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Quando a vida académica também se ouve

Quando a vida académica também se ouve

O Peço a Palavra dá voz a estudantes músicos que conciliam a exigência académica com a criação artística, mostrando como a música também forma, integra e ajuda a permanecer na universidade.
Painel do PEÇO A PALAVRA de 20 de maio de 2026.

A emissão do Peço a Palavra desta semana, na antena da TSF Madeira, é dedicada aos estudantes músicos. O episódio, em parceria com a Associação para Promoção da Herança Madeirense, olha para jovens que vivem a universidade sem deixarem a criação artística à porta da sala de aula, conciliando cursos exigentes com ensaios, actuações, composição, produção musical e projectos próprios.

O novo episódio junta três percursos diferentes, unidos pela mesma relação com a música. Tiago Andrade, estudante de Bioquímica, integra os FATUM, o grupo de fados universitário fundado em 2010, e a Tuna Universitária da Madeira, criada nos anos 1990. Gabriel Ribeiro, cantor e compositor, é estudante de Marketing Digital e Turismo na Universidade da Madeira. Diogo Silva, estudante de Engenharia Informática, é produtor musical e ingressou também em Engenharia Física e Computacional. A conversa é conduzida por Eduardo Ferreira e Manuel Gonçalves, do painel do programa.

Eduardo Ferreira refere que “além de falar sobre gostos musicais, o programa procura compreender o lugar da música na vida de quem estuda”. Para muitos jovens, explica, “tocar, cantar, compor ou produzir não é apenas uma ocupação dos tempos livres. É uma forma de disciplina, de expressão pessoal e de construção de identidade. Em alguns casos, é também o início de um caminho profissional”.

A importância deste tema supera a experiência individual dos convidados. Em Portugal, a cultura continua a afirmar-se como uma área relevante na vida económica e social. Segundo as Estatísticas da Cultura 2024, divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística, as actividades culturais e criativas reuniam, em 2023, 79.706 empresas, responsáveis por 8,8 mil milhões de euros de volume de negócios e 3,3 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto. Estes números ajudam a contrariar a ideia de que a cultura pertence apenas ao campo do lazer.

Monumental Serenata Académica da Madeira

Renovando o gosto pela canção nacional, a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa, e a sequente elevação pela UNESCO deram início a

A música, em particular, ocupa um espaço muito próprio na vida académica. Está presente nos grupos de fados, nas tunas, nos grupos corais, nos projectos informais, nos estúdios improvisados e nas composições que nascem depois das aulas. Muitas vezes, como refere Eduardo Ferreira, “estas práticas não surgem nos planos curriculares, mas têm um impacto evidente na formação dos estudantes. Ensinam compromisso, escuta, exposição pública, responsabilidade e capacidade de trabalhar com outros”.

O episódio parte também de uma constatação simples de que “a universidade exige muito, mas nem sempre aquilo que exige se resume ao estudo”. A adaptação ao ensino superior pode trazer pressão, solidão, dúvidas sobre o futuro e dificuldade em encontrar um lugar dentro da instituição. No programa, conhecemos a realidade de vários estudantes, quando a música funciona como ponto de equilíbrio. “Não elimina os problemas, mas cria rotina, pertença e uma forma de respirar no meio da exigência académica”, destaca Manuel Gonçalves.

A relação entre artes, saúde e bem-estar tem sido cada vez mais estudada. Uma revisão da Organização Mundial da Saúde, baseada em mais de 3.000 estudos, destacou o papel das actividades artísticas na promoção da saúde, na prevenção da doença e no apoio ao bem-estar mental. O relatório europeu CultureForHealth aponta no mesmo sentido, sublinhando que a participação cultural pode contribuir para a qualidade de vida, para a integração social e para a redução de experiências associadas à ansiedade e à depressão.

Esta dimensão ganha destaque quando se olha para o abandono no ensino superior. Dados analisados a partir da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência mostram que, entre 2017-2018 e 2021-2022, a taxa de abandono subiu no ensino universitário de 9,8% para 11% e no ensino politécnico de 12,3% para 15,6%. Nos cursos técnicos superiores profissionais, a taxa atingiu 25,6% em 2021-2022. A permanência no ensino superior depende, por isso, de muito mais do que o acesso inicial.

