Elvira Fortunato, antiga ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, critica frontalmente as propostas que defendem a proibição da inteligência artificial nas instituições de ensino superior, considerando-as um “retrocesso intelectual preocupante”. A autora reconhece que existem receios legítimos associados ao uso da IA, como o plágio ou a fragilização dos métodos de avaliação, mas sublinha que responder a esses desafios com interdições representa “a pior forma possível” de lidar com uma transformação tecnológica inevitável.
O texto enquadra o debate numa perspetiva histórica, lembrando que todas as grandes inovações tecnológicas foram recebidas com desconfiança. Da escrita à imprensa, da internet à inteligência artificial, o padrão repete-se: medo da perda de capacidades humanas fundamentais. A diferença, sustenta a autora no PÚBLICO, é que hoje existe evidência científica suficiente para orientar decisões informadas, evitando respostas baseadas apenas no receio ou na nostalgia de modelos educativos ultrapassados.
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Elvira Fortunato alerta ainda para os riscos reais da IA, como os enviesamentos algorítmicos, a proteção de dados ou as desigualdades de acesso entre estudantes, mas insiste que esses problemas exigem regulação inteligente, não proibição. A universidade, enquanto espaço de liberdade intelectual, deve assumir a responsabilidade de compreender, regular e integrar criticamente estas ferramentas, preparando os estudantes para um mundo em transformação, em vez de tentar isolá-los dele.
No centro da crítica está o próprio modelo pedagógico dominante no ensino superior, excessivamente centrado em tarefas reprodutivas e avaliações padronizadas. Num contexto em que a IA automatiza precisamente esse tipo de produção, a autora defende que o verdadeiro desafio é repensar o que significa aprender, avaliar e certificar conhecimento. Para o PÚBLICO, a inteligência artificial não representa uma ameaça à universidade, mas uma oportunidade rara de reforçar a sua missão essencial: ensinar a pensar, e não impedir que o mundo avance.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Brooke Cagle.