O debate em torno da utilização de inteligência artificial no ensino superior ganhou novos contornos após a publicação do artigo de opinião que questiona a tentação de transformar a tecnologia no bode expiatório dos problemas estruturais da universidade. Logo de início, o autor alerta para “por favor, não culpem a IA dos males do mundo”, lembrando que a inteligência artificial é hoje uma ferramenta integrada no quotidiano académico e profissional e que o verdadeiro desafio está em formar estudantes críticos num contexto tecnológico inevitável.
No texto, é fortemente criticada a linguagem utilizada num manifesto subscrito por dezenas de docentes, que classifica os estudantes como “cretinos digitais”, expressão que o autor considera “estigmatizante e pejorativa”. A comparação com a chamada “geração rasca” surge como exemplo de generalizações injustas que ignoram contextos sociais e educativos mais amplos, recordando que episódios isolados nunca podem servir para rotular gerações inteiras.
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O artigo sublinha ainda que problemas como o plágio, a burocratização do ensino e a pressão sobre os docentes não são consequência direta da inteligência artificial. Pelo contrário, defende-se que “a IA só veio pôr a nu as fragilidades de um sistema de ensino demasiado virado para as necessidades imediatas do mercado de trabalho”, marcado por especializações precoces, metodologias pouco participativas e uma resistência persistente à mudança pedagógica.
O autor rejeita soluções baseadas na proibição e insiste que “a questão não está na IA, mas na forma crítica ou acrítica como é usada”. A universidade, argumenta, não pode fechar-se ao mundo real nem responder ao desconforto com censura tecnológica. O caminho passa por repensar métodos de ensino, avaliação e formação cívica, garantindo que os estudantes sejam, de facto, “cidadãos de corpo inteiro, num mundo em que a IA é, cada vez mais, uma ferramenta do dia a dia”.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Markus Spiske.