O debate sobre o acesso ao ensino superior voltou a ganhar destaque depois da divulgação do Balanço Anual da Educação 2026, do Edulog. A análise procura compreender os efeitos das alterações introduzidas nas regras de candidatura em 2025, ano em que passou a ser exigida aprovação em pelo menos dois exames nacionais para ingresso numa licenciatura. A medida acabaria por ser revertida posteriormente, regressando o sistema à exigência de apenas uma prova de ingresso.
Entre as conclusões do estudo, apresentadas no PÚBLICO, encontra-se uma associação entre o número de provas de ingresso e o sucesso académico. Os investigadores verificaram que os estudantes admitidos com apenas um exame apresentam uma probabilidade mais elevada de abandonar o curso durante o primeiro ano. A diferença é relativamente reduzida, cerca de 0,6 pontos percentuais, mas mantém-se mesmo quando são consideradas variáveis como o contexto social, as classificações de candidatura e o percurso escolar anterior.
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A análise mostra igualmente que a quebra de candidatos registada em 2025 se concentrou nos cursos que historicamente apresentam maiores dificuldades de retenção dos estudantes. Nas formações com menores taxas de abandono, a procura em primeira opção diminuiu apenas 4,5%. Já nos cursos com abandono médio de 8,5%, a redução atingiu 28,4%, sugerindo que as alterações nas regras afastaram sobretudo candidatos cuja permanência no ensino superior já era mais incerta.
Os autores identificam vários fatores para a diminuição do número de candidatos. Entre eles encontram-se a redução demográfica, a descida das taxas de conclusão do ensino secundário e o aumento das exigências associadas aos exames nacionais. O impacto foi particularmente visível entre os estudantes provenientes das vias profissionalizantes, para quem a realização de provas de ingresso representa um desafio adicional.
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O relatório alerta ainda para um problema estrutural que vai além das regras de acesso. A quebra de procura incidiu sobretudo em áreas, instituições e regiões que já apresentavam fragilidades anteriores. Para os investigadores, o fenómeno evidencia um desajustamento persistente entre a oferta formativa e as preferências dos candidatos, exigindo uma reflexão sobre a distribuição de vagas e a organização da rede de ensino superior.
Apesar disso, os autores rejeitam a ideia de restringir o acesso ao ensino superior. O coordenador do estudo, Hugo Figueiredo, defende que a massificação continua a ser desejável, desde que seja acompanhada por condições que promovam o sucesso académico. A conclusão principal é que o acesso não deve ser analisado isoladamente. Aumentar o número de ingressos sem melhorar a permanência e a conclusão dos cursos, ou aumentar a seletividade sem demonstrar ganhos efetivos de sucesso, são estratégias que deixam por resolver uma parte importante do problema.
Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Yaroslav Talyzin.
