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Ser da ilha, estudar no continente

Ser da ilha, estudar no continente

Um programa sobre a experiência dos estudantes madeirenses que estudam fora da ilha, entre desafios de alojamento, apoios sociais, identidade insular e a construção de pertença longe de casa.
Painel do PEÇO A PALAVRA emitido a 23 de julho de 2025.

A emissão do PEÇO A PALAVRA desta quarta-feira, às 16:00 na antena da TSF, vai abrir espaço ao debate sobre uma mudança que centenas de estudantes madeirenses farão a partir de setembro, pela primeira vez: a mudança para estudar em Portugal continental. Nesta emissão, o programa debate o que significa ser um estudante madeirense longe de casa. Os custos, a adaptação, a saudade e a vontade de vencer.

Neste episódio, o painel é composto por Afonso Franco, que estudou na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto; Frederica Teixeira, foi estudante na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto; Tiago Teles, que estudou na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Leonor Nunes, que estuda no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. A entrevista foi conduzida por Pedro Miguel Freitas e Luís Eduardo Nicolau.

O programa dá destaque ao problema do alojamento estudantil que, apesar de crónico, tem vindo a agravar-se ao longo dos últimos anos com a degração do mercado de arrendamento em Portugal. Encontrar alojamento é um dos maiores desafios para os estudantes madeirenses que se deslocam para o continente. Com o aumento generalizado das rendas, sobretudo nas cidades universitárias como Lisboa, Porto ou Coimbra, muitos estudantes enfrentam dificuldades em garantir um quarto acessível, seguro e próximo da universidade. As residências públicas são poucos para a necessidade existente, com apenas cerca de 15 mil camas disponíveis em todo o país, e a maioria dos estudantes deslocados acaba por recorrer ao mercado privado, onde os preços podem ultrapassar os mil euros mensais. Esta realidade coloca pressão sobre os orçamentos familiares e, em muitos casos, influencia a escolha da cidade ou da instituição de ensino superior.

No início deste ano letivo, os dados indicavam que para arrendar um quarto no país, um estudante tem de pagar, em média, 397 euros por mês, o valor mais alto dos últimos anos. Além disso, os dados de execução do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES) não são animadores. O Plano prevê disponibilizar 19.000 camas para estudantes até 2026, mas até agora só 11% destas camas estavam prontas em abril deste ano (ou seja, 2.139 camas).

Ministério que tutela o ensino superior indica alguns dados positivos: “também no ritmo das obras se verificou um progresso notável: a 22 de março de 2024, contávamos com 46 residências em obra, número que hoje subiu para 89, às quais brevemente se vão acrescentar mais 21 projetos já em fase de concurso e que brevemente transitarão para obra”.

Além da escassez de oferta pública, muitos estudantes enfrentam longas listas de espera para conseguir vaga numa residência universitária, sendo frequentemente obrigados a procurar alternativas no mercado privado. O PNAES prevê um aumento progressivo das camas disponíveis, mas o impacto dessa expansão tem sido limitado e desigual, sobretudo nas cidades com maior pressão académica. Esta realidade agrava as desigualdades regionais e sociais, penalizando particularmente os estudantes deslocados com menos recursos, que além da renda suportam ainda os encargos das viagens e da distância em relação à família.

A ação social no ensino superior público português, que foi outro dos temas em debate no programa, pretende garantir que nenhum estudante fique impedido de prosseguir estudos por razões económicas, assegurando apoios diretos, como a atribuição de bolsas de estudo. No ano letivo 2025‑2026, os estudantes que, a 31 de maio do ano anterior, foram beneficiários do 1.º, 2.º ou 3.º escalão do abono de família têm direito à atribuição automática da bolsa DGES, simplificando o processo de acesso a este apoio financeiro. Esta medida procura, de acordo com o governo, reforçar a equidade no ensino superior, respondendo com maior eficácia às situações de vulnerabilidade socioeconómica.

Para o ano letivo que terminou neste verão, o valor mínimo da bolsa de estudo foi fixado em 871,35 euros, correspondente a 125 % da propina máxima de licenciatura, atualmente estabelecida em 697 euros. Este valor representa o montante anual mínimo garantido, sendo possível o reforço da bolsa consoante o rendimento per capita do agregado familiar, o local de residência e outras condições específicas. A existência deste apoio é particularmente relevante para estudantes deslocados, como os oriundos das regiões autónomas, que enfrentam custos acrescidos com alojamento e transporte.

Além do apoio financeiro direto, a ação social escolar contempla outros instrumentos fundamentais, como o complemento de alojamento, os subsídios de transporte e alimentação, e o acesso a serviços de saúde e apoio psicológico nas instituições de ensino superior. Estes mecanismos procuram mitigar as desigualdades e criar condições mais justas de permanência e sucesso académico. No caso dos estudantes deslocados, estes apoios assumem particular importância, não só para aliviar o esforço financeiro das famílias, mas também para promover a integração e estabilidade ao longo do percurso académico. A valorização e o reforço da ação social são, por isso, elementos centrais numa política de ensino superior mais inclusiva.

Para muitos estudantes madeirenses, estudar fora da Região é uma experiência que reforça o sentido de identidade. Vários estudantes afirmam que foi precisamente ao sair da Madeira que se sentiram mais ligados à sua origem, valorizando com mais consciência os hábitos, a linguagem e a forma de estar que trazem da ilha. Para alguns, ao chegar ao continente, percebem que certos traços que sempre consideraram normais, como o sotaque ou o uso de expressões típicas, a faziam sentir “diferente”, mas não de forma negativa. Pelo contrário, serviram de ponto de partida para conversas e amizades.

Apesar disso, nem todos os momentos foram fáceis. Houve episódios de incompreensão ou comentários depreciativos, sobretudo ligados a estereótipos sobre a insularidade ou sobre o falso facilitismo associado a estudantes vindos das regiões autónomas. Ainda assim, todos partilham a ideia de que estar longe da Madeira ajudou a olhar para a ilha com olhos mais críticos, mas também mais ternos. A participação em grupos ou eventos ligados à comunidade madeirense foi, para alguns, uma forma de reencontrar um pouco de casa; para outros, um exercício de afirmação e pertença num espaço onde ser madeirense é tanto identidade como resistência.

O PEÇO A PALAVRA é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 69. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast, nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.

Luís Eduardo Nicolau
Com Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Dorian Bogdańska.

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