Portugal regressou, em Matemática e Leitura, a resultados semelhantes aos registados há cerca de duas décadas. No Relatorio PISA, os alunos portugueses alcançaram 460 pontos a Matemática e 462 a Leitura, abaixo das médias da OCDE, respetivamente de 469 e 466 pontos. Em Ciências, Portugal obteve 482 pontos, também abaixo dos 486 da OCDE. Na última década, a descida acumulada foi de 32 pontos a Matemática, 36 a Leitura e 19 a Ciências. A OCDE conclui que se “reverteu completamente” o progresso anteriormente alcançado pelo país, que está agora “perto do nível observado em 2006”.
A dimensão do recuo torna-se mais evidente quando se observa quantos estudantes ficam abaixo do nível 2, considerado pelo PISA o mínimo necessário para “participar eficazmente na vida em sociedade”. Em Matemática, 35% dos jovens portugueses não atingem esse patamar, quando em 2009 eram 23,7%. Na Leitura, a percentagem passou de 17,6% para 28% no mesmo período. Em Ciências, são agora 24%, face a 16,5% em 2009. Também diminuiu o peso dos estudantes com desempenhos elevados. Apenas 3% chegam ao nível 5 ou superior em Leitura, 6% em Matemática e 6% em Ciências.
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Os resultados escondem diferenças significativas dentro do país. Os alunos da região Centro obtiveram 477 pontos a Matemática, 477 a Leitura e 498 a Ciências, todos acima das médias nacionais. No extremo oposto aparecem o Alentejo e a Península de Setúbal. Em Matemática, os resultados destas regiões ficam pelo menos 30 pontos abaixo da média portuguesa. O estatuto socioeconómico continua igualmente a pesar no desempenho. A Matemática, a diferença entre os estudantes de contextos mais favorecidos e os mais desfavorecidos chega aos 99 pontos em Portugal, acima dos 83 registados na OCDE.
A interpretação das causas abriu novamente o debate sobre as políticas educativas seguidas no país. Nuno Crato, antigo ministro da Educação, considera os números parte de uma “crónica de um declínio anunciado” e associa a evolução ao abandono, a partir de 2016, de políticas que valorizavam currículos mais exigentes e avaliação externa. “Os três principais factores de sucesso que tínhamos em termos de políticas públicas foram abolidos”, afirmou ao PÚBLICO. Para o antigo governante, os estudantes que realizaram o PISA 2025 “sabem mais ou menos o mesmo que os alunos que tinham [em 2015] 13 anos e meio”.
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João Costa, ministro da Educação entre 2022 e 2024, faz uma leitura diferente. Reconhece a necessidade de avaliar as decisões tomadas durante os anos em que esteve no Governo e admite que possam ser “revertidas medidas que tenham sido menos bem-sucedidas”. Rejeita, contudo, uma relação direta entre as alterações curriculares portuguesas e a quebra dos resultados, salientando que a deterioração atravessa grande parte dos países participantes. “Não podemos fazer de conta que isto não é um quadro muito mais global do que o rectângulo português”, afirmou ao PÚBLICO. A própria OCDE registou em 2025 o desempenho médio mais baixo de sempre nas três áreas avaliadas.
O estudo envolveu 6945 alunos portugueses de 225 escolas, representativos de cerca de 97.400 jovens cuja escolaridade de referência é o 10.º ano. Para João Costa, recuperar exames ou reforçar a memorização não constitui, isoladamente, uma resposta aos resultados. O antigo ministro chama também a atenção para a utilização da tecnologia e para os efeitos que pode produzir na concentração e na aprendizagem. “Não há nenhum país em que os jovens — não só os jovens — não estejam invadidos pela tecnologia”, afirmou. O PISA 2025 deixa, assim, Portugal próximo da média de uma OCDE que também recuou, depois de o país ter conseguido, em 2015, superar pela primeira vez essa referência internacional.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de CDC.
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