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O Funchal e Londres unem-se no The Kensington Group

O Funchal e Londres unem-se no The Kensington Group

A 9 de fevereiro de 2026, THE KENSINGTON GROUP realiza no Royal College of Art a sua primeira reunião de trabalho, marcando o início de um espaço europeu de reflexão conjunta sobre o futuro do ensino superior.

A Associação Académica da Universidade da Madeira, a Associação para Promoção da Herança Madeirense, o Clube Desportivo Académica da Madeira e a Royal College of Arts Students’ Union uniram esforços para criar The Kensington Group, uma plataforma de reflexão e debate dedicado a repensar o futuro das artes, da ciência, da cultura, do ensino e da tecnologia na Europa.

Com uma abordagem centrada na educação e na investigação, este grupo de trabalho reúne estudantes, antigos estudantes, dirigentes associativos e membros do pessoal de várias instituições, criando um espaço dinâmico de reflexão, cooperação e desenvolvimento de propostas num momento de profunda transformação das universidades. Ao cruzar as perspetivas de quem estuda hoje com a experiência de quem já passou pelo sistema e de quem o gere, The Kensington Group procura promover um diálogo informado e produzir contributos concretos para os desafios do ensino superior europeu.

O nome The Kensington Group reflete a origem desta comunidade. Antes da formalização do grupo, o primeiro encontro entre as instituições teve lugar em 2025, no campus de South Kensington do Royal College of Art, em Londres. South Kensington é, há décadas, um polo de excelência académica e cultural, acolhendo algumas das instituições mais prestigiadas do Reino Unido. Esse contexto histórico e intelectual inspira a missão do grupo de fomentar debate qualificado e contribuir ativamente para o futuro do ensino superior na Europa.

A 9 de fevereiro de 2026, um ano após o primeiro encontro, os digirentes das quatro instituições reuniram-se no Royal College of Art , em Londres, para aprofundar o diálogo iniciado e consolidar linhas de trabalho conjuntas no quadro do ensino superior europeu.

A reunião permitiu discutir temas centrais da realidade britânica, nomeadamente a forte dependência das universidades do financiamento privado assegurado através das propinas pagas por estudantes internacionais, a perspetiva de regresso do Reino Unido ao programa Erasmus a partir de 2027 e o endividamento estrutural que afeta estudantes de Inglaterra e do País de Gales. Este último resulta do recurso generalizado a empréstimos universitários para suportar cursos com custos que atingem dezenas de milhares de euros, incluindo propinas anuais superiores a dez mil euros, a que se somam despesas elevadas com o alojamento, a alimentação e os transportes.

Em paralelo, foram discutidos problemas comuns às realidades britânica e portuguesa, em particular a crise no acesso à habitação, que afeta de forma desproporcionada estudantes e jovens diplomados, e os níveis salariais insuficientes para permitir a construção de uma vida independente e o acesso a habitação própria. A estes juntam-se ainda a crescente precariedade laboral no início das carreiras académicas e profissionais e as dificuldades de financiamento sustentável do ensino superior público num contexto de aumento contínuo dos custos de funcionamento das instituições.

Embora os sistemas de ensino superior do Reino Unido e de Portugal operem em contextos diferentes, ambos enfrentam desafios semelhantes, em particular no financiamento, na transição digital e na cooperação internacional.

As universidades britânicas, tradicionalmente vistas como referências globais, atravessam um período de incerteza marcado por pressões financeiras, alterações políticas e mudanças nas relações internacionais. O Brexit afetou de forma significativa a participação do Reino Unido em programas europeus de investigação, reduzindo o acesso a mecanismos de financiamento como o Horizonte Europa e dificultando a cooperação com instituições da União Europeia. Internamente, as universidades enfrentam o aumento dos custos operacionais e a redução do financiamento público em termos reais, num contexto em que as propinas continuam a gerar debate. Em Inglaterra, o valor das propinas para estudantes nacionais está fixado em 9.250 libras por ano, enquanto os estudantes internacionais suportam custos muito mais elevados, o que tem contribuído para desequilíbrios financeiros no setor.

