Há momentos que marcam uma vida. Para milhares de jovens, um deles acontece muito antes do primeiro emprego, da independência financeira ou da constituição de uma família. Acontece ainda nos corredores da escola secundária, quando a pergunta “O que vais fazer para o ano?” deixa de ser uma curiosidade e passa a ser uma exigência.
De repente, tudo parece depender de uma decisão. Escolher um curso. Escolher uma cidade. Escolher entre ficar ou partir. Escolher um caminho que, muitas vezes, nem se conhece verdadeiramente.É um peso demasiado grande para quem ainda está a descobrir quem é.
A sociedade habituou-se a dizer que esta é apenas mais uma etapa. Não obstante, para quem a vive, é muito mais do que isso. É um período marcado por noites mal dormidas, pela pressão das médias, pelos exames nacionais, pelas comparações constantes com colegas que parecem ter tudo decidido e pelo receio silencioso de falhar antes mesmo de começar.
Ainda persistem frases que, repetidas geração após geração, acabam por moldar a forma como muitos jovens olham para si próprios: “Quem ainda não sabe o que quer estudar está atrasado.”; “Há cursos com futuro e cursos sem futuro.”; “A escolha do curso define o resto da vida.”Mas será mesmo assim?
Como são os exames do secundário pelo mundo
A maioria dos países mantém exames no final do secundário, mas cada sistema define de forma distinta o seu peso na conclusão dos estudos e no acesso ao ensino superior.
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A verdade é que nunca existiram tantos percursos possíveis. Nunca foi tão comum mudar de área, regressar aos estudos, reinventar uma carreira ou descobrir uma vocação anos depois da entrada na universidade. O mercado de trabalho transforma-se a um ritmo acelerado e exige capacidade de adaptação muito mais do que certezas absolutas.
Apesar disso, continuamos a pedir a jovens de 17 ou 18 anos que façam uma escolha como se ela fosse irreversível.
Na Madeira, esta decisão ganha ainda outra dimensão. Para muitos estudantes, não basta escolher um curso. É preciso decidir se vale a pena deixar a ilha, a família, os amigos e tudo aquilo que sempre conheceram. Estudar no continente pode significar novas oportunidades; todavia, também representa custos elevados, saudade, distância e uma independência para a qual nem todos se sentem preparados. Permanecer na Região, por outro lado, continua, injustamente, a ser visto por alguns como uma escolha menos ambiciosa, quando pode representar exatamente o contrário: uma decisão consciente, sustentável e alinhada com um projeto de vida.
No meio desta encruzilhada, muitos jovens sentem que lhes falta aquilo de que mais precisam: tempo para pensar e informação para decidir.
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As escolas desempenham um papel essencial; contudo, a orientação vocacional continua, muitas vezes, a ser insuficiente. Faltam momentos de contacto direto com universidades, estudantes universitários, profissionais das diferentes áreas e exemplos reais que mostrem que nenhum percurso é igual ao outro. Falta, sobretudo, dizer aos jovens que é normal ter dúvidas.
Porque a universidade não é apenas um destino académico. É um espaço onde se cresce, se falha, se aprende, se criam amizades para a vida, se descobrem talentos e se ganha autonomia. É uma etapa de transformação pessoal que vai muito além das salas de aula.
Talvez esteja na altura de mudarmos a pergunta. Em vez de exigir que um jovem saiba exatamente o que quer fazer para o resto da vida, talvez devêssemos perguntar-lhe quem gostaria de se tornar.
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No fim, a decisão continuará a ser importante. Porém, nunca deveria ser um fardo. O futuro não se constrói numa candidatura ao ensino superior. Constrói-se todos os dias, com escolhas, aprendizagens, mudanças de rumo e coragem para recomeçar quando for necessário.
Porque crescer nunca foi sinónimo de ter todas as respostas. É, acima de tudo, aprender a viver com as perguntas e continuar a caminhar, até porque, no final: «O meu caminho eu faço a pensar em regressar / À minha casa, é ilha, paz, madeira» – Napa, Deslocado.
Miguel Barata
Associação para Promoção da Herança Madeirense
Com fotografia de Jeswin Thomas.
Artigo publicado na edição de 2 de julho de DIÁRIO.