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Será o Funchal uma cidade para os jovens?

Será o Funchal uma cidade para os jovens?

O Peço a Palavra é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. A Presidente da Câmara Municipal do Funchal, Cristina Pedra, foi a convidada da emissão do PEÇO A PALAVRA.
Cristina Pedra, Presidente da Câmara do Funchal, foi entrevistada no PEÇO A PALAVRA a 20 de agosto de 2025.

A Presidente da Câmara Municipal do Funchal, Cristina Pedra, foi a convidada da emissão do Peço a Palavra de 20 de agosto na antena da TSF, para assinalar o dia da cidade do Funchal, celebrado a 21 de agosto. O painel abre espaço para uma conversa sobre o futuro das cidades e o papel das autarquias na resposta aos desafios dos mais jovens. O Funchal é hoje uma cidade universitária, turística e habitada por milhares de estudantes, residentes e visitantes que nela vivem, trabalham e estudam. Mas como garantir que esta cidade insular se torna cada vez mais inclusiva, sustentável e capaz de atrair e reter talento? Da habitação à mobilidade, passando pela cultura, pela juventude e pelos espaços públicos, neste programa debatemos com a Presidente da Câmara Municipal do Funchal, as políticas locais e as estratégias municipais para uma cidade mais próxima, mais verde e mais preparada para o futuro. Uma conversa conduzida por Ricardo Freitas Bonifácio e Martim Peixoto sobre proximidade, ambição e o papel das cidades no tempo que aí vem.

O Funchal acolhe cerca de 105 mil habitantes, dos quais pouco mais de 11 mil têm entre 15 e 24 anos, segundo os Censos de 2021. Este número representa uma presença jovem significativa, mas que tende a diminuir devido à taxa de saída de estudantes para o continente, pois mais de 60% dos jovens madeirenses matriculados no ensino superior frequentam instituições fora da Região, de acordo com dados do Serviço Regional de Estatística da Madeira. A cidade concentra quase metade da população da Madeira e continua a ser o principal centro urbano e académico do arquipélago. Quando comparado com as capitais de distrito do continente, o Funchal apresenta uma proporção de jovens inferior. Enquanto cidades como Coimbra ou Braga têm mais de 15% da sua população entre os 15 e os 24 anos, no Funchal esse grupo representa apenas cerca de 10,5%, segundo os Censos.

Ainda esta semana, foi noticiado pelo DIÁRIO que o novo ano letivo arrancará com menos 1301 estudantes matriculados nas escolas da Região, confirmando uma tendência de queda que se estima prolongar-se até, pelo menos, 2030-31. Este declínio demográfico representa um dos maiores desafios para as autarquias, que são chamadas a assumir um papel mais ativo na criação de condições que contrariem o envelhecimento da população. A resposta passa por políticas de apoio à natalidade, incentivos à fixação de jovens casais, investimentos na habitação acessível e na conciliação entre vida profissional e familiar, mas também por uma revalorização do espaço urbano como lugar atrativo para viver, estudar e trabalhar.

A dificuldade dos jovens em aceder a habitação no Funchal é um dos principais entraves à sua fixação na cidade. Embora o município tenha previsto um investimento de 33,7 milhões de euros em habitação para 2025, a resposta às necessidades específicas da juventude, sobretudo no que diz respeito ao arrendamento acessível ou ao apoio à compra da primeira casa, parece continuar insuficiente às necessidades. Segundo dados de julho de 2025, os estudantes e jovens trabalhadores enfrentam sérias dificuldades para permanecer na cidade. Este cenário agrava-se quando se considera o impacto da insularidade nos custos de vida e deslocação, tornando essencial que o investimento municipal em habitação contemple medidas eficazes de apoio à autonomia jovem.

Da ideia ao projeto: os desafios da construção e submissão

A construção, a organização e a metodologia foram aspectos trabalhados pelo formador Bruno António na oficina “Da ideia ao projeto. Metodologias e Ferramentas”. Segundo o formador, “a forma como apresentam e estruturam o seu projeto vai fazer diferença” para as associações.

