“Várias pessoas foram muito curiosas a respeito do meu trabalho”. Irene Lucília Andrade em entrevista

“Várias pessoas foram muito curiosas a respeito do meu trabalho”. Irene Lucília Andrade em entrevista

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Irene Lucília Andrade, escritora madeirense, integrará a coleção ILUSTRES (DES)CONHECIDOS, da IMPRENSA ACADÉMICA, em 2023. A PENTEADA OU O FIM DO CAMINHO foi a obra escolhida para a estreia da autora na coleção. A ET AL. publica a primeira parte da entrevista.

Já muito se escreveu sobre Irene Lucília Andrade e sobre a sua obra, mas a ET AL. quis, ainda assim, fazer uma entrevista mais personalizada; na verdade, uma conversa informal, com o objetivo de dar uma maior proximidade do nosso projeto editorial aos nossos leitores.

A floresta mágica… na Ilha da Madeira

A propósito da comemoração do Dia Internacional da Biodiversidade, cujo tema em 2014 é a Biodiversidade Insular (Diversidade Biológica das Ilhas), é proposta uma observação na Ilha da Madeira da

A primeira parte da entrevista é publicada aqui.

Comecemos por dar a conhecer um pouco da autora, apesar de os seus elementos biográficos serem já sobejamente conhecidos: é sempre referida a sua formação artística, o seu tirocínio como professora, a sua obra poética e narrativa, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique recebida em 2016. Gostaria de referir alguma coisa que, porventura, tenha passado despercebida a todos os que a entrevistaram ou que escreveram sobre si?

Realmente, não sei. Várias pessoas foram muito curiosas a respeito do meu trabalho. Eu tenho de lhes agradecer o interesse que a minha obra tem despertado e, sobretudo, agradecer às pessoas que têm competência suficiente para analisar a obra, valorizando-a e dando-lhe algum destaque. Mas há uma coisa muito antiga, e talvez por isso nem sempre é referida, mas há pessoas que ainda se lembram. Trabalhei como radialista, trabalhei em todo sentido, fiz trabalho de continuidade, fui locutora de continuidade, fiz várias coisas, e tive também alguns programas meus, que eu criei, algumas rubricas minhas. Foram aí uns 8 anos em que trabalhei no Posto Emissor do Funchal. Na televisão, eu também aparecia muitas vezes, a Maria Aurora contava sempre comigo. Existe uma entrevista minha na revista Margem 2 que fala do meu trabalho na rádio, uma entrevista feita por dois alunos da Universidade, que eram na altura alunos do professor Thierry Proença. Acho que há até uma foto nossa na revista.

A obra A Penteada ou o Fim do Caminho foi já antes editada, em Portugal continental. Fale-nos um pouco sobre isso.

A 1.ª edição foi em 2004, em Leiria, pela Editorial Diferença, uma editora que já não existe. Nesta época havia aqui alguns colóquios organizados pela Câmara Municipal do Funchal, durante a Feira do Livro, e eram convidados muitos editores e escritores, nacionais e estrangeiros. E através de um escritor e poeta, João Rui de Sousa, que faleceu há pouco tempo, um grande poeta português, e que foi um amigo, que foi realmente um grande amigo, e dedicou-me muitos dos seus livros… Na altura, junto com o João Rui de Sousa, veio à Feira do Livro um editor de Leiria, o Carlos Lopes Pires, também poeta, e que se interessou por publicar esta minha obra.

Mas na altura tinha já algumas obras poéticas publicadas. Gosta de ser vista mais como poeta ou como escritora de narrativas de ficção?

É-me indiferente, eu sou as duas coisas.

O que a levou, então, a publicar uma obra narrativa?

Antes, eu tinha já escrito um romance, Angélica e a sua espécie, publicado nos Açores na década de 1960. Um livro que eu considero de juventude, com memórias da minha época de adolescente, a minha ida para Lisboa. Há uma personagem que não sou eu, mas onde eu me projeto, mas não sou eu. Mas foi só mesmo depois de A Penteada ou o Fim do Caminho que eu tomei mesmo o gosto pela narrativa e, assim, surgiram mais obras e a minha colaboração regular no Funchal Notícias.

Então como é que surgiu este maior gosto pela narrativa?

Eu comecei a escrita com a poesia, mas posso contar como é que passei da poesia à narrativa. Foi gradualmente, à medida em que ia tendo solicitações para várias coisas. Eu fui alargando, não direi o meu campo de observação, mas fui sentindo necessidade de dizer mais coisas, porque a poesia é muito contida, condensa muito as coisas, e eu tive necessidade de alargar-me mais no interesse de dizer coisas, de contar, de narrar. A primeira experiência narrativa, talvez das primeiras experiências, foi no Diário de Notícias, numa rubrica chamada «Presentes e Recadinhos», que era inserta numa página infantil, que tinha três colaboradores e onde dialogávamos; era muito interessante essa página. Eu era a colaboradora da parte da escrita, o António Rodrigues, que é professor na UMa, colaborava na parte da banda desenhada e do desenho, e havia o Artur Andrade, da música. A minha rubrica era um terço ou um quarto da página, mais ou menos. E foi aí que eu adquiri o gosto pela narrativa, em que eu contava efemérides e acontecimentos da ocasião para um público infantil. Isso despertou-me o gosto pela narrativa. Depois disso, fui escrevendo pequenos textos, pequenas crónicas dispersas por vários jornais, sobretudo no Diário de Notícias. E depois, um dia, passando pela Penteada, que foi o sítio onde eu nasci, alguma coisa em mim despertou para aquilo que eu via, a destruição do Caminho, a ausência das pessoas, tudo isso, despertou-me a vontade de fazer um livro de poesia. E eu escrevi o livro Água de Mel e Manacá, que são as minhas memórias, dos lugares e das pessoas, evocadas em poesia, que eu mais tarde escrevi em A Penteada ou o Fim do Caminho. Depois desse livro de poesia, eu pensei: «eu tenho de dizer mais coisas sobre essas pessoas, tenho de falar nelas, evocar-lhes os nomes, até!». Foi aí que surgiu a vontade de escrever A Penteada ou o Fim do Caminho. Portanto, eu parti de um livro de poesia para esta narrativa.

Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.
Com fotografia da oficina Sixteen Miles Out.