À conversa com… Carla Baptista

Com a concessão ao infante D. Henrique da prerrogativa de fundar igrejas e mosteiros—gozando do privilégio do Padroado quanto à escolha e envio de clérigos regulares e seculares para a cristianização das populações(1), torna-se mais efetivo o empenhamento dos navegadores e da coroa portuguesa, no que diz respeito à definição de uma estrutura religiosa adequada às diferentes manifestações culturais dos crentes, bem como aos diferentes espaços de ocupação atlântica, entre eles, o arquipélago da Madeira.

Associados aos primeiros navegadores e colonizadores, os franciscanos lançam-se no projeto que visava assegurar a necessária ‘povoação do céu’, no mar e nas áreas que iam ser ocupadas(2). Após o reconhecimento da costa da ilha, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira definiram os locais de habitação e aí mandaram erguer capelas: «por em obra a edificação das igrejas e das vilas e lugares, e lavrança das terras». Para os colonizadores, ficava, deste modo, garantido que se iria «manter todos em justiça, paz e que vivessem todos em serviço de Deus»(3). Deste projeto nascem as capelas de Machico, Funchal, Câmara de Lobos, Campanário, Ponta de Sol e Calheta.

Para além de outros afazeres, o infante D. Henrique, enquanto senhor da Ilha, preocupou-se ainda com o serviço religioso no arquipélago, o que o levou a ordenar, em 1460, a construção das igrejas de Santa Maria, do Porto Santo e das Desertas. A partir desta data, todo o serviço religioso das ilhas dependia do vigário de Tomar. Esta dependência só terminou com a criação, em 1514, da diocese do Funchal. João Gonçalves surge, então, como o primeiro vigário da Madeira, ao qual vai suceder, em 1476, o padre Francisco Nuno Gonçalves, que se vai manter ao serviço até à policitação dos moradores do Funchal para que abandone o cargo, em 1485. Vão ser precisos mais cinco anos para que um novo vigário seja nomeado para Santa Maria do Funchal. frei Nuno Cão foi o vigário indicado para o cargo e, pelos relatos da altura, sabemos que abraçou a missão em 1490 e que foi muito bem aceite pelos cristãos funchalenses. Quanto a Machico, os documentos apontam para frei João Garcia, que aceitou o cargo de vigário decorria o ano de 1450. Neste contexto, importa lembrar que nesta altura, eram atribuídos poderes de administração e de prática religiosa aos vigários, sendo que estes não poderiam, em caso algum, serem molestados, na sua ação, pelos capitães-donatários.

Com o progressivo aumento demográfico e com a evolução da economia, começaram a se fazer sentir outras necessidades, no que diz respeito à assistência religiosa, nomeadamente na celebração de eucaristias, que se realizavam aos domingos e dias santos, na capela do Infante, no Funchal. A partir de 1485, os documentos apontam para os projetos de construção de novas capelas, o que acontece nomeadamente no Funchal, em Machico, em Santa Cruz e também em Câmara de Lobos. Deste modo, temos no Funchal dos finais do século XV, três capelas de devoção: Santa Maria de Calhau, S. Sebastião e Santa Maria de Cima. Um número animador, contudo, não se deve deixar de lembrar que a história das festividades sagradas madeirenses não se cinge à religiosidade entre os habitantes da capital, nem tão pouco ao esplendor apresentado pelas igrejas.

Apesar da relutância dos homens-bons do concelho — que levou a protelar até 1493 obras que já faziam falta em 1485 —, um novo templo vai concluir-se, em 1517, e é sagrado por D. Diogo Pinheiro, bispo de Dume. A partir de 1488, com a construção do convento de Santa Clara, o serviço religioso ficou concentrado nas capelas de S. Sebastião e Santa Maria do Calhau.

No que diz respeito à evolução da estrutura religiosa madeirense e, consequentemente, à criação de paróquias, podemos afirmar que em 1430 estava criada a primeira paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Baixo, à qual se sucederam as de Ribeira Brava, Ponta de Sol, Câmara de Lobos, S. Vicente, Machico e Arco da Calheta. Nesta deslocação de culto, do espaço urbano para o rural, vamos poder observar o surgimento de capelas e ermidas, construídas pelos próprios moradores, pelos senhorios ou pela coroa portuguesa. Neste cenário de expansão da fé cristã, terá sido muito importante o empenho de muitas famílias madeirenses que criaram capelas anexas às próprias casas-mãe, ou mesmo integradas, provendo-as até de capelães, diversificando-se assim, o serviço religioso ministrado na Ilha.

