Os estudantes das regiões ultraperiféricas da União Europeia continuam a enfrentar obstáculos que raramente fazem parte do debate europeu sobre ensino superior. Num artigo recentemente divulgado pela European Students’ Union (ESU), a organização que representa 43 uniões nacionais de estudantes de 40 países recorda que a Europa não se limita às grandes cidades universitárias do continente, abrangendo também territórios como a Madeira, os Açores, a Martinica, a Guadalupe, a Guiana Francesa, Mayotte, São Martinho e a Reunião.
A ESU sublinha que, nestes territórios, o acesso ao ensino superior é frequentemente condicionado pelo isolamento geográfico, pelos elevados custos de mobilidade e pela reduzida oferta formativa. Para muitos estudantes, a escolha resume-se a abandonar a sua região para prosseguir estudos ou permanecer num território onde as oportunidades académicas são mais limitadas. A organização considera que ninguém deveria enfrentar este dilema apenas em função do local onde nasceu.
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Os desafios são particularmente relevantes quando se observam alguns indicadores demográficos. As nove regiões ultraperiféricas da União Europeia somam cerca de cinco milhões de habitantes, mas encontram-se dispersas por três oceanos e milhares de quilómetros de distância do continente europeu. No caso da Madeira, por exemplo, a distância a Lisboa ultrapassa os 900 quilómetros, enquanto a ilha da Reunião se encontra a quase 9.500 quilómetros de Bruxelas. Esta realidade traduz-se em custos de deslocação significativamente superiores aos enfrentados pela maioria dos estudantes europeus.
Apesar dessas dificuldades, a ESU destaca o papel estratégico das instituições de ensino superior localizadas nestes territórios. Muitas delas desenvolvem investigação de referência em áreas como as ciências do mar, alterações climáticas, energias renováveis, turismo sustentável e biodiversidade. No conjunto da União Europeia, as regiões ultraperiféricas representam mais de 80% da biodiversidade comunitária, transformando estas instituições em parceiros fundamentais para responder a desafios científicos de dimensão global.
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A organização estudantil alerta também para os efeitos da quebra demográfica e da saída de jovens qualificados. O fenómeno do chamado brain drain continua a afetar várias regiões ultraperiféricas, reduzindo a capacidade de renovação económica e social destes territórios. A existência de universidades capazes de gerar investigação, inovação, empreendedorismo e emprego qualificado é apontada como uma das principais ferramentas para contrariar esta tendência.
No final do texto, a ESU defende que os estudantes das regiões ultraperiféricas devem participar mais ativamente na definição das políticas europeias para o ensino superior. A organização considera que estes jovens não podem continuar a ser vistos como uma realidade periférica ou marginal, afirmando que os seus desafios são também desafios europeus. A mensagem deixada é clara: as vozes das regiões ultraperiféricas devem estar presentes nos espaços onde se decide o futuro do Espaço Europeu de Ensino Superior.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Maxinal Focus.
