Estudantes do secundário falam sobre o futuro na Universidade
A emissão do Peço a Palavra desta semana, na antena da TSF Madeira, olha para uma das fases mais decisivas do percurso escolar. O novo episódio acompanha estudantes do Secundário no momento em que a escolha do Ensino Superior deixa de ser uma hipótese distante e passa a envolver médias, exames, candidaturas, custos, família, vocação e dúvidas difíceis de arrumar. À conversa juntam-se Leonor Jesus e Iago Fernandes, dois estudantes que vivem de perto a transição entre o Secundário e a Universidade. Miguel Barata e Gabriel Soares conduzem o episódio, procurando perceber como é que os jovens olham para o futuro académico, que informação chega antes da candidatura e que peso têm a Madeira, as famílias, os professores e as condições económicas nas escolhas que se fazem no final do 12.º ano. O ponto de partida da emissão é uma pergunta simples, embora difícil para muitos estudantes, quando se pensa na Universidade sente-se mais entusiasmo, pressão, curiosidade ou medo de escolher mal? Como refere Miguel Barata, “há decisões que parecem chegar cedo demais. Aos 17 ou 18 anos, muitos jovens sentem que lhes é pedido um plano de vida quando ainda estão a tentar perceber quem são, o que gostam de fazer e que futuro conseguem imaginar”. A pressão da escolha é um dos temas centrais do episódio, que parte de perguntas que se ouvem com frequência nas escolas e nas famílias, como “quem ainda não sabe o que quer estudar está atrasado”, “a escolha do curso define o resto da vida” ou “há cursos com futuro e cursos sem futuro”. A conversa procura desmontar estes estigmas, sem desvalorizar a responsabilidade da decisão. Para Gabriel Soares, “a dúvida não deve ser tratada como falha. Muitas vezes, é precisamente a dúvida que obriga o estudante a procurar informação, a comparar caminhos e a fazer uma escolha mais consciente”. O enquadramento nacional ajuda a perceber a dimensão desta transição. Segundo o estudo “Ensino Superior e Emprego Jovem em Portugal”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, Portugal registou um aumento muito expressivo da escolaridade superior nas últimas décadas. Em 2024, 43% dos jovens adultos portugueses entre os 25 e os 34 anos tinham um diploma do Ensino Superior, valor muito acima dos 11% registados no final da década de 1990. Ainda assim, o país continua abaixo de realidades como França e Espanha, onde 53% dos jovens adultos têm formação superior, e da Irlanda, que chega aos 65%. O mesmo estudo mostra que a transição para o Ensino Superior continua marcada por diferenças fortes entre percursos do Secundário. Em 2023, 76% dos estudantes que concluíram cursos científico-humanísticos prosseguiram estudos superiores, sendo que 73% ingressaram em licenciaturas ou mestrados integrados e 3% em Cursos Técnicos Superiores Profissionais. Entre os estudantes do ensino profissional, apenas 22% transitaram para o Ensino Superior, com 10% a entrar em licenciaturas ou mestrados integrados e 12% em CTeSP. Esses números dialogam diretamente com uma das perguntas do episódio, os estudantes têm informação suficiente para escolher bem? O estudo refere que, em 2023/2024, 86% dos alunos dos cursos científico-humanísticos pretendiam continuar a estudar. No ensino profissional, a realidade era diferente, com 44% a manifestarem intenção de prosseguir estudos, 29% a planearem terminar o percurso escolar e 21% ainda indecisos. A indecisão, muitas vezes vista como sinal de falta de rumo, aparece assim como parte real do processo de decisão. A conversa passa também pela orientação vocacional e pelo papel dos professores do Secundário. Leonor Jesus e Iago Fernandes foram convidados a refletir sobre o momento em que começaram a pensar seriamente na Universidade, sobre a influência das disciplinas, dos docentes, dos colegas e da família, e sobre a informação que gostariam de ter recebido mais cedo. Como observa Miguel Barata, “orientar não é empurrar um estudante para uma resposta rápida. É ajudá-lo a fazer perguntas melhores, a conhecer alternativas e a perceber as consequências de cada caminho”. A origem social dos estudantes surge como outro ponto importante. O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que, no início do Secundário, 47% dos alunos cujos pais não tinham concluído o Ensino Superior se inscreveram em percursos profissionais. Entre os estudantes com pelo menos um dos pais diplomado pelo Ensino Superior, essa percentagem descia para 20%. A escolha do percurso escolar, portanto, não depende apenas de interesses individuais. Também é influenciada pelo contexto familiar, pelas expectativas herdadas e pelas oportunidades que cada estudante encontra à sua volta. As desigualdades tornam-se ainda mais visíveis no final do Secundário. Nos cursos científico-humanísticos, 79% dos alunos sem apoio social matricularam-se no Ensino Superior no ano seguinte, enquanto entre os estudantes com escalão A da Ação Social Escolar essa percentagem foi de 62%. Nos cursos profissionais, a diferença também existe, com 25% dos alunos sem apoio social a prosseguirem estudos, contra 18% dos estudantes com o nível mais elevado de apoio social. Para Gabriel Soares, “não se pode falar de liberdade de escolha quando há estudantes que decidem condicionados pelo preço do alojamento, dos transportes, da alimentação ou pela necessidade de começar a trabalhar mais cedo”. A questão económica atravessa todo o episódio, sobretudo quando se fala em ficar na Madeira ou estudar fora da Região. Sair pode significar autonomia, novas oportunidades e contacto com outras cidades. Ficar pode significar proximidade, continuidade, apoio familiar e uma ligação mais direta à Universidade da Madeira. Nenhuma opção é tratada como menor. O episódio procura antes perceber como é que os estudantes equilibram ambição, custos, expectativas e pertença. O estudo da Fundação recorda que os custos de alojamento não estão incluídos nas estimativas da OCDE relativas aos custos diretos do Ensino Superior, embora reconheça a importância crescente do tema, sobretudo num contexto de aumento das rendas. A publicação assinala ainda que quase metade dos estudantes portugueses vive com os pais, uma realidade que pode reduzir despesas para alguns, embora não resolva o problema dos estudantes deslocados, em particular daqueles que têm de sair das regiões insulares para prosseguir determinados cursos. A rubrica Estigmas leva ainda para a
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