“Celebramos, agora […] o ano em que a Universidade da Madeira completará 35 anos de existência”

Sílvio Fernandes, Reitor da Universidade da Madeira, foi o anfitrião das cerimónias do Dia da Universidade que, em 2023, decorreram a 10 de maio, na Reitoria no histórico Colégio dos Jesuítas do Funchal.
Francisco J. V. Fernandes, Presidente do Conselho Geral; Sílvio Fernandes, Reitor e Ricardo Freitas Bonifácio, Presidente da Direção da ACADÉMICA DA MADEIRA durante o cortejo académico do Dia da Universidade (maio de 2023), no Colégio dos Jesuítas do Funchal.

A Cerimónia do dia da Universidade, habitualmente celebrada no dia 6 de maio, foi deslocada para hoje, quarta-feira, por ser o dia da semana que a Academia reserva, em regra, para as suas celebrações mais importantes.

O dia da Universidade da Madeira foi escolhido em memória da data da primeira aula dos Jesuítas neste edifício, o Colégio epónimo, que ao fim de uma longa e complexa história, veio a testemunhar a fundação da Universidade da Madeira, em 1988.

Celebramos hoje não só a história de um edifício que foi pensado como estrutura de ensino e que, embora tenha tido outros destinos, entre os quais o militar, voltou a estar centrado numa das vertentes para que fora concebido e construído. Celebramos, agora no âmbito, do tempo histórico adstrito à Universidade da Madeira, o ano em que a Universidade da Madeira completará 35 anos de existência.

Esta sequência cronológica impele-nos a três tipos de abordagem. Em primeiro lugar, uma breve avaliação sobre o que fomos durante estes 35 anos; em segundo, o status quo atual; e, em terceiro, a prospetiva do nosso futuro global.

Iniciando o breve conspecto histórico, que muitos dos presentes conhecem bem, gostaria apenas de referenciar alguns aspetos.

A Universidade da Madeira foi criada por Decreto-Lei, em 13 de setembro de 1988. Os seus 35 anos de existência são passíveis de ser divididos em três períodos: instalação, até 1996; transição (de 1996 a 2000); e definitivo (de 2000 até a atualidade).

Ao longo deste tempo, assistiram-se a várias mudanças, não só na estrutura e diversidade da oferta formativa (primeiro com a maioria dos cursos orientados para a formação para a docência, depois com a transição para o lato espetro que caracteriza atualmente o projeto científico e pedagógico da Universidade da Madeira, tanto no sistema universitário, quanto no sistema politécnico (recorde-se que esta estrutura é devedora da integração da Escola Superior de Educação, do Instituto Superior de Arte e Design, e da Escola Superior de Enfermagem).

Também se assistiram a mudanças profundas no capítulo das infraestruturas. Os primeiros cursos nasceram neste edifício, antes da sua recuperação, seguindo-se, com a expansão da oferta formativa e da investigação científica, a dispersão do funcionamento por diversos edifícios na cidade do Funchal. Depois de muito debate e incertezas quanto àquele que seria o Edifício Científico e Pedagógico da Universidade da Madeira, período durante o qual éramos “brindados” com as mais diversas soluções, acabámos, por decisão do Governo Regional, por ficarmos inseridos no Complexo da Penteada.

À parte outras vicissitudes, quase sempre associadas à falta de meios financeiros e de recursos humanos, bem como a algumas desconfianças e incertezas quanto à validade do projeto universitário, certo é que, após a sua instalação definitiva e o seu regular funcionamento, em especial com a adaptação ao projeto Bolonha, com a transição para o período pós-RJIES (Regime Jurídico do Ensino Superior), com a submissão dos seus cursos e da Instituição à avaliação e acreditação pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), e, mais recentemente, com a resposta à crise financeira e à pandemia, a Universidade da Madeira orgulha-se de ser, no presente, um centro imprescindível de desenvolvimento da nossa Região.

“Em pouco mais do que um quarto de século, formámos o equivalente a 5,6% da população da RAM.”

E, nesse percurso, convém aqui voltar a lembrar que a Universidade da Madeira pôs a funcionar, no ano letivo de 1989/90, o seu primeiro curso, inteiramente universitário, a licenciatura em Educação Física, tendo os primeiros diplomados deste curso obtido a sua habilitação profissional em 1994.

