Curso terminado: um sonho ou um pesadelo?

Mensalmente, a ACADÉMICA DA MADEIRA tem um espaço de opinião no 'JM Madeira'. Em agosto, Ricardo Freitas Bonifácio, um dos responsáveis pela pasta da cultura na ACADÉMICA DA MADEIRA e por outras atividades e programas de apoio aos estudantes da Universidade da Madeira, escreveu sobre a empregabilidade.

O grande objetivo de qualquer estudante, ao longo da sua carreira académica, passa por graduar-se pelo curso que escolheu ingressar. Além de completar o ciclo de estudos, aplicará os conhecimentos adquiridos ao longo dos seus três anos de licenciatura. Mas eis que aqui entra uma questão, que muitos tentam não pensar antes do momento: após a conclusão do curso, os estudantes têm as oportunidades que merecem?

Muitas vezes isso não acontece pelo facto de muitas empresas valorizarem mais a experiência do que a capacidade de inovação ou outras competências adquiridas fora do currículo formal, como é o caso das soft skills. Nem sempre são dadas oportunidades aos estudantes que acabaram de se graduar para poderem exercer o conhecimento adquirido ao longo do curso. Como é que um recém-graduado teve tempo para obter a experiência muitas vezes exigida no mercado de trabalho, quase de forma imediata? Não tem outra alternativa senão procurar outras ofertas de emprego, por vezes fora da área em que estudou e com um salário desadequado, o que acaba por ser um fator desmotivador.

O desafio da falta de experiência não é o único que o jovem tem de enfrentar. Infelizmente, muitos empregos nas áreas de estudo dos recém-licenciados têm como valor salarial apenas o mínimo exigido pela lei. Isso acaba por não ser atrativo e faz com que os nossos estudantes optem por outras experiências: emigrar para trabalhar na sua área em que as condições de trabalho são melhores, o método de trabalho é melhor, dão prioridade à inovação e a remuneração é muito mais aliciante. Como é que uma sociedade como a do nosso país pode combater com países que demonstram tão bons fatores?

Não surpreende que dados de 2021, do Eurostat, indicam que Portugal é o país da União Europeia (UE) em que os jovens saem mais tarde da casa dos pais, aos 33,6 anos, enquanto a média europeia situa-se nos 26,50 anos. A Suécia assiste ao comportamento contrário, com a saída dos filhos a ocorrer por volta dos 19 anos, pouco depois da entrada na Universidade.

A falta de capacidade financeira para ter uma vida autónoma em Portugal é um reflexo das dificuldades que qualquer jovem enfrenta no início da vida profissional, depois de superada a dificuldade de colocação num emprego da sua área de formação. Não se trata da falta de desejo dos licenciados em terem a sua própria casa, mas da incapacidade económica para manterem uma vida sem o apoio dos progenitores. O mercado imobiliário continua a ser o principal entrave para concretização da desejada autonomia.

A vida profissional parece mais um pesadelo do que um sonho, acrescendo o fato de Portugal ter uma baixa combinação de estudo e trabalho entre os jovens. Enquanto que nos Países Baixos quase 58% dos estudantes têm atividade profissional, sendo a média da União de 18,4%, em Portugal esse valor desce para 10%, de acordo com dados do gabinete de estatística da UE.

Parece, portanto, que o problema inicial da exigência de experiência profissional poderia ser mitigado pela combinação da atividade letiva com uma carreira profissional, mesmo que fora do escopo do curso. Continuamos a ser um país que não incentiva a atividade laboral durante os cursos, nem faculta ferramentas adequadas para essa conjugação permitindo o mérito académico que deve ser sempre protegido. No fim, o pesadelo de não arranjar emprego, o problema de residir em casa dos pais e não ter experiência profissional é fomentado por um sistema que deixa de lado o incentivo para que o jovem possa, desde cedo, ganhar recursos, experiência e autonomia. É necessário um sistema que corrija essas assimetrias que os estudantes enfrentam.

Ricardo Bonifácio
Diretor-adjunto do Departamento de Cultura
ACADÉMICA DA MADEIRA
Com fotografia de Scott Graham.

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