IT’S OKAY comprar livros para decoração?

Em junho, Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, do Literacidades, estiveram na Madeira para participar de uma visita cultural do programa HERANÇA MADEIRENSE, da ACADÉMICA DA MADEIRA. Os dois influenciadores foram entrevistados pela ET AL.
Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, do Literacidades, foram entrevistados no IT'S OKAY, em junho de 2023. O episódio foi gravado no Castanheiro Boutique Hotel.

A 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o grupo de estudantes “Compartilhando Culturas” realizou uma atividade especial para promover a valorização da cultura e da história regionais, como noticiado pela ET AL. A visita orientada “Funchal: Cultura Viva”, que integrou o programa HERANÇA MADEIRENSE, foi promovida pela ACADÉMICA DA MADEIRA.

Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, do Literacidades, foram convidados, com o apoio do Turismo da Madeira, para a visita do programa HERANÇA MADEIRENSE. A ET AL. conversou com os dois influenciadores para conhecer mais sobre a sua atividade e também sobre a sua paixão, a leitura, antes das gravações para o IT’S OKAY.

Como surge o Literacidades e como tem sido o vosso percurso desde a criação da conta?

O Literacidades surgiu em 2019, partindo da vontade do Ludgero de partilhar as suas experiências de leitura assim que terminava um livro, à semelhança do que já acontecia sobretudo no Instagram e no YouTube. A isso juntou-se a ideia de fotografar o livro num cenário que remetesse para o mesmo, enquadrando a opinião com imagem. O Álvaro juntou-se logo a seguir e desde então tem sido uma autêntica viagem! Primeiro pensámos em fotografar sempre em cidades diferentes, mas o orçamento apertava! Então focámo-nos no Porto e assim estivemos durante muito tempo: foto com o livro à frente das nossas caras, tendo por trás um cenário da Invicta que nos remetesse para a história, e em baixo um texto com a opinião de leitura. Durante 2020, as pessoas estiveram muito recetivas a conteúdo online, e o Literacidades ganhou asas. Começámos a produzir outro tipo de conteúdo, como vídeos, stories e as lives de domingo passaram a ser um momento de encontro entre todos. Estávamos fechados em casa e aquela era uma janela para o mundo. Os autores juntaram-se a nós em inúmeras lives que foram as responsáveis por tornar o Literacidades conhecido. José Luís Peixoto foi o primeiro “grande” autor que aceitou falar connosco em direto. A partir de então, uma miríade de escritores e escritoras passaram pelo Literacidades. Hoje, as lives são passado! E é isso mesmo que nos entusiasma: procurar sempre o conteúdo mais relevante, adaptarmo-nos, sair da rede social para o mundo real, darmo-nos a conhecer e com isso levar as pessoas a ler mais, se possível sempre em viagem. De um hobbie, o Literacidades passou a um trabalho. Com a profissionalização veio a exigência cada vez maior com a qualidade e pertinência dos conteúdos. Um dos segredos foi não falar apenas de livros. Somos pessoas por detrás das páginas, com as nossas personalidades, e é estimulante que as pessoas nos conheçam assim. Não descurar nunca a qualidade dos conteúdos (das fotografias, vídeos, textos) foi sempre uma preocupação primordial e que ajudou, sem dúvida, a que houvesse mais reconhecimento. Daqui para a frente, venha mais mundo que cá estamos para o receber!

Que desafios entendem que a leitura continua a enfrentar em Portugal?

Somos muito otimistas quanto aos leitores portugueses, às editoras e livrarias. Hoje conseguimos encontrar livros com diversidade de temas, com representatividade, com variedade, e só por isso já estamos melhor do que antes. Há uma nova geração que está a iniciar o seu caminho de leitor e só desejamos que esse caminho seja feliz e recompensador. Felizmente as bibliotecas continuam a cumprir o seu papel, levando a leitura a todos, e as novas formas de ler, em formato eletrónico e áudio, são uma mais-valia. Alguns nichos permanecem, no entanto, com a ideia de que falar de livros é só para académicos ou críticos, de que o livro deve ser colocado num pedestal, a leitura enquanto meio elitista de acesso à cultura. Acreditamos que há cada vez menos pessoas que não percebem que, se queremos que os outros também leiam, tem de se desdramatizar o objeto livro mas sobretudo democratizar a ideia de que, à semelhança de um brunch ou de uma volta no carrossel, podemos falar das sensações que um livro nos provocou de forma descomplexada, sem nos preocuparmos com padrões estéticos e análises formais. E, além disso, não aceitar arquétipos moralistas em torno da leitura, como o desprezo pelo novo, pelo simples, pelo emocionante, em função do tédio e do complexo. Mas este trabalho está a ser muito bem feito pelas gerações mais novas. Há lugar para todos e para todo o tipo de leituras. Tentar restringir conceitos culturais a padrões de gosto não funciona em nenhuma área e é a receita certa para afastar os jovens da leitura.

Depois de mais uma passagem pela Madeira, há algumas semanas, quais são as recordações mais presentes?

O trabalho incansável, extraordinário e único dos nossos amigos da Académica da Madeira, que com parcos recursos fazem a diferença e contribuem para o reconhecimento de um território periférico, que foge ao centro gravitacional da capital e entrega um cardápio de atividades e conquistas que são absolutamente formidáveis. Fosse na Madeira, em Nova Iorque ou noutro lado qualquer, o trabalho da Académica da Madeira devolve-nos esperança nos mais novos e no seu poder de executar com êxito muito mais do que aquilo que é expectável. Não dizemos para adular, nada disso. Vocês viram as nossas caras de cada vez que nos contavam mais qualquer coisa que faziam! Além disso… a Madeira é linda. Basta lá ir para percebermos que fomos parvos em passar tantos anos sem apostar em férias na nossa pérola do Atlântico. Ainda não foi desta que experimentámos as lapas, mas já provámos a poncha, na última noite! Quase que perdíamos o avião! Ponchas à parte, estamos ansiosos por voltar a essa ilha maravilhosa!

Entrevista conduzida por Luís Eduardo Nicolau
Com Carlos Diogo Pereira
Fotografia de Pedro Pessoa.

A deslocação de Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, do Literacidades, contou com o apoio da AP-Madeira.

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