Em enfermagem, desde o Reino Unido

Após o término do curso, tirei uns meses para reflectir sobre o meu futuro profissional, devido a toda uma conjuntura socioeconómica que vivíamos. Na Madeira, nascido e criado, encontro-me agora

Para além das questões financeiras, as universidades do Reino Unido lidam com problemas estruturais profundos. Greves recorrentes relacionadas com salários, pensões e segurança no emprego revelam um mal-estar crescente quanto às condições de trabalho e à precariedade académica. Em paralelo, intensificam-se os debates sobre liberdade de expressão, enquadramento regulatório e o papel do ensino superior num mercado de trabalho em rápida transformação. Este conjunto de fatores levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do sistema e sobre a capacidade das universidades britânicas manterem a sua posição de destaque na investigação e na inovação.

Em Portugal, o ensino superior conheceu uma expansão significativa nas últimas décadas. O número de estudantes mais do que duplicou desde a década de 1990, e instituições como a Universidade do Porto ou a Universidade de Lisboa assumem hoje um papel relevante nas redes europeias de investigação. Ainda assim, o investimento no ensino superior e na investigação e desenvolvimento permanece abaixo da média europeia. Apesar de as propinas no ensino público serem relativamente baixas, em torno dos 697 euros por ano, a limitação de recursos condiciona o desenvolvimento institucional e as oportunidades de investigação. A par disso, as alterações demográficas e a redução do número de estudantes colocam desafios adicionais à sustentabilidade do sistema.

Um elemento central, mas frequentemente esquecido, do panorama europeu do ensino superior é o papel das universidades localizadas nas regiões ultraperiféricas da União Europeia. Instituições situadas em territórios como a Madeira, os Açores, as Canárias ou as regiões ultramarinas francesas enfrentam constrangimentos específicos decorrentes do isolamento geográfico, de mercados académicos mais reduzidos e de limitações económicas. Ainda assim, estas universidades desempenham um papel estratégico na investigação, sobretudo em áreas como as ciências do mar, os estudos climáticos ou o desenvolvimento sustentável, onde a sua localização constitui uma clara vantagem comparativa.

O acesso a financiamento, programas de mobilidade e redes de investigação continua, porém, a ser mais difícil para estas instituições, que nem sempre conseguem integrar-se plenamente no Espaço Europeu de Investigação. Reforçar as ligações entre as universidades das regiões ultraperiféricas e o restante sistema europeu será um dos temas centrais de reflexão no âmbito de The Kensington Group. Ao enfrentar estes desafios estruturais e ao procurar soluções que valorizem o contributo destas instituições, o think tank pretende promover um ensino superior europeu mais coeso, inclusivo e equilibrado.

Apesar das diferenças entre os sistemas nacionais, Reino Unido e Portugal partilham tendências comuns como a crescente digitalização do ensino, a necessidade de reforçar parcerias internacionais e a pressão para que as universidades assumam um papel mais ativo na inovação tecnológica e social. Estes eixos estarão no centro do trabalho de The Kensington Group.

Mais do que uma colaboração entre várias instituições, The Kensington Group pretende afirmar-se como um fórum aberto e inclusivo para estudantes, investigadores e decisores. O grupo convidará outras instituições europeias a juntar-se à iniciativa, alargando o debate e garantindo uma representação diversa das realidades europeias. Ao reunir vozes de diferentes países e contextos, o objetivo é produzir reflexões que espelhem a pluralidade e a riqueza do espaço europeu.

Através de encontros de trabalho, de publicações e de debates orientados para políticas públicas, The Kensington Group procurará aproximar reflexão académica e ação concreta, assegurando que as suas propostas têm impacto real. Ao criar pontes entre tradições académicas e enquadramentos nacionais distintos, o grupo ambiciona contribuir para um sistema de ensino superior europeu mais robusto e preparado para o futuro.

Num período de mudança acelerada, The Kensington Group afirma-se como um espaço de debate informado, colaboração construtiva e pensamento inovador, colocando no centro da discussão aqueles que vivem, estudam e trabalham diariamente no ensino superior europeu.

O futuro do The Kensington Group passa pelo alargamento progressivo da sua rede. A entrada de estudantes, antigos estudantes, dirigentes associativos e profissionais ligados ao ensino superior de diferentes contextos nacionais permitirá enriquecer o debate, incorporar perspetivas diversas e reforçar a dimensão europeia do grupo. Ao consolidar-se como um espaço aberto e colaborativo, The Kensington Group pretende afirmar-se como uma plataforma de reflexão contínua, capaz de acompanhar a evolução das políticas de diferentes áreas na Europa e de contribuir, de forma sustentada, para a construção de respostas comuns aos desafios que se colocam às universidades europeias.

Luís Eduardo Nicolau
com Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de .

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