Em pouco mais do que um quarto de século, formámos o equivalente a 5,6% da população da RAM. Se, como é consabido, o impacto direto de uma Universidade na sociedade, onde está inserida, produz uma evidência funcional e qualitativa, pelo menos no espaço de duas gerações, forçoso é concluir que, no intervalo desse período, demos provas claras da nossa influência, quer ao nível da formação de quadros especializados, quer ao nível dos resultados e da transferência de conhecimento, quer ainda na relação, que se pretende ótima, entre a Universidade, como centro do saber e a Madeira, como região excelente e emblemática pelo seu desenvolvimento, beleza, clima e arte de bem receber.

Acresce a estes fatores a componente económica. A Universidade gere um orçamento anual que supera os 20 milhões de euros, facto que, como já foi referido em anteriores intervenções dos reitores que me antecederam, não é menosprezável para a economia da Região e do Funchal, em particular.

Neste passo e sendo consequente com a transição tópica entre o passado e o futuro da nossa Instituição, venho expressar o regozijo por entregar hoje as medalhas comemorativas dos 25 anos de serviço aos funcionários docentes e não docentes que, ao longo desse período, serviram, com abnegação, empenho e sentido de dever, e espírito de missão, a Universidade da Madeira.

Serão igualmente agraciados com a Distinção Alumni, três diplomados pela UMa. Trata-se de um prémio que visa distinguir e homenagear antigos estudantes, que se destacaram, graças ao seu percurso profissional e conduta cívica, e que alcançaram junto dos seus pares e na sociedade, um estatuto de prestígio e referência.

As instituições são feitas de pessoas e para as pessoas, tendo como fundamento desta asserção, que cada pessoa está ao serviço da sociedade e do bem comum. Referi a homenagem aos que estão connosco e diariamente servem a Instituição e os que, já diplomados, a ajudam a engrandecer.

Renovo, igualmente, o meu agradecimento a todos os presentes neste tão magnífico quanto significativo espaço, para assistir à celebração do dia da Universidade. Renovo e homenageio os docentes e não docentes, e estudantes que se associaram, presencialmente ou de forma remota, a esta celebração.

Merecem também uma justa homenagem todos quantos nos deixaram. E faço-o, dirigindo uma palavra de solidariedade aos familiares, amigos, colegas e professores, pelo inesperado falecimento do estudante João Filipe Abreu Pestana. Nesta homenagem incluo igualmente os membros da Academia que nos deixaram neste ano e ao longo da vida da Universidade da Madeira. Contribuíram, em diferentes fases, para a sua fundação, evolução e desenvolvimento e, neste momento, a sua memória é necessária para a nossa perceção quanto ao devir da instituição, da sociedade e da vida de que fazemos inteira e intrinsecamente parte.

“após uma paralisia de quase dois anos, a Universidade da Madeira, contrariando os cenários mais sombrios, manteve o seu rumo de crescimento”

Celebramos o Dia da Universidade. Queria, num contexto tão importante, dizer-vos que a equipa Reitoral tem desempenhado as suas funções num período deveras difícil, que não necessito de aqui reforçar para não parecer impróprio (inconveniente até!), mas que constituiu um dos mais penosos períodos de gestão que alguma vez aconteceram na história da nossa Universidade.

Afirmei, tanto na candidatura ao cargo de Reitor, como na tomada de posse que o projeto que submeti era exequível no quadro do financiamento regular da Universidade, entendendo essa regularidade como a consecução das correções orçamentais devidas pela nossa crónica situação de subfinanciamento. Afirmei também que, se, por hipótese que então me parecia inverosímil, esse quadro de regularidade não fosse resolvido, não deixaria de lutar pela concretização do projeto, embora numa ótica de forte contenção de custos. Afirmei, ainda, que a Universidade da Madeira não poderia, em caso algum, ser posta em causa naquilo que é a sua matriz estrutural: garantir o funcionamento dos cursos, o apoio aos estudantes, a investigação científica, a internacionalização, a transferência de conhecimento e o compromisso de promover as progressões previstas quanto às carreiras docente e não docente.

Certo é que, após uma paralisia de quase dois anos, a Universidade da Madeira, contrariando os cenários mais sombrios, manteve o seu rumo de crescimento, tendo
estancado uma sequência de anos com resultados negativos.

