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Dívida estudantil que cresce enquanto se paga

Dívida estudantil que cresce enquanto se paga

Um novo retrato do sistema de empréstimos estudantis britânico mostra como juros elevados estão a transformar o financiamento do ensino superior numa dívida praticamente impossível de reduzir.
Royal Naval College, Greenwich, Londres.

O sistema de empréstimos estudantis no Reino Unido está a gerar situações paradoxais em que os graduados pagam regularmente sem verem a sua dívida diminuir. Segundo avançou o The Guardian, o caso de Helen Lambert, enfermeira do NHS, tornou-se emblemático de um problema estrutural. Apesar de já ter pagado mais de cinco mil libras desde 2021, a sua dívida total aumentou de cerca de 57 mil para mais de 77 mil libras, empurrada por juros mensais superiores a 400 libras.

A lógica do sistema assenta em empréstimos para propinas e manutenção, aos quais é aplicado juro desde o momento em que o estudante começa a receber o apoio financeiro. No caso dos chamados empréstimos do plano 2, os juros estão indexados à inflação e podem atingir valores muito elevados, chegando aos 8% em alguns períodos recentes. O resultado é que, para muitos graduados, os descontos mensais no salário são sistematicamente ultrapassados pelo montante acrescido em juros, fazendo com que o saldo global continue a crescer.

Este modelo tem sido comparado a um imposto encapotado sobre os diplomados. Os reembolsos correspondem a 9% do rendimento acima de um determinado limiar salarial, sendo cobrados automaticamente através da folha salarial. Independentemente do valor em dívida, o pagamento funciona como uma taxa permanente durante décadas, até que o empréstimo seja anulado ao fim de 30 anos. A própria Helen Lambert reconhece que dificilmente conseguirá liquidar a dívida antes desse prazo, descrevendo a situação como “desencorajadora” e sem uma via realista de resolução.

A polémica ganhou ainda mais visibilidade quando figuras públicas, incluindo deputados, revelaram enfrentar dificuldades semelhantes. A deputada trabalhista Nadia Whittome admitiu que, mesmo com um salário elevado, conseguiu reduzir apenas uma pequena fração da sua dívida ao longo de vários anos, questionando que hipóteses restam então para graduados com rendimentos médios ou baixos.

As decisões orçamentais recentes agravaram este cenário. O congelamento do limiar salarial a partir do qual se iniciam os reembolsos significa que, à medida que os salários sobem, uma fatia maior do rendimento passa a ser capturada pelo sistema de empréstimos. Na prática, mais graduados começam a pagar e os que já pagam veem o valor anual aumentar, sem que isso se traduza numa redução efetiva da dívida acumulada.

Perante este quadro, multiplicam-se as propostas de reforma, incluindo a reclassificação da dívida estudantil como um verdadeiro imposto de graduação. A ideia ganha força entre economistas, sindicatos e associações estudantis, que alertam para os efeitos psicológicos e sociais de uma dívida que cresce mesmo quando é paga. O retrato traçado pelo The Guardian sugere que, sem mudanças profundas, o financiamento do ensino superior continuará a assentar num modelo que penaliza uma geração inteira de graduados.

Luís Eduardo Nicolau
Com Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Rita K.

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