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“Contribuir para uma maior literacia, capacidade crítica e cidadania ativa de crianças e jovens”

“Contribuir para uma maior literacia, capacidade crítica e cidadania ativa de crianças e jovens”

A NOSSA ASSEMBLEIA é o mais recente lançamento da Imprensa Académica, destinado a todas as idades, que apresenta a Assembleia Legislativa e explica o significado da Autonomia da Região da Madeira. A obra é apresentada a 12 de dezembro no Colégio de Santa Teresinha, no Funchal.
A obra A NOSSA ASSEMBLEIA, de Carlos Diogo Pereira e Sofia Reis, editada pela IMPRENSA ACADÉMICA, uma chancela da ACADÉMICA DA MADEIRA.

Com a aproximação da comemoração dos 50 anos da autonomia político-administrativa da Madeira, consagrada na Constituição de 1976, a Imprensa Académica apresenta A NOSSA ASSEMBLEIA. Uma obra voltada para o público jovem, escrita de forma clara e simples e ricamente ilustrada, que também pode ser lida com prazer e interesse pelos leitores adultos, pois o seu conteúdo despertará a curiosidade de todos os que quiserem conhecer melhor como funciona esta instituição e a história do monumento onde está instalada. Esta é a quarta colaboração de Carlos Diogo Pereira, autor do texto, e Sofia Reis, autora da ilustração, dois antigos estudantes da Universidade da Madeira, ele formado em Ensino, ela em Artes Plásticas.

Apesar de a Sofia e do Carlos já serem bastante conhecidos, falem-nos um pouco do vosso percurso académico e profissional.

S.R.: Fiz a Licenciatura em Artes Visuais na Universidade da Madeira. Após ter feito a licenciatura, realizei um estágio na Imprensa Académica onde tive a oportunidade de ilustrar vários livros.

Depois do estágio em colaboração com a Imprensa Académica, continuei a colaborar com esta e ilustrei com outros autores vários livros.

C.D.P.: Desde que me recordo, sempre quis ser professor, embora a matéria que poderia lecionar tenha mudando com o passar dos anos. Um dia cheguei à conclusão de que gostava imenso das ciências naturais, sobretudo da biologia e escolhi vir para a Madeira fazer os meus estudos. Sou um ratinho do campo e nunca quis estudar em universidades grandes, além disso tinha família a viver no Funchal. A biologia é também uma licenciatura em que o estudante ganha mais com o contexto em que se localiza a sua instituição, do que com as condições da mesma. Aqui, temos acesso a uma grande diversidade ambiental, do mar até à serra num espaço geográfico reduzido, com muitas oportunidades de aprendizagem ou de especialização. Até o professor poderia mesmo ensinar no campo, mostrando exemplos concretos dos conceitos e fenómenos que qualquer das ciências naturais estuda.

Contudo, enquanto me licenciei, não me foquei na biologia. Houve semestres inteiros que mal pus os pés nas minhas aulas. Mais depressa ia a aulas noutros, como medicina, literatura, história, artes, só pelo gozo de aprender diferentes coisas. Não menosprezando a importância dos currículos de cada licenciatura, penso que deveria haver maior espaço para aquele tipo de estudante mais humanista. Mas lá me licenciei e o resto do meu percurso foi bastante monótono, na verdade. Decidi que a biologia científica não era para mim, pois queria lecionar e procurei um mestrado que me permitisse fazê-lo. Estive um ano em Évora, cidade que tem tudo de excelente e maravilhoso, exceto o clima. Para os madeirenses de nascimento (eu só sou adotivo) tem outro grande problema, não há mar e o horizonte é plano e amarelo em qualquer direção. Depois de um ano, resolvi voltar para o Funchal e voltei à UMa para estudar. Fiz cadeiras de geologia, terminei o mestrado em ensino e pelo caminho recebi uma bolsa na área da educação.

Desde então, sou licenciado em biologia e professor formado, mas nunca exerci funções numa ou noutra área. Estive maioritariamente ligado à Académica da Madeira, envolvido em diversas iniciativas e atualmente sou responsável pela Secção de Projetos e Programas e de editor da Imprensa Académica e da Cadmus, as nossas chancelas editoriais.

A Sofia tem realizado vários trabalhos de ilustração com a Imprensa Académica e a Cadmus. O que há de especial ou de desafiador neste A NOSSA ASSEMBLEIA?

S.R.: Conseguir representar o que era pretendido com clareza, sendo que é um livro sobre um tema um pouco mais sério e delicado.

O Carlos Diogo tem já um conjunto considerável de obras editadas pela Imprensa Académica e pela Cadmus. O que mais o tem motivado na escrita?

Estes livros foram um trabalho de várias pessoas pelo que eu sou um dos seus autores. Todos eles são livros feitos a pensar em todas as idades. Têm como propósito ensinar algo de forma lúdica, especialmente questões da história e da cultura locais. Não sou escritor profissional, no sentido de que não vivo dos rendimentos que possam advir da escrita, pelo que cada obra nasceu de uma oportunidade de dar a conhecer ou de valorizar o objeto de cada livro – um local, uma personalidade ou até um aspeto na nossa cultura.