Em 2025, a Câmara Municipal do Funchal anunciou um investimento global de 33,7 milhões de euros na área da habitação, no âmbito do programa nacional “1.º Direito”, com o objetivo de construir 180 fogos destinados a famílias em situação de vulnerabilidade, segundo revelou a vereadora Helena Leal ao DIÁRIO. A este montante somam-se mais 5,2 milhões de euros para reabilitação de infraestruturas habitacionais e 1,8 milhões para melhorias no interior dos imóveis. Em julho deste ano, foram entregues 33 novas habitações sociais na freguesia de São Martinho, num investimento de cerca de 4,2 milhões de euros.

O Funchal continua a enfrentar dificuldades no que toca à mobilidade urbana. O crescimento do número de veículos, aliado à pressão turística e à própria configuração em anfiteatro, torna cada vez mais difícil a circulação, também para os estudantes que dependem de transportes públicos ou de soluções informais para chegar à universidade. Em 2023, a autarquia registou mais de 45 mil viaturas a circular diariamente no centro da cidade, número que ilustra bem o peso do automóvel no quotidiano dos funchalenses e pode ser um desequilíbrio na oferta de mobilidade.

Em resposta, a Câmara refere que tem vindo a investir na requalificação de vias e na criação de melhores condições para peões e utilizadores de transportes públicos coletivos. Apesar de existirem avanços, os problemas de estacionamento, a segurança pedonal e a cobertura da rede de transportes continuam a representar desafios para a cidade, exigindo uma visão mais integrada para que o Funchal se torne, cada vez mais, uma cidade acessível para todos.

O município também enfrenta desafios no que toca à responsabilidade ambiental, desde a recolha e tratamento de resíduos até à criação de espaços verdes que acompanhem o crescimento urbano. A recolha seletiva de lixo, apesar de registar progressos, continua a depender de um esforço constante de sensibilização e de maior proximidade aos bairros, muitos deles com acessos difíceis ou com pouca cobertura de serviços regulares. A pressão urbanística e o impacto do turismo sobre o espaço público agravam estas exigências, obrigando a autarquia a encontrar soluções mais adaptadas à realidade de uma cidade construída em declive e com características únicas no contexto nacional.

Da Universidade para a Região

Gonçalo Nuno Martins escreve na edição do DIÁRIO sobre: “o futuro da Madeira está, entretanto, a ser desenhado hoje, nos laboratórios e nas salas de aula da nossa Universidade”.

Uma das áreas com maior margem de intervenção é na plantação de árvores nos arruamentos e na criação de zonas verdes junto das áreas habitacionais. Apesar da presença de espaços de referência, como o Jardim Municipal ou o Parque de Santa Catarina, há ruas que permanecem sem qualquer cobertura arbórea. A ausência de sombra, em especial nos meses mais quentes, pode afectar o conforto térmico dos peões e contribui para o aumento da temperatura urbana, uma realidade cada vez mais discutida nas cidades europeias. Havaerá medidas como plantar árvores nos passeios, requalificar taludes e integrar o verde no desenho urbano que podem ser essenciais para melhorar a qualidade de vida e reforçar a sustentabilidade da cidade. É nesta dimensão que o painel do Peço a Palavra acredita que o Funchal pode e deve assumir uma visão ainda mais ambiciosa.

A conversa com Cristina Pedra, no Peço a Palavra, permitiu traçar um retrato dos desafios que o Funchal enfrenta enquanto cidade que quer ser mais justa, sustentável e amiga dos jovens. O painel do programa destacou que “da habitação à mobilidade, passando pela ação ambiental, pelo apoio à vida universitária e pelo envolvimento cívico da juventude, ficou claro que há caminho feito, mas também trabalho que o próximo executivo deverá continuar ou criar”. Segundo o painel do programa, “numa cidade moldada pela memória e voltada para o futuro, entre a serra que a enquadra e o mar que a abre ao mundo, são as escolhas do quotidiano e as prioridades traçadas por quem governa que definem a forma como aqui se vive, se estuda, se trabalha e, sobretudo, se decide ficar”.

O Peço a Palavra é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 69. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast, nas principais plataformas do mercado. Na antena da rádio, o programa é repetido na quarta-feira seguinte.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Salvador Freitas.

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