Temos mais alunos, mais cursos a funcionar, mais projetos de investigação. Na realidade, nunca foi tão grande o número de estudantes inscritos em cursos conferentes de grau ou diploma (c. 3800), aos quais se somam os das pós-graduações e de cursos breves, num total que está próximo dos 4000, meta que tinha apontado há dois anos para ser atingida a curto prazo. Nunca foi tão elevado o número de estudantes internacionais. Nunca foi tão grande o número e diversidade de projetos (74, com valor global de cerca de 10 milhões de euros). Nunca tantos cursos estiveram acreditados para funcionamento ou em funcionamento na nossa instituição (72 cursos).

Temos quase 35 anos, somos parte de um sistema de ensino superior público de natureza binária, universitária e politécnica, formámos cerca de 14 000 estudantes, temos um impacto positivo na nossa Região que advém da oferta formativa, da investigação científica e da gestão do orçamento global anual da Instituição (mais de 20 milhões de euros).

A eloquência dos números não deve, porém, esconder as difíceis realidades por que passamos, que só podem ser supridas com a urgente celebração de um contrato-programa entre o Governo da República, o Governo Regional da Madeira e a Universidade da Madeira. Trata-se, pois, da prioridade que continuaremos a eleger como absolutamente crucial para garantia do nosso futuro.

“formámos cerca de 14 000 estudantes, temos um impacto positivo na nossa Região que advém da oferta formativa, da investigação científica e da gestão do orçamento [… de] mais de 20 milhões de euros”

Aos estudantes que acreditaram na Universidade da Madeira para prosseguir os seus estudos, ao pessoal não docente que garante o funcionamento da Universidade nas competências que lhes são atribuídas, e aos docentes/investigadores que são responsáveis pela formação dos estudantes e pela investigação científica, deixo aqui uma palavra de apreço pela forma como enfrentaram as vicissitudes deste período e continuaram a dar o seu melhor pelo futuro da nossa Universidade. Em nome da Universidade, o meu mais sentido obrigado!

E passando ao último ponto deste discurso, resta a pergunta: que Universidade queremos para o futuro? Certo é que o futuro é a maior das incógnitas. É lá que está o não previsto, os epifenómenos, a incerteza, a morte, mas também as novas vidas e tudo os que lhes for outorgado. Embora o futuro tenha esta natureza, não devemos evitar jogar o seu jogo e antecipar cenários e circunstâncias.

Nesse sentido, o nosso futuro passa por um projeto necessariamente ambicioso, cujo objetivo é tornar a Universidade da Madeira uma universidade maior, com diferenciação estratégica, para sobressair no quadro das instituições de ensino superior, na ordem institucional e nos fatores de desenvolvimento da Região.

Consequentemente, o futuro passa por continuar a consolidar, adaptar, diversificar e reforçar a nossa oferta formativa, com novos cursos e restruturação de outros, garantindo o lato espetro da base do nosso projeto científico e pedagógico, com áreas tão diversas como as que se inserem nas suas quatro Faculdades (Artes e Humanidades; Ciências Sociais; Ciências Exatas e da Engenharia; e Ciências da Vida) e das duas Escolas Superiores (Saúde; e Tecnologias e Gestão); e com as áreas estratégicas do Turismo, do Mar, da Saúde e da Informática.

O futuro passa por pôr em funcionamento o mestrado em Design, as novas pós-graduações em Ciência Política e Relações Internacionais, e em Perspetivas Atuais,
Acompanhamento Social e Inserção em Serviço Social; os novos CTeSP em Gestão do Alojamento, e em Promoção da Qualidade de Vida e Bem-estar da Pessoa Idosa; o Ano Zero, para estudantes internacionais; pelo aumento do número de alunos em programas de mobilidade (e.g. ERASMUS); pela implementação de um programa de cursos breves, incluindo várias formações no regime de microcredenciação; pela esperada aprovação de mestrados (em cooperação ou associação com instituições nacionais e internacionais), em Otimização do Rendimento Desportivo e Tecnologias Aplicadas, e em Agricultura Biológica e Desenvolvimento Rural; pelas propostas para acreditação, pela A3ES, para funcionar a partir de 2024/25, de novos ciclos, entre as quais uma licenciatura em Ciências e Tecnologias do Mar, e, entre outras, ainda uma pós-graduação em Atmosfera, Oceano e Clima.

