Já muito se escreveu sobre Irene Lucília Andrade e sobre a sua obra, mas a ET AL. quis, ainda assim, fazer uma entrevista mais personalizada; na verdade, uma conversa informal, com o objetivo de dar uma maior proximidade do nosso projeto editorial aos nossos leitores.
Encontrar espaço
Há muito que se fala em modelo de desenvolvimento do Desporto Regional através do Plano Regional de Apoio ao Desporto (PRAD) que a Direcção Regional da Juventude e Desporto implementou.
My first month in paradise
The island has been excellent, the people are beautiful, the job has been amazing and I don’t have enough words to
A segunda parte da entrevista é publicada aqui.
Gostaria que falasse um pouco sobre as pessoas. Esta sua obra tem um marcado diálogo epistolográfico. Quem são os seus interlocutores?
O primeiro interlocutor, e o essencial, é a minha avó materna, Eulália Beatriz, que viveu no sítio da Penteada; avó que eu realmente não conheci, mas que era sempre evocada por todos. O livro é todo dedicado a ela, mas também dialoga com outras pessoas. Todo o livro acaba por ser um diálogo, uma narrativa dirigida sempre a alguém, algumas pessoas vivas ainda na época em que eu o escrevi, mas também dirigida a descendentes dessas pessoas, algumas ainda são vivas.
Fale-nos um pouco destes lugares da sua infância e da sua toponímia. A ET AL. e a UMa estão situadas num local muito próximo que é percorrido pela sua narrativa.
É verdade (risos)! Passa-se tudo ali próximo. A Universidade e o complexo do Tecnopolo foram construídos não propriamente no terreno onde eu vivia, mas era muito próximo. Aqueles terrenos eram de colónia, as casas e os quintais eram dos colonos, mas a terra era do latifundiário. A minha casa, a casa onde eu nasci, ainda existe, logo acima da Universidade, mais ou menos por baixo da via rápida, está perdida lá entre as fazendas. Eu ainda a vejo, quando vou até à Universidade e estaciono o carro naquele estacionamento junto à ribeira. O Caminho da Penteada ainda permanece o mesmo, há coisas que vão resistindo. A estrada alargou-se um pouco, mas não muito, o desenho da estrada permanece o mesmo e ainda há casas do meu tempo no início da ladeira, nós chamávamos a ladeira, aquela rampa que vai do fim do Caminho até aos Álamos, junto à ponte da Água de Mel, sobre o ribeiro da Água de Mel que passa ali, junto ao mercado da Penteada. A minha casa tinha entrada pela estrada, mas ficava próxima da ribeira.
Tal como o Caminho, a ribeira é sempre uma presença no seu livro…
A ribeira era muito importante para nós, para a nossa infância. Toda a gente, no inverno ou quando chovia muito, toda a gente se punha à espreita quando é que a ribeira vinha, porque ela vinha com um estrondo enorme, desde Santo António, a correr por ali abaixo. Era engraçado, e as pessoas, as crianças, corriam ao fundo das fazendas para ver a ribeira passar. Era uma atração, para crianças e adultos, era um divertimento. A minha antiguidade, (risos), a minha antiguidade dá para recordar estas coisas interessantes que já não existem, que estão no fundo da história e que me dão um prazer enorme.
Com que tipo de sentimentos convive toda esta rememoração, todo este resgate da memória, como caracterizado por uma investigadora que estudou a sua obra?
Existe alguma melancolia, sim, certas vezes, mas tristeza não, alguma saudade, mas tristeza não, de maneira nenhuma, pelo contrário, dá-me um grande prazer recordar, porque era uma época feliz, era uma época boa, aqui nem chegavam as notícias da guerra. Eu nasci praticamente no ano em que se iniciou a Segunda Grande Guerra. Nós vivemos aqui o tempo da última grande guerra quase sem nos apercebermos. Evidentemente, havia notícia, havia jornais, mas a maior parte das pessoas nem se apercebia do que se estava a viver em tempo de guerra, embora houvesse alguma dificuldade, havia os racionamentos. As pessoas eram modestas, de raiz, eram pessoas que viviam do seu trabalho, do dia a dia, resignavam-se a estas faltas e geriam a vida da melhor maneira, e, de resto, eram pessoas felizes. Éramos pessoas felizes.
Por fim, e aproveitando a sua experiência com as crianças, nas escolas e não só, o que gostaria de dizer aos jovens, mais crescidos ou menos crescidos, estudantes da UMa ou não, madeirenses e porto-santenses, que nasceram nesta contemporaneidade de rápidas transformações e, talvez, de pouca memória.
Olhe, eu gostaria de dizer uma coisa que eu não tive no meu tempo, que é procurar conhecer a história da nossa ilha, eu não tive essa oportunidade no meu tempo. No nosso tempo, nós estudávamos por livros que vinham do continente e poucos sabíamos da nossa terra. Sempre houve investigadores e historiadores que se dedicavam à história da Madeira, mas isso não fazia parte dos programas escolares. Depois, estava ainda eu no ativo, começou a haver este interesse pelos temas locais e regionais no currículo, que prescrevia esta integração. Mas eu penso que isto continua ainda muito por fazer, é apresentado como uma extensão do programa e ainda não faz parte integrante, penso eu, que já estou um pouco afastada. Que procurem conhecer a sua terra, as pessoas que nela viveram e vivem, a evolução que a terra sofreu, que sejam críticos em relação a esta mesma evolução, que procurem informar-se, ler, ler, ler, isso é uma coisa que falta às pessoas, desenvolver o interesse pela observação crítica das coisas. Era isso que eu realmente recomendava aos nossos jovens e alunos.
A primeira parte da entrevista está disponível aqui.
Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.
Com fotografia da oficina Sixteen Miles Out.