Como consequência das necessidades de assistência religiosa acrescidas e com a evolução da estrutura da igreja madeirense, o Papa Leão X, em 12 de junho de 1514, extingue a dependência da diocese do Funchal ao vicariato de Tomar, ficando a diocese da Ilha com jurisdição sobre todos os descobrimentos, transformando-se, desta forma, numa base importante para a construção da igreja missionária ultramarina. Muito embora tenha sido por um período breve, à diocese do Funchal foi dada, nas primeiras décadas da sua existência, jurisdição canónica sobre a Igreja em implantação sobre todos os territórios descobertos e a descobrir sob a alçada do Reino de Portugal, o que a tornava então a maior diocese do mundo. Este ano, comemoram-se os 500 anos da sua fundação, realçando-se o seu posicionamento no Mundo, no período em que ainda não se discutia a globalização.

Frequentemente surgem discussões públicas que dão conta de que as manifestações religiosas estão em crise. As romarias também. De facto, esta expressão genuína e espontânea, de prestação de culto, organizada por um ‘festeiro’ da paróquia ou por elementos ligados à confraria ou a grupos de paroquianos, parece estar a perder importância, talvez pela aposta num novo tipo de arraial, que não é o madeirense, e que se apresenta rotulado de semana gastronómica ou de dia do concelho, onde se recriam festas agrícolas, alusivas aos produtos, festivais de música popular, etc.. Passados quinhentos anos, será que as romarias vão deixar de fazer parte da tradição madeirense? E o arraial? Serão realidades que já não se coadunam com o paradigma da globalização? No século XIX, ainda não era assim.

E foi nesse tempo, através de relatos do culto do imaginário que encontramos os aspetos particulares da religiosidade madeirense. A História da Madeira está marcada por episódios atrozes provocados pela natureza (fúria do mar, águas revoltas das ribeiras, incêndios, etc.). Em momentos de aflição, de catástrofes, que martirizavam a população (a maior, de que há registo, foi a aluvião de 9 de outubro de 1803), as imagens milagrosas tornavam-se objeto de culto, às quais os devotos suplicavam por ajuda. A este culto popular, juntou-se o institucional, transferindo para as romagens o tempo e o local de eleição para o povo exteriorizar a sua religiosidade. A romaria mais antiga é a que se realiza em honra de Nossa Senhora do Faial ou da Natividade(4). Ainda de tradição bem vincada estão as do Bom Jesus da Ponta Delgada, a de Nossa Senhora do Monte, a de Nossa Senhora do Loreto, a do Senhor dos Milagres e a de São Pedro da Ribeira Brava.

Desde sempre, por toda a Ilha, os meses de julho, agosto e setembro são os de maior devoção e festividades. O clima, as tarefas agrícolas, como a apanha dos cereais e a vindima, favoreciam a movimentação das gentes, mesmo quando a orografia da Ilha os atraiçoava. De facto, a pé, a cavalo ou por via marítima, todos se deslocavam para o Monte, Ribeira Brava, Loreto, Ponta Delgada ou Machico, conforme podemos observar: «Continuou hontem a romagem ao Senhor dos Milagres, por terra e por mar, reinando sempre a melhor ordem na villa de Machico, apezar da consideravel aglomeração de povo»(5).

1 · Confirmada por Calisto III, a 13 de março de 1456, pela Bula Inter Coetera.
2 · Foram os franciscanos que ergueram nas duas capitanias da ilha as primeiras estruturas de apoio para a sua atividade sacerdotal.
3 · Cf., Jerónimo Dias Leite, Descobrimento da ilha da Madeira (…), Coimbra: 1947.
4 · Comemorava-se a 8 de setembro, mas entretanto perdeu-se no tempo.
5 · Cf., Periódico Diário de Notícias, 10 de outubro de 1894.

Carla Baptista
Docente da UMa

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