Permanecer na universidade “implica sentir que se pertence a algum lugar. As actividades extracurriculares podem ter aqui um papel decisivo, não como entretenimento acessório, mas como parte da experiência académica”, como reforça Eduardo Ferreira. Estudos sobre o envolvimento dos estudantes no ensino superior português têm sublinhado a importância das actividades culturais, associativas e recreativas para a integração, para a persistência nos estudos e para uma formação mais completa.

É neste contexto, como destaca o painel, que a música produzida nas universidades deve ter um papel central. Grupos como os FATUM e a Tuna Universitária da Madeira não são apenas espaços de actuação, mas “comunidades onde se aprende a respeitar uma tradição, a ensaiar com regularidade, a representar uma instituição e a participar numa memória colectiva que atravessa gerações de estudantes”.

No caso de Tiago Andrade, a conversa permite olhar para a música académica como uma experiência de pertença e continuidade. O fado de Coimbra, as tunas e os grupos universitários dependem sempre de estudantes que assumem essa herança e a fazem avançar. A tradição, quando é vivida por jovens, não fica parada no passado. O percurso de Gabriel Ribeiro traz para o episódio outra realidade. Ser cantor e compositor hoje implica lidar com um mundo em que a exposição digital parece estar sempre presente. As redes sociais facilitaram a divulgação, explica, mas também criaram uma pressão constante para publicar, aparecer e disputar atenção. O talento continua a importar, mas já não vive separado da capacidade de comunicar. Diogo Silva introduz uma dimensão cada vez mais central na música contemporânea, a produção musical digital. A facilidade de acesso a ferramentas de gravação e edição abriu portas a muitos jovens criadores, mas não tornou o processo simples. Produzir música exige técnica, sensibilidade e um investimento em tempo. O computador, como refere, é apenas o instrumento mais visível de um trabalho que continua a depender de ouvido, critério e persistência.

O episódio aborda ainda o impacto da inteligência artificial na criação musical. Num tempo em que já é possível gerar melodias, vozes e ambientes sonoros através de ferramentas automáticas, torna-se inevitável perguntar o que distingue a criatividade humana. A tecnologia pode acelerar processos, mas não substitui a experiência de quem cria a partir de uma história, de uma intenção e de uma forma própria de estar no mundo. Na rubrica Estigmas, os convidados são desafiados a comentar ideias que muitos estudantes músicos já ouviram. A noção de que a música é apenas um passatempo, a ideia de que a produção musical se resume a mexer num computador ou a convicção de que um curso exigente não deixa espaço para criar servem de ponto de partida para uma conversa mais franca sobre tempo, ambição e reconhecimento. Há também espaço para um momento mais descontraído na rubrica Exame de Recurso, com perguntas sobre música, indústria musical, produção digital e cultura académica. O tom é leve, mas ajuda a mostrar que há conhecimento técnico e cultural por detrás de práticas que, vistas de fora, podem parecer simples.

Monumental Serenata

Coimbra tem mais encanto Na hora da despedida Que as lágrimas do meu pranto São a luz que lhe dá vida. Milhares de versos escritos por diversos autores e que

O novo episódio do Peço a Palavra mostra que “a universidade não se faz apenas de aulas, exames e diplomas. Faz-se também de ensaios, palcos, projectos pessoais e encontros que marcam a vida dos estudantes”, reforça Eduardo Ferreira. A música pode não constar no certificado final, mas pode ser uma das experiências que mais contribuem para a formação de quem passa pelo ensino superior. Uma conversa sobre estudantes músicos, mas também sobre a própria ideia de universidade. “Uma instituição que reconhece a criação artística reconhece melhor os seus estudantes. E uma vida académica que dá lugar à música torna-se mais humana, mais completa e mais capaz de responder aos desafios de quem está a construir o futuro”.

O Peço a Palavra é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 1969. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em directo, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.

Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Dorian Bogdańska.

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