro, que será lançado a 10 de julho, pelas 18:00, no Teatro Municipal do Funchal, parte de uma data que permanece associada a um dos momentos mais dramáticos da história insular. Em 1566, Pierre Bertrand de Monluc comandou uma armada de corsários franceses que avançou sobre a Madeira, num tempo em que as defesas locais se revelavam frágeis perante a escala da ameaça. A ficção acompanha esse ambiente de sobressalto, aproximando o leitor de uma cidade ainda jovem, exposta ao mar, à cobiça e às incertezas próprias de uma ilha situada no centro das rotas atlânticas.
A narrativa conduz-nos à recém-criada cidade do Funchal, com cerca de oito mil habitantes e aproximadamente três mil escravos, num século em que a riqueza do arquipélago convivia com profundas desigualdades, dependências económicas e riscos militares. Através da figura de Afonso Ayres da Câmara, um dos mais abastados proprietários da ilha, o romance cruza a vida familiar, a defesa do património, a instabilidade política e o avanço de uma violência que viria a marcar a memória coletiva madeirense.
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1566 não é, contudo, apenas uma reconstrução de acontecimentos. Horácio B. Gouveia trabalha a matéria histórica a partir de uma imaginação narrativa que procura devolver a espessura humana ao passado. O autor reconhece que a obra nasceu inicialmente sem a intenção rígida de corresponder a uma narrativa histórica, mas que, mais tarde, esse cuidado se impôs, permitindo-lhe enquadrar a vida de uma família madeirense abastada nos acontecimentos que ficaram registados pela História.
Nesse equilíbrio entre rigor e liberdade literária, a ficção assume um papel decisivo. O próprio autor admite que, em alguns aspetos, a invenção prevalece sobre o que efetivamente aconteceu, não para obscurecer os factos, mas para dar continuidade narrativa, tensão dramática e densidade às personagens. Ainda assim, Horácio B. Gouveia sublinha que, no final da leitura, o leitor ficará com uma ideia clara do que sucedeu naquele ano fatídico a alguns dos antepassados madeirenses.
A curiosidade pelo século XVI e pelo quotidiano da Madeira quinhentista foi uma das forças que deu origem ao livro. O autor procurou compreender “como seria a vida na ilha da Madeira e em particular na cidade do Funchal, no século XVI, como teria sido o ataque dos corsários”, estudando com particular interesse “a vida nos anos 1500, armas, barcos, vestuário” e uma cidade onde muitas casas se concentravam junto à orla costeira, construídas em grande parte em madeira.
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Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, Horácio B. Gouveia não se estreia agora na ficção, tendo já publicado um romance e um livro de memórias. A sua relação com a literatura tem, porém, uma dimensão familiar incontornável. Filho único de uma das mais marcantes figuras da literatura madeirense, de quem herdou o nome, cresceu num ambiente em que os livros, a leitura e a atenção ao passado ocupavam um lugar central.
Essa formação íntima surge, nas palavras do autor, associada à influência do pai: “o interesse pela literatura, ao fim de muitos anos, concluo ficar a dever-se a meu pai.” Recorda que, ainda criança, começou a receber livros como oferta, primeiro com os romances de aventura de Emílio Salgari, comprados na papelaria Condessa, no Funchal, e depois com leituras como A Morgadinha dos Canaviais e Uma Família Inglesa, que lia nas férias, em Ponta Delgada, à luz da vela, numa casa onde a eletricidade só viria a ser instalada em 1976.
As viagens a Lisboa, duas ou três vezes por ano, também ajudaram a consolidar esse convívio com os livros. Horácio B. Gouveia recorda as idas com o pai às livrarias Bertrand, Portugal, Sá da Costa e Centro do Livro Brasileiro, bem como a um quiosque no Parque Mayer onde escolhia os volumes que queria ler. “Meu pai nunca recusava comprar os livros que lhe pedia”, afirma o autor, reconhecendo que foi assim que aprendeu a conviver com a leitura e a seguir os conselhos recebidos.
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A publicação de autores regionais continua a enfrentar, em vários países europeus, um obstáculo que não se resume à qualidade literária das obras, mas à própria estrutura do mercado editorial. Num setor em que se publicam “cerca de 580 mil títulos por ano” na Europa e em que o mercado do livro atingiu, em 2024, “24,9 mil milhões de euros” em volume nominal, a abundância editorial não significa necessariamente maior diversidade de acesso. Pelo contrário, autores afastados dos grandes centros culturais e mediáticos encontram maiores dificuldades em chegar às livrarias, à crítica, aos meios de comunicação nacionais e aos circuitos de distribuição, ficando muitas vezes dependentes de editoras que conhecem o território, valorizam a memória local e assumem o risco de publicar obras que dificilmente entrariam, de imediato, nas prioridades comerciais dos grandes grupos.
Essa dificuldade é também económica. A Comissão Europeia reconhece que muitos leitores não têm acesso à “riqueza e diversidade da literatura europeia”, em parte porque obras de muitos países continuam a ser “raramente traduzidas” para outras línguas europeias. Ao mesmo tempo, estudos e levantamentos de associações de escritores mostram a fragilidade da profissão. Em Espanha, 77% dos autores recebem “menos de 1.000 euros por ano”, e em Itália 37,8% dos escritores exercem a escrita a tempo inteiro, mesmo sem que isso garanta rendimento suficiente. Neste contexto, como explica Carlos Diogo Pereira, editor da Cadmus, “editar autores regionais é mais do que lançar um livro, é contrariar a concentração do mercado, preservar vozes literárias ligadas a comunidades concretas e permitir que temas com raiz local possam disputar espaço num mercado cada vez mais competitivo”.
Com 1566, a Cadmus reforça a sua aposta na promoção de autores e temas madeirenses, dando lugar a uma obra que procura aproximar o romance histórico da memória insular. Entre o documento e a imaginação, entre o ataque corsário e a vida quotidiana, entre a cidade vulnerável e a resistência possível, Horácio B. Gouveia propõe uma viagem literária à Madeira do século XVI, num livro em que a História e a ficção se encontram para reabrir uma data de terrível memória.
Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Pedro Pessoa.