Nos últimos tempos, vieram a público várias situações preocupantes no ensino superior português que não podem ser ignoradas. Desde a partilha de mensagens racistas e misóginas entre estudantes em Coimbra até à divulgação de imagens de colegas sem consentimento numa faculdade no Porto, acumulam-se episódios que exigem uma reflexão séria.
No caso mais recente, envolvendo estudantes da Universidade de Coimbra e do Instituto Politécnico de Coimbra, está em curso um inquérito do Ministério Público devido à circulação de conteúdos discriminatórios num grupo com centenas de participantes. Não estamos perante meras “brincadeiras”, estamos perante manifestações claras de ódio, partilhadas e toleradas em espaços que deveriam promover conhecimento, diversidade e respeito.
Este fenómeno não é isolado. Em 2025, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, vieram a público denúncias de estudantes que fotografavam colegas sem consentimento, muitas vezes mulheres, partilhando depois essas imagens em grupos privados. Trata-se de uma violação grave da dignidade humana e, em muitos casos, de um crime.
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O mais inquietante não é apenas a existência destes comportamentos, mas a sua banalização. Quando dezenas ou centenas de estudantes participam, incentivam ou simplesmente assistem em silêncio, estamos perante um problema estrutural. Não se trata apenas de falhas individuais, mas de culturas que, em certos contextos, permitem que o desrespeito se normalize.
As instituições de ensino superior e as associações académicas têm aqui uma responsabilidade clara. Não basta reagir após o escândalo, é fundamental prevenir, educar e agir de forma consistente. A defesa dos estudantes não pode ser seletiva nem condicionada por conveniências.
Estas situações refletem também dinâmicas sociais mais amplas. O discurso de ódio, frequentemente amplificado nas redes sociais, encontra terreno fértil em ambientes onde a fronteira entre o aceitável e o inadmissível se esbate. Quando o racismo, a misoginia ou a objetificação são tratados como piadas, o problema deixa de ser marginal, passa a ser cultural.
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Enquanto comunidade académica, não podemos aceitar esta normalização. As instituições de ensino devem formar não apenas profissionais, mas cidadãos conscientes e responsáveis. Isso exige coragem, para denunciar, para agir e para mudar.
O silêncio, neste contexto, não é neutral. É cumplicidade. E é precisamente isso que não podemos permitir.
Artigo publicado na edição de 5 de abril de 2026 do JM Madeira.
Ricardo Freitas Bonifácio
Presidente da Direção da Académica da Madeira
Com fotografia de Noah Silliman.