Os livros são como as casas

Fay Weldon, em 1984, publicou Letters to Alice: on First Reading Jane Austen, um volume pequenino, constituído pela correspondência com a sua sobrinha punk de cabelos verdes, que tinha demonstrado uma especial rebeldia em relação à leitura de Jane Austen. Fay Weldon é ela própria devedora do “wit” de Austen e da sua mestria em criar retratos detalhados e incisivos, às vezes quase “diabolicamente” irónicos, das personagens que povoam os seus romances. A autora transmite à jovem Alice que os livros ajudam a lidar com as situações mais imprevistas e que a literatura se relaciona com os homens através das emoções, do apelo ao raciocínio, despertando-os para o mundo que os rodeia, favorecendo o seu empenho ético e desenvolvendo a sua humanidade e humanismo.

Com a “Cidade da Invenção”, onde os escritores constroem “Casas da Imaginação”, Fay Weldon oferece ao leitor talvez uma das mais bonitas metáforas da literatura: todas as casas nos acolhem de forma diferente e têm histórias para contar, as antigas e as novas, as muito visitadas e as poeirentas, ou as que cheiram ainda aos materiais de construção. Há ainda as que estão à espera que lhes abram as portas e lhes encontrem os segredos e outras em ruínas, porque perderam a capacidade de atrair (estas interessam especialmente alguns académicos, que são como os arqueólogos e se entusiasmam a tirar o pó de uma pedra, na qual conseguem ver um palácio inteiro). Visitar Jane Austen e Fay Weldon é obrigatório para todos. Como é obrigatório visitar os clássicos, nossos eternos contemporâneos. E a pergunta não deve ser se são os clássicos suficientemente modernos para nós, mas se seremos leitores suficientemente modernos para compreender os grandes escritores clássicos.

Levar o leitor pelas “Casas da Imaginação” da minha “Cidade da Invenção” e aconselhar a visita de algumas delas é, para mim, muito difícil. Isto porque a minha Cidade, com as suas ruas, está sempre em movimento e as casas mudam de lugar. Os livros que aconselho ler neste mês de férias seriam outros se eu escrevesse daqui a uma semana. Mas, correndo o risco de me arrepender até ao fim do dia, aqui vão umas casas simpáticas que podem acolher o leitor:

Casa antiga muito visitada: Os Cadernos de Picwick, de Charles Dickens, primeira obra do autor, publicada em folhetim com as caricaturas de Robert Seymour, que nos leva pelas aventuras do ingénuo Samuel Pickwick e dos seus amigos do Picwick Club. Tem um ritmo apaixonante e é difícil conter a gargalhada com as trapalhices do pitoresco grupo. Grande oficina de escrita para aspirantes a escritor.

Casa antiga e misteriosa: para os amantes de casas com quartos que escondem segredos e dão arrepios, uma antologia de Edgar Allan Poe; estando aqui, abre-se uma porta para uma…

Casa nova (pode ter uma casa, em frente, igualzinha, igualzinha, porque esta construtora gosta de imagens duplas que se refletem numa espécie de espelhos): a de Ana Teresa Pereira, de Matar a Imagem, de 1989, a passar por Karen, prémio Oceanos, de 2016, à últimas obras.

Casas sempre abertas: visitem Pepetela. Para quem gosta de um policial ao avesso, com um James Bond angolano, Jaime Bunda e o Agente Secreto; para quem quer conhecer a Angola de hoje, num fabuloso romance que nos amarra o estômago e se crava na consciência, com os meninos de rua e a violência dos predadores, Se o Passado não Tivesse Asas. Fica uma série de questões éticas no ar que nos deixa acordados.

Sobrado: porque é brasileira esta casa de Jorge Amado, Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso, que conta a história de Vasco Moscoso de Aragão, marinheiro cheio de histórias que encanta a cidade de Periperi, mas que, na realidade, nunca pôs os pés na água, fiacmos a saber que o que se vê pode não ser o que se é e que a verdade está escondida “no fundo de um poço”; se quiserem compreender melhor o mundo dos vossos docentes e as ambições que, por vezes, estão por detrás do meio académico, Farda Fardão Camisola de Dormir. É muito esclarecedor. Estou a piscar-vos o olho…

Casa à espera de ser aberta: A Comédia da Vida, de Luzia. Há na GAUDEAMUS e garante muitos sorrisos a partir do retrato dos “indiferentes” desta vida, que passam por ela muito mais preocupados com a cor de um vestido (ou com as fotografias das redes sociais…) do que com o que se passa à sua volta.

Luísa Paolinelli
Docente da UMa

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