“o futuro passa por continuar a consolidar, adaptar, diversificar e reforçar a nossa oferta formativa, com novos cursos e restruturação de outros”

O futuro passa por reforçarmos e otimizarmos o projeto da Medicina, com a celebração, consolidação e diversificação das parcerias necessárias para que, a prazo, este seja um projeto maior da nossa Universidade e da Região (de que fazem parte o no Hospital Central e Universitário da Madeira, um Centro Académico Clínico e o Centro de Estudos sobre o Cancro); por obter mais financiamento para o desenvolvimento da área da informática e áreas afins. Não tenhamos dúvidas, como afirmei no pretérito discurso de outubro, que a revolução digital continua a acelerar a mudança do mundo em que vivemos, constituindo na história da nossa espécie uma revolução equivalente à invenção da escrita. Teremos necessariamente de acompanhar academicamente, socialmente, culturalmente, economicamente, esta revolução. Precisamos de aumentar a nossa capacidade formativa para dar resposta aos pedidos que nos são feitos e de reforçar a capacidade de investigação e tecnologia nestas áreas, de modo a apresentarmos soluções úteis e eficientes para as empresas e para os decisores políticos.

O futuro passa pelo sucesso dos atuais centros e polos de investigação da UMa, financiados pela FCT, dois dos quais têm classificação de excelente (CQM-Centro de Química da Madeira e o Polo do Instituto de Plasmas e Física Nuclear). Os outros centros e polos merecem igualmente atenção no sentido virem a atingir a notação de muito bom ou excelente.

Passa, igualmente, por apresentar, para financiamento, os projetos que estamos a elaborar para a criação de uma Escola Internacional de Turismo e de uma Escola Sénior, projetos que deverão estar implementados ao longo do próximo ano.

Passa por reforçar a relação interinstitucional com dois dos nossos principais parceiros a ARDITI (Agência Regional para o Desenvolvimento, Investigação, Tecnologia e Inovação), com a qual vamos celebrar formalmente um protocolo de colaboração interinstitucional, no campo da partilha de centros e polos de investigação, e a StartUp-Madeira, sobretudo na área do empreendedorismo.

“O futuro passa pelo sucesso dos atuais centros e polos de investigação da UMa”

Passa por aumentar a apresentação de candidaturas a projetos, tanto aqueles que são da responsabilidade dos nossos investigadores, como os que, institucionalmente, podemos aceder para áreas estratégicas, a serem financiados por fundos nacionais do novo quadro comunitário, fundos a que há muito não tínhamos acesso e que são cruciais para a transformação digital e a internacionalização.

Passa, ainda, por cumprir o programa do financiamento, no âmbito do PRR – STEAM Jovem e Impulso Adultos; o programa de recuperação da atual Residência Universitária e da recuperação e reestruturação do Edifício da Rua da Carreira; e, porque é uma das ambições por que mais lutámos, pela construção da nova residência universitária, com capacidade para 200 camas, a ser instalada na Quinta de S. Roque, faltando formalizar o contrato que permitirá iniciar a sua construção; e associada a esta pretensão, a construção do edifício destinado ao ensino politécnico, que se encontra em fase adiantada para decisão por parte do Governo Regional.

O futuro está repleto de possibilidades e estas são apenas algumas das que, pela conceção, processo e elaboração de projeto, não carecem (prevejo!) de uma especial capacidade especulativa.

Se se concretizarem, estou certo de que o caminho a percorrer será mais fácil. E nesse caminho a Universidade deseja poder contar com a contribuição dos atuais membros da Academia, das entidades nossas parceiras e dos demais colaboradores.

Além disso, num período do ano em que os estudantes candidatos ao ensino superior se preparam para fazer as suas opções para prosseguir estudos, estamos prontos para receber os que escolherem a nossa Universidade.

6 de maio: o dia da nossa Universidade

Mensalmente, a ACADÉMICA DA MADEIRA tem um espaço de opinião no JM Madeira. Ricardo Freitas Bonifácio, Presidente da Direção da ACADÉMICA DA MADEIRA, escreve este mês sobre os problemas que os estudantes enfrentam no Ensino Superior.

Estamos à vossa espera, porque a Madeira precisa vós, precisa do vosso talento. A Universidade da Madeira é o espaço privilegiado para a vossa formação académica e crescimento pessoal e intelectual. Venham saber de nós e tomem a vossa decisão. Verão que valerá a pena.

Concluo com um agradecimento a todos e com os parabéns que merecemos pela história e realizações da nossa Universidade.

Muito obrigado!

Sílvio Moreira Fernandes
Reitor da UMa
Com fotografia de Roberto Sousa.