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Xavier Miguel, prefaciador de A JUSTIÇA DE DEUS, em entrevista

Xavier Miguel, prefaciador de A JUSTIÇA DE DEUS, em entrevista

Lançamento a 31 de março de 2025, no Museu de Imprensa da Madeira, Câmara de Lobos, às 10:00, A JUSTIÇA DE DEUS de João Augusto de Ornelas conta com prefácio do ator e encenador Xavier Miguel.

Xavier Miguel nasceu na Madeira em 1993. Começou a sua formação nas artes de palco, no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira Eng. Luiz Peter Clode. Após esta formação, foi para o Porto, para fazer a licenciatura em Teatro na Escola Superior de Música e Artes do Porto. De volta à Madeira, fez o mestrado em Estudos Regionais e Locais na Universidade da Madeira.

Define-se como «um artista de rua» e fundou, em 2011, o Teatro Bolo do Caco. Como explica o autor: «A Literatura desde sempre foi uma grande paixão minha, em paralelo com o teatro, e ao longo do meu percurso estas duas áreas têm-se cruzado algumas vezes.» Em entrevista para a ET AL., Xavier Miguel fala sobre a obra A JUSTIÇA DE DEUS.

Xavier Miguel lança a obra BRUXAS E DIABOS

O Colégio dos Jesuítas do Funchal recebe, às 18:30 do 13 de setembro, o lançamento de BRUXAS E DIABOS: FIGURAS DO MAL NA LITERATURA MADEIRENSE (SÉCULOS XX-XXI), o primeiro volume de uma nova coleção universitária.

A obra que agora se (re)publica é da Coleção ILUSTRES (DES)CONHECIDOS. João Augusto de Ornelas era, para ti, um ilustre desconhecido?

Confesso que até o livro A MÃO DE SANGUE ser republicado nesta mesma coleção desconhecia por completo o nome deste senhor. No entanto, sempre fui ávido leitor deste género de romance de mistério, entre os livros de Camilo, um dos maiores autores portugueses neste estilo e de quem sou grande fã. Assim, logo fiquei rendido ao título e li-o vorazmente, em dois ou três dias. É para um público que gosta de mistérios a escrita deste senhor desconhecido; Estamos perante um autor do século XIX, e se para muitos leitores, os assuntos que trata não são atuais, é precisamente o retrato que faz da Madeira da sua época que me fascina enquanto leitor. Além disso, João Augusto de Ornelas tem uma linguagem profundamente marcada pelo romantismo, e explora emoções exacerbadas, situações macabras e enredos que misturam crimes, paixões, doenças, vinganças, e assassinatos, tudo isto referindo locais que qualquer madeirenses poderá reconhecer.

Se em A MÃO DE SANGUE a ação se passa em muitos locais do Funchal, A JUSTIÇA DE DEUS passa-se na Ponta do Sol, onde se desenrola mais uma história de crimes e vinganças passionais, onde o ódio e a violência dos antagonistas contrastam com o cenário rural ilhéu, revelando também alguns aspetos identitários madeirenses, como superstições e uma profunda religiosidade.

Ornelas será um escritor para quem gosta de romance histórico e de época, como eu, e que tenha oportunidade de ver e conhecer os locais que ele descreve, imaginando na sua mente de leitor as histórias e personagens que ele desenha com muita elegância. Por isso é uma feliz oportunidade reeditar mais uma obra deste autor, permitindo que mais pessoas o possam ler, e descobrir este grande autor madeirense.

Como ator e encenador, como vês o potencial dramático de A JUSTIÇA DE DEUS?

Um dos grandes desafios que o teatro impõe é a questão dos diferentes espaços em que a ação se passa. No teatro clássico, impunha-se um formato de cinco atos que pressupunha cinco cenários diferentes; no entanto, com o modernismo, começamos a dividir uma peça em quadros distintos e as regras de espaço começaram a ser difusas. Assim, existem diversos recursos cénicos que poderiam ser usados para transmitir os diversos locais da ação.

Quando adaptamos A MÃO DE SANGUE ao contexto de teatro radiofónico (num projeto do Teatro Bolo do Caco, CMF e 88.8 JMFM, em época pandémica) aproveitamos o formato áudio para dar largas à imaginação e criatividade, usando a maior variedade de espaços e locais possíveis na ficção da história (que se passa na Madeira, no Porto e no Brasil), não sendo uma preocupação representar visualmente esses espaços, mas transmitir através das falas e narração essa mesma informação. No mundo do cinema e da televisão, que é uma arte mormente visual, os espaços e locais são sobremaneira importantes. Nesse sentido, a Justiça de Deus tem um grande potencial cinematográfico, ainda para mais porque se desenrola em cenários rurais madeirenses.

Para o palco não seria descabido pensar numa peça de época com um enredo como estes, mas sem dúvida que traria uma boa dose de desafios à dramaturgia, que teria de resolver questões de espaço e tempo. Recordo-me da mais bela encenação que vi de ‘O Sonho de uma Noite de Verão’ numa velha quinta no Porto, em que toda a peça se passava nos jardins da quinta, e o público ia percorrendo esses cenários de jardim romântico, sentando-se em cenas mais longas. A meu ver (e também ao meu gosto, confesso), uma adaptação teatral de A Justiça de Deus precisaria que o palco fosse um jardim, uma quinta ou qualquer outro cenário, que permitisse ilustrar não apenas os locais da história, mas o ambiente romântico, que transpira a escrita de João Augusto de Ornelas.

Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.
Com fotografia de

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