A emissão do Peço a Palavra desta semana, na antena da TSF Madeira, centra-se num tema decisivo para centenas de estudantes e famílias madeirenses, a transição dos anos teóricos, na Madeira, para os anos clínicos em Medicina, a partir de Lisboa. Num modelo em que a formação decorre na Universidade da Madeira (UMa) durante três anos e prossegue depois em Lisboa, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FML), a passagem do 3.º para o 4.º ano marca uma mudança de contexto. É o momento em que o estudo deixa de ser sobretudo de sala e passa a acontecer com maior peso no ambiente clínico, com contacto regular com doentes e com equipas de saúde, obrigando a reorganizar hábitos, expectativas e até a própria forma de pensar a profissão.
Gravado a 22 de dezembro de 2025, este episódio reúne testemunhos que ajudam a perceber o que, na prática, muda quando se entra nos anos clínicos. O painel contou com a participação de Margarida Quintal, estudante do 6.º ano de Medicina na FML, que descreve a experiência de viver esta transição no terreno, e de Margarida Temtem, médica especialista em cardiologia, antiga estudante na UMa, que enquadra o percurso com a distância de quem já atravessou o mesmo caminho e hoje olha para ele com outro grau de maturidade. Ao longo da conversa, discutem-se os desafios académicos e logísticos da mudança do Funchal para Lisboa, as diferenças de ambiente e de métodos de aprendizagem, e o impacto que esta etapa tem na confiança, no desempenho e na construção da identidade profissional.
A conduzir a entrevista estiveram Eduardo Ferreira e Guilherme Morais, da Académica da Madeira, que introduzem o tema com uma pergunta simples, mas inevitável: esta transição representa, para o estudante, uma vantagem ou uma desvantagem? A partir daí, o episódio aprofunda o que se ganha e o que se perde na mudança, o que a UMa consegue preparar bem e o que só o contexto clínico, em Lisboa, permite consolidar, com um olhar exigente sobre as oportunidades e os custos reais deste modelo de formação.
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Nos últimos anos, as colocações em Medicina têm mantido uma forte procura e concorrência apertada, com ajustamentos lentos na oferta. Em 2024, a DGES indicou 1 554 vagas em Medicina no Concurso Nacional de Acesso (CNA), acima das 1 541 de 2023. No ciclo seguinte, a DGES assinalou um reforço de 130 vagas em ciclos de estudos de Medicina nos regimes e concursos especiais face a 2024 e a fixação de 86 vagas para estudantes internacionais em Medicina para 2025-2026. Em paralelo, o quadro geral do CNA também ajuda a contextualizar a pressão. Na 1.ª fase de 2025 foram colocados 43 899 estudantes, com uma taxa de colocação de 90,1%, acima do valor referido para 2023 (83,7%).
Na Madeira, a leitura faz-se com números menores, mas muito expressivos. Em 2025, o Ciclo Básico de Medicina da UMa abriu 38 vagas e ficou completo na 1.ª fase, com nota do último colocado de 176,8. Para comparação, no mesmo concurso a Medicina na FML teve 299 vagas e a nota do último colocado foi 178,7, o que mostra como a fasquia se mantém elevada em todo o país. Observando a dinâmica regional do acesso, a Região Autónoma da Madeira registou 1 735 candidatos e 1 563 colocados na 1.ª fase de 2024 (90,1%), muito perto de 2023 (1 686 candidatos e 1 528 colocados, 90,6%), um sinal de estabilidade na procura e no sucesso global de colocação.
Entre estudantes e antigos estudantes, há um consenso recorrente sobre as vantagens de iniciar Medicina na UMa. As turmas e os grupos de trabalho são mais pequenos, que tendem a favorecer acompanhamento mais próximo, rotinas mais estáveis e uma integração académica menos impessoal, com tempo para consolidar bases antes da entrada no contexto clínico. Essa estabilidade facilita também a criação de grupos coesos, muitas vezes já treinados para a exigência dos anos clínicos, o que reduz a sensação de ruptura quando chega a transição para Lisboa. Para muitos madeirenses, soma-se ainda um factor decisivo e bem prático. A proximidade de casa, com apoio familiar e logístico, e a eliminação, durante três anos, dos custos de alojamento fora da Região, que hoje pesam de forma real no orçamento de qualquer família.
