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Estudar o futuro em engenharia física e computacional

Estudar o futuro em engenharia física e computacional

A licenciatura em Engenharia Física e Computacional da Universidade da Madeira está no centro de uma conversa sobre ciência, tecnologia e o papel estratégico da formação e da investigação num futuro que a Europa já começou a disputar.
Painel do PEÇO A PALAVRA emitido a 8 de abril, na antena da TSF 100FM Madeira.

A emissão do Peço a Palavra desta semana, na antena da TSF Madeira, centra-se na Engenharia Física e Computacional, uma área de formação que cruza física, matemática e programação para responder a problemas complexos num mundo cada vez mais moldado pela tecnologia, pela simulação e pela inteligência artificial. A conversa ganha particular atualidade por surgir no primeiro ano de funcionamento da licenciatura em Engenharia Física e Computacional, que alargou a sua oferta formativa numa área estratégica para o desenvolvimento científico e tecnológico. A criação deste curso representou, como referido “uma aposta clara numa formação interdisciplinar, alinhada com as exigências de um mercado em mudança e com a crescente importância da computação, da modelação e da análise quantitativa em múltiplos setores”. O arranque desta licenciatura assinalou também a intenção de “afirmar a Madeira como espaço de formação avançada em domínios de futuro”.

Como refere Francisco Afonseca do painel do programa, “num tempo em que a inovação científica e tecnológica ocupa um lugar central nas transformações económicas, sociais e industriais, importa perceber o que significa escolher um curso desta natureza e que perspetivas pode abrir a quem o frequenta”. A Engenharia Física e Computacional “convoca uma preparação exigente, interdisciplinar e voltada para desafios que vão da modelação matemática à análise de dados, da programação à investigação aplicada”.

A importância deste curso torna-se ainda mais evidente no contexto europeu, numa altura em que a União Europeia identifica faltas persistentes de talento nas áreas STEM, com especial incidência na engenharia e nas tecnologias digitais, consideradas decisivas para as transições digital, energética e industrial. A própria Comissão Europeia propôs, em 2025, que até 2030 pelo menos 32% dos estudantes do ensino superior estejam inscritos em áreas STEM, enquanto a meta do programa Década Digital aponta para 20 milhões de especialistas em TIC na União até esse mesmo ano; em 2024, esse número estava ainda em cerca de 10,3 milhões, o equivalente a apenas 5% da força de trabalho. Ao mesmo tempo, o Eurostat indica que cerca de 80,1 milhões de pessoas trabalhavam em ocupações de ciência e tecnologia na União Europeia em 2024, o que mostra a dimensão crescente deste espaço profissional e científico. Neste quadro, uma licenciatura em Engenharia Física e Computacional responde a uma necessidade estrutural da Europa de formar perfis capazes de cruzar bases científicas sólidas com competências em modelação, programação, dados e resolução de problemas complexos.

O episódio reúne Henrique Nóbrega, Diogo Silva, Ivan Gouveia Pestana e Sérgio Oliveira, estudantes da Licenciatura em Engenharia Física e Computacional, num painel conduzido por Francisco Afonseca e Luís Eduardo Nicolau. Ao longo da conversa, o painel procurou compreender como é vivido o curso por quem o frequenta, que ideias feitas continuam a marcar a perceção pública desta área e como estes percursos académicos se relacionam com o mercado de trabalho e com a realidade regional.

A discussão começou por alguns dos estigmas que ainda rodeiam a área. Entre eles, a ideia de que se trata de um curso excessivamente teórico, reservado a perfis excecionais ou pouco ligado a aplicações concretas. O programa interroga até que ponto estas perceções afastam estudantes com potencial, alimentam uma visão limitada sobre a engenharia e desvalorizam competências que hoje são reconhecidas em domínios tão diversos como a análise de dados, a energia, a programação, a consultoria tecnológica ou a investigação científica.

Outro dos temas em destaque prende-se com a relação entre formação e empregabilidade. Será esta uma área inevitavelmente associada à emigração? O mercado português conhece e valoriza devidamente estes perfis? E num contexto insular como o da Madeira, haverá condições para formar, reter e atrair talento ligado à ciência e à tecnologia? A conversa olha para os limites do mercado local, mas também para as oportunidades criadas por novas dinâmicas empresariais, pelo trabalho remoto e pelo crescimento de um ecossistema mais ligado à inovação e ao digital.

O episódio aborda ainda o impacto da inteligência artificial no futuro destas profissões. Em vez de uma oposição simplista entre humanos e máquinas, o painel discute a IA como ferramenta, como campo de especialização e como força transformadora do trabalho técnico. A questão central não é apenas saber se certas tarefas poderão ser automatizadas, mas antes perceber que tipo de conhecimento continuará a ser indispensável para interpretar resultados, validar modelos, corrigir erros e responder com rigor a problemas de elevada complexidade.

Ao longo do programa, há também espaço para testar conhecimentos sobre áreas, linguagens e competências associadas à Engenharia Física e Computacional, num momento mais descontraído que ajuda a traduzir para o público conceitos frequentemente vistos como distantes ou excessivamente técnicos. Através desse registo, o episódio mostra que falar de ciência e de tecnologia não implica fechar a conversa sobre si própria, mas antes torná-la mais acessível, mais concreta e mais próxima da experiência dos estudantes.

Numa perspetiva mais ampla, o programa procura ainda refletir sobre o perfil de quem hoje se forma nesta área. Que competências distingue um engenheiro físico e computacional? Em que medida a formação oferecida pela Universidade da Madeira pode preparar os estudantes para competir num mercado global? E que conselho pode ser dado a quem hesita entre esta licenciatura e outras engenharias? As respostas deixam perceber que se trata de um percurso exigente, mas também versátil, capaz de abrir caminhos profissionais em múltiplos setores.

No futuro da Europa, a investigação nesta área será decisiva não apenas para reforçar a competitividade económica, mas também para garantir soberania tecnológica, capacidade industrial e resposta própria em domínios como a energia, a computação, a inteligência artificial e os materiais avançados. Em 2024, a União Europeia investiu cerca de 403 mil milhões de euros em investigação e desenvolvimento, o equivalente a 2,24% do PIB, continuando, ainda assim, abaixo da meta dos 3% definida a nível europeu. Ao mesmo tempo, a própria estratégia europeia para a Década Digital aponta para a necessidade de chegar aos 20 milhões de especialistas em TIC até 2030, quando em 2024 esse número rondava apenas os 10,3 milhões. Neste contexto, “formar e apoiar investigação em Engenharia Física e Computacional não é um luxo académico, mas uma condição para que a Europa não fique dependente da inovação produzida noutros blocos e consiga transformar conhecimento científico em capacidade real de decisão, produção e desenvolvimento”, destaca Francisco Afonseca.

O Peço a Palavra é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 69. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast, nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.

Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Dorian Bogdańska.

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