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O olhar que transforma momentos em memória

O olhar que transforma momentos em memória

A fotografia está no centro deste episódio, numa conversa sobre o olhar, a técnica, os bastidores, a edição, os eventos, as redes sociais e tudo o que transforma um simples clique numa imagem com memória.
Painel do PEÇO A PALAVRA de 15 de julho de 2026.

A emissão do Peço a Palavra desta semana, na antena da TSF Madeira, entra no universo da fotografia e procura perceber o que existe antes e depois de uma imagem. O novo episódio, produzido pela Académica da Madeira numa emissão em colaboração com a The Frame Agency, parte de uma realidade comum a quase todos, a presença constante da fotografia nos concertos, nos eventos, no desporto, nas marcas, nas redes sociais e na forma como cada pessoa guarda momentos da sua vida.

À conversa juntam-se Beatriz Freitas, Mateus Fernandes e Sara Falcão, três convidados com percursos diferentes na fotografia. Mateus Fernandes fotografa há três anos e tem vindo a consolidar o seu trabalho nesta área. Beatriz Freitas é fotógrafa há um ano e representa a fase inicial de descoberta, aprendizagem e construção de confiança. Sara Falcão, fotógrafa baseada em Portugal continental, regressa à Madeira para fotografar o Summer Opening, como tem feito nos últimos anos, trabalhando em áreas como concertos, eventos, desporto, pessoas e marcas.

Gabriel Soares e Luís Eduardo Nicolau, da The Frame Agency, conduzem a emissão, que procura olhar para a fotografia num cenário que rompe com a ideia imediata do clique. O episódio aborda primeiros trabalhos, inseguranças, bastidores, edição, redes sociais, clientes, eventos, concertos, desporto e a diferença entre tirar fotografias e ser fotógrafo. Como refere Gabriel Soares, “quase todos fotografam, poucos param para pensar no que significa realmente fazer uma boa imagem”.

O ponto de partida da conversa é uma pergunta simples, embora cada vez mais atual, quando alguém pega numa câmara procura primeiro a imagem perfeita ou procura perceber a história que está à sua frente? A partir daí, o episódio entra na relação entre técnica, olhar e responsabilidade. Para Gabriel Soares, “a fotografia não começa no botão da câmara. Começa na forma como alguém observa, escolhe o enquadramento, percebe a luz e decide que momento merece ficar”.

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Na Europa, a fotografia continua a ter uma expressão económica relevante dentro das indústrias culturais e criativas. O Eurostat indica que, em 2023, existiam cerca de 2,1 milhões de empresas culturais na União Europeia, correspondendo a 6,4% do total de empresas da economia empresarial. Dentro desse universo, as atividades fotográficas integram o conjunto das empresas culturais de menor escala, muito dependentes de profissionais independentes, microempresas e trabalho por projeto. Esta realidade ajuda a enquadrar um dos temas do episódio, a fotografia como profissão construída entre talento, equipamento, tempo de edição, relação com clientes e capacidade de transformar acontecimentos em memória visual.

Também no consumo privado a fotografia mantém peso próprio. As Estatísticas da Cultura de 2024, do Instituto Nacional de Estatística, mostram que as despesas das famílias portuguesas com serviços fotográficos cresceram 12,5%, enquanto as despesas com cinema, teatro e concertos aumentaram 4,3%. A nível europeu, estudos de mercado estimam que o setor dos serviços fotográficos valia cerca de 3,5 mil milhões de dólares em 2024 e poderá atingir 5 mil milhões em 2035, enquanto o mercado europeu de impressão fotográfica foi estimado em 4,8 mil milhões de dólares em 2024. Essa arte continua ligada a eventos, espetáculos, marcas, retratos, memória familiar, impressão e objetos físicos, confirmando que a imagem permanece como registo afetivo e profissional.

A dimensão desta discussão é maior do que parece. Segundo o relatório Digital 2026 Portugal, da DataReportal, o Instagram tinha 6,35 milhões de utilizadores em Portugal no final de 2025, o equivalente a cerca de 61% da população nacional. Estes números ajudam a perceber a centralidade da imagem na comunicação contemporânea. A fotografia deixou de estar apenas nos álbuns, nos jornais ou nas exposições, passando a organizar grande parte da presença pública de pessoas, instituições, empresas, eventos e marcas.

Esse contexto atravessa uma das primeiras ideias debatidas na rubrica Estigmas, a frase “hoje qualquer pessoa é fotógrafo, porque qualquer telemóvel tira boas fotografias”. A conversa não desvaloriza a evolução dos equipamentos, em especial dos telemóveis, que tornaram a fotografia mais acessível. Ainda assim, “procura distinguir acesso técnico de domínio visual. Ter uma câmara no bolso não significa saber compor, antecipar um momento, ler um ambiente difícil ou entregar um trabalho consistente”.

Homenagem às mulheres ucranianas

Evento no Funchal homenageia, a 20 de junho, mulheres ucranianas residentes na Madeira com testemunhos e exposição fotográfica sobre resiliência e esperança.

As estimativas internacionais reforçam esta transformação. A Rise Above Research estima que, em 2024, existissem mais de 11 biliões de fotografias guardadas em todo o mundo e prevê que sejam captadas mais de 2,3 biliões de imagens por ano até 2028. A escala impressiona, embora também coloque uma pergunta central para o episódio, “num mundo saturado de imagens, o que faz uma fotografia permanecer na memória?”.

Outra discussão no programa é a ideia de que “para começar na fotografia é preciso ter logo material caro”. Beatriz Freitas é convidada a refletir sobre o seu primeiro ano como fotógrafa, entre a vontade de evoluir, a pressão do equipamento e a aprendizagem feita no terreno. A emissão procura mostrar que o investimento técnico pode ser importante, embora dificilmente substitua a prática, o estudo de referências, a capacidade de observar e a experiência acumulada em cada trabalho.

