O Cadeiral da Catedral do Funchal

REDESCOBRIR A MADEIRA

O cadeiral da sé do Funchal, neste ano de 2014, em que a catedral e a Diocese fazem 500 anos, encontra-se em obras de reabilitação. Trata-se do único cadeiral manuelino das várias grandes igrejas portuguesas que chegou aos nossos dias no seu local original. Servia para os ministros, cónegos e demais dignidades da sé oficiarem em conjunto na capela-mor e, pelos inícios do século XVI, dadas as alterações da liturgia, nas restantes igrejas portuguesas, passou para a um lugar elevado sobre a entrada das mesmas. No Funchal, não ocorreu a transferência e chegou aos nossos dias no seu local original.

O magnífico cadeiral do Funchal teria sido esculpido por uma equipa de entalhadores enviada da cidade de Tomar, sede da Ordem de Cristo, provavelmente dirigida pelos mestres Machim Fernando e João de Tojal, devendo a sua montagem ter ocorrido entre 1514 e 1517. O conjunto é composto hoje por duas ordens de cadeiras, com 11 cadeiras altas de cada lado para os capitulares e uma inferior de mais 8 de cada lado, que se destinava aos capelães. A ordem superior possui sobrecéu, dossel ou guarda-voz, profusamente entalhado e espaldar com santoral, ou seja, com representações de Santos e de Profetas, colocados em pequenas peanhas também entalhadas. As primeiras cadeiras superiores junto da entrada da capela-mor estão destacadas, sendo a do lado do Evangelho destinada ser ocupada pelo deão e, a do lado da Epístola, pelo arcediago, a que se seguiam o chantre e o tesoureiro.

Os cadeirais de coro medievais e renascentistas devem ser os locais em que a decoração melhor espelha o cariz estremado e contraditório da realidade religiosa e social desta época. Na sua decoração conflui pacificamente o sagrado e o profano, o erudito e o popular, o quotidiano e a lenda, numa série de referências históricas ancestrais a que não falta algum sentido de humor. Esta tradição desenvolve-se na marginália que decorre nos locais mais escondidos, como nas misericórdias, ressalto inferior dos assentos que permitiam ao oficiante apoiar-se nas longas leituras e cânticos, parecendo, à distância, estar totalmente de pé.

Nestes espaços secundários aparecem representações mais ou menos profanas de temas populares, ao sabor da memória dos artífices que livremente os esculpiam, transformando o cadeiral num imenso livro antigo de contos, de provérbios e de tradições orais, mas onde o clero não é poupado. Aparece, por exemplo, uma raposa vestida de franciscano a pregar a galinhas, um javali a fiar, um acrobata de cabeça para baixo, uma mulher nua, etc., tudo representações muito pouco comuns dentro das igrejas e só justificáveis, porque estavam mais ou menos escondidas dos olhos dos comuns dos crentes, que não tinham acesso a entrar nesses locais, somente os vendo à distância.

Rui Carita
Professor da UMa

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