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Um terramoto silencioso no ensino superior

Um terramoto silencioso no ensino superior

Eric Mazur defende que a inteligência artificial expôs as fragilidades do ensino tradicional e obriga as universidades a repensar, de forma urgente, o que significa educar no século XXI.

O professor Eric Mazur, uma das figuras mais influentes da inovação pedagógica no ensino superior, considera que “há um verdadeiro terramoto a abalar as instituições académicas”, resultado direto da incapacidade do modelo tradicional de ensino responder às transformações tecnológicas e sociais em curso. Em entrevista ao PÚBLICO, Mazur sublinha que as universidades continuam excessivamente centradas na transmissão de informação, quando o acesso ao conhecimento deixou há muito de depender da sala de aula.

Ao recordar o seu próprio percurso académico, Mazur é particularmente crítico em relação a um ensino baseado na memorização e na repetição mecânica. “Os alunos passavam nos exames, mas não compreendiam os princípios mais básicos”, admite, reconhecendo que durante anos reproduziu, enquanto docente, os mesmos métodos que o tinham desmotivado enquanto estudante. Foi essa constatação que esteve na origem do desenvolvimento do método Peer Instruction, uma abordagem que coloca os estudantes no centro do processo de aprendizagem.

Para o professor de Harvard, o problema estrutural do ensino superior reside no facto de a avaliação continuar a privilegiar a “regurgitação” de conteúdos em detrimento do pensamento crítico. “Se a educação fosse apenas transmissão de informação, bastava dizer aos alunos para irem à Internet ou ao ChatGPT”, afirma, defendendo que a verdadeira aprendizagem exige tempo, interação e momentos de reflexão ativa que raramente existem nas aulas expositivas tradicionais.

A inteligência artificial surge, neste contexto, como um catalisador de mudanças profundas. Mazur alerta que praticamente todas as tarefas académicas clássicas podem hoje ser realizadas por sistemas de IA “mais depressa, melhor e mais barato”. Proibir estas ferramentas, argumenta, não só é inútil como prejudicial, porque impede os estudantes de desenvolverem competências que lhes permitam trabalhar num mundo onde a IA será inevitável.

O impacto desta transformação já se faz sentir no mercado de trabalho, sobretudo nos Estados Unidos, onde Mazur aponta um aumento do desemprego entre jovens licenciados. “As empresas perguntam-se porque hão de contratar um jovem caro e inexperiente se a IA faz o mesmo trabalho”, observa, defendendo que as universidades têm de formar para competências duradouras, como análise crítica, criatividade e capacidade de resolver problemas complexos.

Apesar do diagnóstico severo, Eric Mazur mantém uma visão cautelosamente otimista. Reconhece que existe hoje uma atmosfera “anti-intelectual e anticiência” que afeta as universidades, mas lembra que a história mostra ciclos de declínio e renovação. Para o professor, a atual crise pode ser uma oportunidade decisiva para que o ensino superior abandone velhos dogmas e reencontre a sua missão fundamental: formar pessoas capazes de pensar, e não apenas de repetir respostas.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Marcus Urbenz.

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