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A redescoberta da epopeia madeirense

A redescoberta da epopeia madeirense

Uma nova edição crítica devolve ao presente a INSULANA, o poema épico de Manuel Tomás que celebra o descobrimento da Madeira e a memória cultural do arquipélago.
INSULANA de Manuel Tomás, editada pela IMPRENSA ACADÉMICA.

A INSULANA é um poema heroico em dez livros, ou cantos, sobre o descobrimento da ilha da Madeira, escrito por Manuel Tomás, nascido em Guimarães no ano de 1585, de ascendência judaica, e falecido no Funchal em 10 de abril de 1665. No início de 1610, Manuel Tomás já vivia na Madeira, onde era mercador, tendo exercido também, por vários anos, o ofício de intérprete de línguas estrangeiras no porto do Funchal, competindo-lhe, entre outras tarefas, a tradução de passaportes. Manuel Tomás escreveu o poema épico Insulana, nitidamente influenciado por Os Lusíadas de Luís de Camões. Como explicou o editor literário, professor doutor Nelson Veríssimo, Manuel Tomás «retribuiu com este poema a hospitalidade que recebera na ilha. Além do mais, considerava que o descobrimento e o bem-sucedido povoamento do arquipélago da Madeira deveriam ser cantados, para que a memória dos vindouros sempre se lembrasse dos feitos grandiosos dos que se distinguiram no arquipélago e no Além-Mar.»

A presente edição literária do poema INSULANA é mais uma realização da Imprensa Académica no âmbito da afirmação do seu propósito de fomentar a investigação e a divulgação científica desenvolvida pelas instituições de Ensino Superior, nomeadamente pela Universidade da Madeira. O professor doutor Nelson Veríssimo, professor aposentado da Universidade da Madeira, realizou um trabalho notável, em que despendeu vários anos, e que vai ao encontro da necessidade de uma edição anotada para os leitores do nosso tempo. Como referiu: «Este poema épico é uma pedra angular da identidade madeirense, que precisa de ser estudada e divulgada e não apenas utilizada com chavão retórico.»

Nesta epopeia, o Poeta canta os feitos de João Gonçalves Zarco, ou Zarco, como se encontra grafado no texto. A narrativa desenvolve-se em quatro planos: as grandezas de Portugal até ao tempo de Zargo, quando estava investido nas funções de capitão da costa do Algarve; viagens de Machim e de Zargo, que possibilitaram o reconhecimento e o consequente povoamento das ilhas; prognósticos sobre a Ilha; reflexões do poeta.

Manuel Tomás compara a realidade poética que canta com situações do mundo clássico, embelezando o seu discurso com várias referências históricas e mitológicas. Os elementos fantástico e maravilhoso estão presentes, por exemplo, quando Neptuno convoca as divindades do mar para ajudarem os navegadores portugueses na viagem para o arquipélago da Madeira. Refira-se a preocupação e o cuidado do professor doutor Nelson Veríssimo em explicar estas referências históricas, mitológicas e bíblicas, entre outras, em inúmeras notas que são um grande auxílio à compreensão do texto e que têm um propósito pedagógico e didático exemplar, sempre iniciadas com a identificação da estrofe e do verso a que se referem. Assim explicou o autor: «investi muito nas notas de pé de página, para ajudar o leitor a compreender o texto poético. Sobre as anotações à margem, feitas pelo Poeta, valorizei-as apenas quando ajudavam nessa compreensão, em desfavor do seu levantamento exaustivo, tarefa nalguns casos impossível.»

A obra conta também com um estudo introdutório de grande relevância para se conhecer o Poeta e a época; uma divisão temática da estrutura do poema; a Marginália, ou seja, a transcrição do que o Poeta escreveu à margem do seu próprio texto; um rico glossário que contém explicações indispensáveis; os índices analítico, de autores e livros bíblicos citados por Manuel Tomás, e de plantas, flores e frutos referenciados no texto; e, por fim, as fontes e bibliografia.

Esta muito cuidada edição teve como principal preocupação, nas palavras do autor, «tornar acessível um poema do século XVII para um leitor do nosso tempo, sem desvirtuar ou alterar o original, nomeadamente quanto à rima e métrica. Em suma, normalizei a ortografia tendo em conta esses limites e ainda com a preocupação de conservar algumas formas seiscentistas, para não apagar totalmente as características da fonia, mas sem a pretensão de mediação de um filólogo.»

O autor explicou a sua opinião a respeito do patrocínio pelo Governo Regional da publicação de uma «colecção completa de epopeias do ciclo épico madeirense», na qual se inclui a INSULANA, de Manuel Tomás (JORAM, I, 223, 05-12-2023, 14): «Gastar recursos financeiros com a duplicação de projetos não é boa política. Se, como era público, eu estava a trabalhar na INSULANA, e este era um projeto que vinha dos anos 90 do século passado, quando eu trabalhava na Direção Regional dos Assuntos Culturais, mas que, lamentavelmente e por razões que me são alheias, não se concretizou, não havia necessidade de duplicar a edição. Com a verba despendida, poderiam ser editados outros textos da Cultura madeirense, ainda inéditos. De qualquer forma, o confronto entre várias edições poderá vir a ser proveitoso. A minha edição da INSULANA está aí, graças à Imprensa Académica, a quem agradeço. Caberá aos leitores e aos críticos distinguirem as três recentes edições de um poema, por mais de três séculos esquecido ou pouco lembrado.»

Nelson Veríssimo nasceu no Funchal em 1955, na freguesia de São Pedro. Doutor em História pela Universidade Nova de Lisboa (1999) e Agregado em História pela Universidade dos Açores (2013). Professor aposentado da Universidade da Madeira. Fundador e diretor da revista Islenha, do n.º 1 até ao n.º 30 (1987-2002). Autor de livros de História e editor de várias antologias literárias. Publicou ainda dezenas de trabalhos sobre História do Atlântico, Património Cultural, História Cultural e História da Educação em revistas, obras coletivas e atas de congressos, nacionais e internacionais. Colaborou no Diário de Notícias da Madeira entre 1985 e 2010 e, desde 2015, publica, com regularidade, no Fórum – painel de opinião do Funchal Notícias. Comendador da Ordem do Mérito, condecoração atribuída pelo Senhor Presidente da República Portuguesa em 2001.

A Imprensa Académica e a Cadmus integram, a partir de 2025, o universo editorial da Associação para Promoção da Herança Madeirense. Criadas na década passada, ambas as editoras, de raiz universitária, possuem um catálogo de obras que ultrapassa os 100 títulos.

Esta nova etapa da sua vida editorial traz novos desafios, como a criação do primeiro Conselho Editorial, a adesão à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e o reforço da sua presença no mercado escolar regional.

Este novo ciclo consolida o compromisso das duas editoras com a divulgação do conhecimento universitário e com a valorização das artes, da ciência, da cultura e da identidade madeirense, através da publicação de obras de ficção e não ficção. Assim, as editoras pretendem reforçar a sua aposta no setor livreiro regional e nacional, promovendo a circulação do conhecimento, a promoção da leitura e a valorização das edições madeirenses no panorama editorial português.

Timóteo Ferreira
ET AL.
Com imagem da capa com a fotografia de Idílio Gonçalves.

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