A ciência continua a beneficiar de um elevado grau de confiança pública, embora essa confiança não deva ser considerada garantida. É a partir desta preocupação que Ricardo R. Santos questiona, num artigo de opinião do PÚBLICO, a forma como investigadores e instituições são atualmente avaliados. Na sua leitura, instalou-se uma lógica que privilegia dois indicadores, “a quantidade de artigos publicados e a quantidade de dinheiro angariado”. Produzir mais tornou-se sinónimo de sucesso, alimentando rankings, concursos e avaliações, mesmo quando a quantidade pouco diz sobre a qualidade ou a relevância do conhecimento produzido.
O problema começa precisamente no modo como se recompensa a produção científica. “Publica-se muito porque o sistema de avaliação da ciência, ou melhor, dos seus operadores, privilegia a quantidade”, escreve Ricardo R. Santos no PÚBLICO. O resultado, acrescenta, é o “artifício de uma ciência vigorosa e fértil”, que nem sempre resiste à avaliação posterior. O autor recorda a crise de reprodutibilidade que atravessa diferentes áreas científicas e aponta a pressão para publicar muito e depressa como uma das suas causas. Em Portugal, associa ainda esta dinâmica ao elevado número de trabalhos publicados em revistas da MDPI e a práticas de autoria determinadas por hierarquias ou por acordos entre investigadores.
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A questão não se limita aos artigos. O texto dirige uma crítica particularmente severa à cultura interna de algumas universidades e instituições de investigação, onde casos de fraude, más práticas e assédio terão sido tratados durante demasiado tempo como problemas que deveriam permanecer longe do escrutínio público. O objetivo, segundo Ricardo R. Santos, seria “não manchar a imagem reputacional da instituição”. O autor evoca os casos do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e da eleição do reitor da Universidade Nova de Lisboa, bem como impugnações relacionadas com concursos académicos, para sustentar que o silêncio institucional pode proteger quem transgride em vez de proteger a própria ciência.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas um problema interno da academia. Ricardo R. Santos recorda que a confiança nos cientistas está associada à confiança no próprio método científico. A credibilidade nasce, portanto, de uma prática assente “com método, mas também com rigor, com ética, com transparência, com responsabilidade, com honestidade”. Se estas condições forem enfraquecidas por interesses privados, abusos ou fraude, a consequência pode chegar muito além das universidades. Para o autor, corromper a forma como se faz ciência constitui “uma óbvia e significativa ameaça à confiança pública na ciência”.
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A responsabilidade também não deve, na sua perspetiva, ser colocada exclusivamente sobre os investigadores que procuram sobreviver dentro do modelo existente. “A culpa, essa, é das lideranças que, por fraqueza ou por convicção, perpetuam uma cultura organizacional centrada na competição feroz e na aparência dos rankings e dos índices-h”, escreve no PÚBLICO. Esta cultura favoreceria desigualdades, abusos e comportamentos científicos questionáveis. Daí a defesa de uma mudança na avaliação, abandonando a lógica simplista do “quanto mais, melhor” e reconhecendo que produzir um grande volume de investigação não equivale necessariamente a produzir melhor conhecimento.
A resposta proposta passa também por admitir algum grau de fiscalização exterior às próprias instituições. Ricardo R. Santos sugere que a ciência “talvez necessite de alguma heterorregulação”, feita por quem esteja suficientemente afastado dos interesses e das relações de poder existentes no meio académico. A finalidade não seria aumentar a produção, antes criar condições para “fazer, não necessariamente mais, mas melhor”. O alerta lançado pelo autor é dirigido à preservação de algo mais difícil de recuperar do que qualquer posição num ranking. “Oh! Sim, há algo de podre no reino da ciência”, conclui, advertindo que os problemas ocultados acabam, mais cedo ou mais tarde, por se tornar visíveis.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de .