Escrever neste tipo de contexto é para mim nada mais do que encontrar uma forma de colocar algo importante que pode ser visto como complicado, aborrecido ou desinteressante, de uma forma agradável para que seja compreendido. Uma vez que faço a pesquisa, tenha tudo mastigado e digerido e a estrutura básica que me interessa para cada obra, começo a escrever um pré-texto. Essa massa escrita é como um registo do diálogo que tenho com uma criança imaginária. Depois, moldo-a ao texto que pretendo e organizo-o em páginas para que o ilustrador possa saber como, onde e o que deve ilustrar para que faça sentido.

No caso concreto do A NOSSA ASSEMBLEIA, ele faz parte de uma linha de atividade dinamizada pela Académica da Madeira há já vários anos, que é educar contribuir para uma maior literacia, capacidade crítica e cidadania ativa de crianças e jovens. Nós empregamos esta filosofia nos nossos campos de férias, nas visitas educativas, em palestras que fazemos em escolas, que são alguns dos exemplos do que fazemos para toda a comunidade jovem da Madeira, sem contar com as atividades que desenvolvemos para os estudantes da Universidade da Madeira. Não pensei, porém, que só porque fazia visitas à Assembleia Legislativa que foi fácil escrever sobre ela. Tal como a maioria dos cidadãos portugueses, também eu desconhecia em grande parte como funciona a Autonomia da Madeira, até porque, infelizmente, em Portugal continental, este nível de poder, o Regional, simplesmente não era falado na Escola, só o Local (Autarquias) e o Nacional.

Sofia, o trabalho de ilustração da Sofia parece ter uma preocupação inclusiva. A ilustração é também uma forma de afirmação de valores?

S.R.: Sim, acho que a inclusão é muito importante, sendo que é algo que incluo nos meus trabalhos de ilustração naturalmente.

A NOSSA ASSEMBLEIA cumpre quase uma função de manual para as aulas de Cidadania e Desenvolvimento. Carlos Diogo, apesar da existência do projeto Parlamento dos Jovens, acha que havia uma lacuna de informação neste campo?

C.D.P.: O Parlamento dos Jovens é uma iniciativa valiosa da Assembleia Legislativa, como o são as experiências que permitem conhecer outros tipos de instituições que asseguram a nossa soberania, seja ela ao nível nacional, regional ou local. São, dentro da sua lógica, como as atividades desenvolvidas pelos serviços educativos dos museus, por exemplo, que ajudam a cimentar o que é aprendido na sala de aula ou que é ensinado em casa. Mas que não se substitui ao valor da Escola ou do papel do encarregado de Educação.

Este livro é um recurso didático, sim, pensado para ser usado em contexto escolar. Mas também foi pensado para ser explorado pelo aprendente – a criança, o jovem, ou o adulto que o leia. E essa exploração pode ser feita individualmente ou com o encarregado de Educação ou com um amigo.

É uma obra que tem como propósito perceber melhor como é feita a legislação no nosso país, qual é o papel dos diferentes órgãos de soberania, qual é a relação política da Madeira com a República, o que é Democracia e, mais importante, porque devemos ser participativos na escolha dos nossos representantes.

O ideal é que a leitura do livro, dentro ou fora da Escola, possa ser conjugada com uma visita à Assembleia Legislativa, até porque o próprio edifício, a sua história e de que forma funcionam os diferentes órgãos da Assembleia, são assuntos tratados na obra.

O afastamento dos jovens da política parece ser uma realidade. Acha que o seu livro poderá contribuir para um novo olhar dos jovens sobre a importância e o funcionamento da nossa organização política?

C.D.P.: Pelo que sei, não há afastamento dos jovens da política, até porque no ano passado, houve estudantes a encerrar escolas em Portugal a exigir melhores e mais efetivas decisões políticas pró-ambientais. O problema é o afastamento dos jovens das formas tradicionais de cidadania ativa, como por exemplo, votar. Há preferência em usar as redes sociais para protestar ou vir para a rua participar em manifestações. Estas formas de atuação são válidas e chamam a atenção do público. Porém, não podemos esquecer que as regras da democracia no nosso país ainda não incluem legislação por aclamação, apenas por votação.

Imagine-se que um professor de Educação Física dá a escolher a uma turma entre basquetebol e futebol nas próximas aulas. Apesar da maior parte preferir o basquetebol, um grupo de colegas diz logo ao professor que quer futebol e o resto da turma deixa passar. Os estudantes que se calaram têm que ter consciência de que, a não manifestação da sua opinião é igual a concordar com a dos outros e que isso tem como consequência praticar algo de que se não gosta, em vez de algo de que se gosta. O mesmo acontece quando deixamos de ir votar. O voto de outra pessoa passa a valer pelo nosso voto também. É importante reclamar, exigir, partilhar ideias, mas é igualmente importante votar, para haver representação das ideias de todos. É essa consciência que pretendo incutir nos jovens que lerem este livro.

E, Sofia, que outros projetos tem em perspetiva ou que outros projetos gostaria de realizar?

S.R.: De momento não tenho nenhum projeto em concreto, mas espero continuar a ter novas oportunidades.

Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.

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