O episódio também passa pela construção de uma identidade visual. Mateus Fernandes é desafiado a comentar a ideia de que “um bom fotógrafo tem sempre de ter um estilo muito definido”. A conversa abre espaço para falar de evolução, experimentação e erro, sobretudo nos primeiros anos. Em vez de apresentar o estilo como uma obrigação imediata, o programa trata-o como resultado de tempo, maturidade e contacto com diferentes contextos de trabalho.

A experiência de Sara Falcão permite aprofundar a fotografia de concertos e eventos, muitas vezes reduzida à ideia de estar no lugar certo e carregar no botão no momento certo. A conversa mostra outra realidade, feita de luz difícil, movimento, pressão, acessos, alinhamentos, leitura de palco, relação com equipas de produção e prazos apertados. Num evento como o Summer Opening, a preparação começa antes da primeira fotografia, com conhecimento do espaço, zonas de circulação, horários, credenciais, equipamento e atenção constante ao que pode acontecer.

Este ponto ganha relevância quando se olha para o setor cultural e criativo. As Estatísticas da Cultura de 2024, publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística, indicam um crescimento de 12,5% nas despesas das famílias com serviços fotográficos e uma subida de 4,3% nas despesas com cinema, teatro e concertos. Estes dados mostram que a fotografia continua ligada a experiências presenciais, memória cultural e vida pública, mesmo num tempo em que a circulação digital das imagens parece dominar quase tudo.

A rubrica Palavras Cruzadas cruza os três percursos dos convidados e procura perceber como a fotografia entrou na vida de cada um. Mateus Fernandes é convidado a recordar o momento em que percebeu que a fotografia podia ser mais do que um gosto. Beatriz Freitas fala sobre a diferença entre gostar de fotografar e assumir um trabalho perante alguém. Sara Falcão reflete sobre a entrada da fotografia na sua vida profissional e sobre o que muda quando passa de um concerto para uma marca, de um evento para o desporto ou de pessoas para animais.

A fotografia de cães, uma das paixões de Sara Falcão, abre uma dimensão menos previsível da conversa. Fotografar animais exige paciência, atenção ao movimento e capacidade de aceitar que nem tudo pode ser controlado. Esse tema permite regressar a uma ideia que atravessa todo o episódio, a fotografia depende de técnica, embora também dependa de relação, espera, empatia e leitura do que está vivo diante da lente.

O programa dedica ainda espaço ao trabalho invisível que acompanha cada imagem. Muitas vezes, quem vê uma fotografia pronta não imagina a preparação anterior nem as horas posteriores de seleção, edição, exportação, organização e entrega. A emissão aborda a dificuldade de explicar o preço de um trabalho fotográfico a quem vê apenas o instante do clique, sem contar deslocações, equipamento, software, armazenamento, tempo de edição, experiência e responsabilidade profissional.

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O novo episódio do PEÇO A PALAVRA explora a transição dos estudantes de Medicina da UMa para os anos clínicos em Lisboa, reunindo testemunhos sobre vantagens, custos e o impacto desta mudança na formação e na vida académica.

Essa dimensão profissional é reforçada pelos dados de mercado. De acordo com a análise setorial da IBISWorld sobre atividades fotográficas em Portugal, existiam 3.282 empresas nesta área em 2025, com um crescimento médio anual de 1% no número de negócios entre 2020 e 2025. O mesmo relatório assinala uma contração do tamanho do mercado no mesmo período, o que ajuda a perceber a tensão entre a multiplicação de profissionais, a pressão sobre preços e a necessidade de valorizar melhor o trabalho criativo.

As redes sociais são outro eixo da emissão. Para muitos fotógrafos, o Instagram funciona como portefólio, montra, contacto com clientes e arquivo público de trabalho. Ao mesmo tempo, cria novas pressões, como a comparação permanente, a necessidade de publicar com frequência e a tentação de medir o valor de uma imagem pelo número de reações. Beatriz Freitas é convidada a refletir sobre essa pressão no início do percurso, enquanto Mateus Fernandes e Sara Falcão ajudam a pensar a diferença entre presença digital e consistência profissional.

A conversa passa ainda pela edição e pela frase “editar uma fotografia é enganar a realidade”. O episódio procura tratar a edição como parte natural do processo fotográfico, desde a correção de luz e cor até à criação de uma linguagem coerente. Ao mesmo tempo, levanta a questão dos limites éticos, sobretudo quando a edição altera o sentido do que aconteceu. A fotografia pode interpretar a realidade, embora não deva perder a consciência da responsabilidade que transporta.

No final, os convidados são desafiados na rubrica Peço a Palavra. Beatriz Freitas é convidada a dirigir-se aos jovens que querem começar na fotografia, aos clientes ou às pessoas que ainda desvalorizam este trabalho. Mateus Fernandes pode pedir a palavra aos fotógrafos mais experientes, aos que estão no início ou ao público que consome imagens todos os dias. Sara Falcão é chamada a deixar uma mensagem aos organizadores de eventos, às marcas, aos artistas e a quem ainda pensa que uma fotografia nasce num segundo.

O novo episódio do Peço a Palavra mostra que a fotografia continua a ser uma forma de parar o tempo, embora também seja uma maneira de o compreender. Entre o telemóvel e a câmara profissional, entre o evento e a edição, entre a memória pessoal e a comunicação pública, há sempre uma escolha de olhar. Num tempo em que todos produzem imagens, talvez seja ainda mais importante perceber quem sabe transformá-las em narrativa, presença e memória.

O Peço a Palavra é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência, a Tecnologia, a Cultura e a participação estudantil estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 1969. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.

Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Reinhart Julian.

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