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Em termos nacionais, o alojamento estudantil continua a ser um dos pontos mais frágeis do sistema, por uma razão simples. A oferta pública é curta para a dimensão do problema. O Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES) tem assinalado que a rede de residências das instituições ronda as 15 mil camas e que isso representa uma cobertura de cerca de 9% face a mais de 175 mil estudantes deslocados, o que ajuda a explicar porque é que tantos acabam empurrados para o mercado privado. Do lado dos custos, o Índice de Preços do Alojamento Estudantil (Observatório do Alojamento Estudantil) apontava, em julho de 2024, um preço médio nacional de 397 euros por quarto, com variação anual de 4,2%, e mostrava como a pressão se concentra nos grandes centros, onde os valores e a escassez de quartos se tornam mais críticos, gerando instabilidade, mudanças frequentes e casos de sobrelotação ou afastamento forçado para periferias.
Apesar de Portugal surgir, em comparação internacional, com um rácio elevado de médicos, de 5,8 por 1 000 habitantes, segundo a OCDE, ainda que com a ressalva de poder incluir licenciados e não apenas profissionais no ativo, os sinais de falta de médicos sentem-se no terreno sobretudo por desigualdade territorial, envelhecimento e dificuldade em fixar clínicos no SNS, em particular nos cuidados de saúde primários. Em maio de 2025, por exemplo, o Portal da Transparência do SNS apontava 1 644 809 utentes sem médico de família, o valor mais alto desse ano até então, o que ilustra um problema que não se resolve apenas com estatísticas globais. E mesmo quando há novos médicos a entrar no sistema, a capacidade de resposta fica aquém. Na análise da Ordem dos Médicos ao Internato Médico de 2025, um terço das vagas ficou por preencher (de 690, só 461 foram ocupadas), com a Medicina Geral e Familiar a concentrar 229 vagas vazias, o que reforça a ideia de que formar mais é importante, mas formar e conseguir fixar, com condições, é decisivo.
A chamada fuga de médicos para o estrangeiro tem sido visível em indicadores que, mesmo não equivalendo sempre a uma saída efetiva, mostram intenção e pressão sobre o sistema. Entre 2022 e 2024, 2 719 médicos solicitaram à Ordem certidões de “good standing” para poderem exercer fora do país, com tendência de subida de ano para ano (803 em 2022, 944 em 2023 e 972 em 2024). Em paralelo, nos “Números da Ordem 2024”, a Ordem dos Médicos registou 2 312 inscrições suspensas, e mais de metade (54,4%) teve como objetivo trabalhar no estrangeiro, com 1 257 casos, apontando como destinos mais frequentes França (26,8%), Reino Unido (18,1%) e Espanha (13,4%). Os dados ajudam a perceber porque é que a discussão sobre formar mais médicos não pode ficar só no acesso ao curso. Sem condições de fixação, carreira e previsibilidade, a saída continua a ser uma opção racional para muitos, sobretudo nos momentos de transição e especialização.
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O novo Hospital Central e Universitário da Madeira, em construção no Funchal, é apontado pelo Governo Regional e por vários responsáveis como a peça que pode dar outra escala à formação médica na Região, precisamente por criar mais capacidade clínica para ensino, estágios e integração com o serviço de saúde. Em paralelo, a UMa tem vindo a preparar a ampliação do percurso, com o objetivo de passar do modelo centrado nos três anos iniciais para uma extensão ao 4.º ano ministrado na Região, articulada com a FML e com apoio do Governo Regional.
No conjunto, este modelo mostra a razão da discussão sobre Medicina na Madeira não dever ficar reduzida a “ir para Lisboa”. O painel do Peço a Palavra indica que começa por uma base sólida construída na UMa, beneficia de condições de proximidade e de custos mais suportáveis para muitos estudantes, e culmina numa transição que testa maturidade, métodos de estudo e capacidade de adaptação ao contexto clínico. Ao mesmo tempo, o país enfrenta problemas reais de acesso a cuidados, de fixação de médicos e de pressão do alojamento estudantil, o que torna ainda mais relevante consolidar soluções de formação que sejam exigentes, sustentáveis e capazes de reter talento. Com o novo hospital universitário e a ampliação do curso a avançar nos próximos anos, a Madeira “pode ganhar uma resposta local e um contributo concreto para o futuro do sistema de saúde regional e nacional, com médicos mais bem preparados e com mais razões para ficar”.
O Peço a Palavra é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 69. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast, nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.
Luís Eduardo Nicolau
com Carlos Diogo Pereira
Fotografia de