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Um Natal ainda longe de casa

Um Natal ainda longe de casa

Em novembro, Ricardo Freitas Bonifácio escreve, no JM Madeira, que "ano após ano, jovens que estudam longe da Madeira ficam retidos no continente durante o Natal, incapazes de suportar o custo inicial do bilhete".

Fomos recentemente contactados pela Assembleia da República, no âmbito da apreciação parlamentar de uma proposta que pretende alterar o modelo do Subsídio Social de Mobilidade (SSM). E a coincidência não podia ser mais simbólica, estamos a entrar na época natalícia, o momento em que milhares de estudantes madeirenses que estudam no continente, e muitos açorianos também, tentam regressar a casa para passar o Natal com as suas famílias.

Infelizmente, para muitos, este regresso é tudo menos simples. Apesar das intenções positivas do SSM, o atual modelo de reembolso à posteriori continua a impor uma barreira financeira inaceitável. Para viajar, um estudante tem de pagar antecipadamente o valor integral da passagem, muitas vezes entre 300 e 400 euros por ida e volta, e só semanas ou meses depois recebe o reembolso parcial, que reduz o custo final para 59 euros no caso dos madeirenses e 89 euros no caso dos açorianos.

À primeira vista, o valor final parece acessível. Mas o verdadeiro problema está no momento do pagamento, quem não tem liquidez imediata, simplesmente não viaja. E é assim que, ano após ano, jovens que estudam longe da Madeira ficam retidos no continente durante o Natal, incapazes de suportar o custo inicial do bilhete. Para famílias com rendimentos mais baixos ou com vários filhos deslocados, o impacto é ainda maior.

Estudar ou estagiar ao abrigo do programa Erasmus+

Com o fim do ano letivo, estão de regresso os estudantes portugueses em regime de mobilidade em vários países europeus. Em setembro, milhares de jovens portugueses fazem-se à estrada para estudar ou estagiar em centenas de universidades estrangeiras.

A situação não é nova, nem isolada. Segundo dados públicos, a despesa com o SSM na Madeira aumentou de 6 milhões de euros em 2014 para 45 milhões em 2023 (JM Madeira, 2024), refletindo a dimensão e a importância social do programa. No entanto, esse crescimento orçamental não se traduziu em maior justiça no acesso. Continuamos com um sistema burocrático, moroso e socialmente desequilibrado, que falha precisamente onde devia ser mais sensível, no apoio a quem mais precisa.

Por isso, na resposta que a Associação Académica da Universidade da Madeira enviou à Comissão Parlamentar, fomos claros, o modelo de pagamento direto é o único caminho possível. Significa que, no momento da compra, o estudante pagaria apenas o valor final elegível, e o Estado assumiria automaticamente o restante, sem necessidade de reembolso.

Este modelo não é uma utopia tecnológica. É uma solução justa, exequível e já aplicada em várias políticas públicas de apoio à mobilidade e à educação. Bastaria que os sistemas do SSM estivessem interligados com as bases de dados das instituições de ensino superior, permitindo comprovar automaticamente o estatuto de estudante e simplificar todo o processo.

Erasmus? Espera sentado…

A Universidade da Madeira faz festa com mais de 100 vagas para os programas de mobilidade, mas esquece de resolver os problemas que tornam a viagem uma via sacra para

Mais do que uma medida administrativa, trata-se de uma questão de igualdade. Num país que se orgulha de promover a coesão territorial, não podemos aceitar que estudar fora da ilha continue a significar um fardo financeiro desproporcionado. A mobilidade académica deve ser um direito real, e não um privilégio condicionado pelo saldo bancário.

Enquanto muitos preparam as malas para regressar a casa, há quem continue a fazer contas. O Natal é tempo de reencontros, mas também de reflexão. E talvez esta seja a altura certa para repensar um modelo que, em vez de unir o país, ainda o divide.

Porque a mobilidade social começa na mobilidade real, e nenhum estudante devia ficar longe da família por falta de dinheiro para o bilhete de avião.

Ricardo Freitas Bonifácio
Presidente da Direção da ACADÉMICA DA MADEIRA

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