Entrar num dos cursos mais exigentes do país com apenas 15 anos seria suficiente para transformar qualquer estudante num caso mediático. Leonor Meira Lopes prefere que isso não aconteça. Às portas de iniciar Medicina na Universidade do Porto, a jovem afirma que não gosta de ser conhecida apenas por ter chegado tão cedo ao ensino superior. “Não sou a miúda de 15 anos que vai para a faculdade. É a única coisa que as pessoas veem”, refere em declarações ao PÚBLICO.
O percurso de Leonor começou a revelar características pouco comuns ainda na infância. Frequentou o mesmo colégio desde a creche até ao 12.º ano e concluiu o ensino secundário com média de 20 valores, ingressando em Medicina com 19,63. A família percebeu muito cedo que existia algo diferente no seu desenvolvimento e, após vários acompanhamentos médicos, foi identificada uma situação de sobredotação profunda. Ainda assim, os maiores desafios não surgiram no plano académico, mas na necessidade de encontrar um equilíbrio entre as capacidades cognitivas e o desenvolvimento emocional.
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Ao longo da escolaridade, o percurso foi sendo adaptado para evitar a desmotivação. Leonor frequentou disciplinas de anos mais avançados ainda no primeiro ciclo e acabou por transitar diretamente do 5.º para o 6.º ano. Apesar de lhe ter sido proposta uma nova aceleração, recusou. Explicou ao PÚBLICO que queria permanecer junto da turma onde se sentia integrada e evitar chegar à universidade ainda mais cedo. “Já vou com 15. Achei que era algo que conseguia controlar de outra forma”, afirmou.
A entrada na universidade é encarada com naturalidade, embora reconheça alguma ansiedade perante um ambiente completamente novo. Cresceu rodeada de colegas mais velhos e considera que essa diferença de idades nunca constituiu um obstáculo nas amizades. O que mais a preocupa é a adaptação a uma instituição desconhecida e às novas dinâmicas académicas, não o facto de partilhar salas de aula com estudantes adultos.
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Quanto ao futuro, Leonor evita alimentar expectativas extraordinárias. Quer estudar Medicina porque gosta de ajudar os outros e aprecia o desafio intelectual da profissão, mas não pensa, para já, em especialidades ou investigação. “Não tenho obrigatoriamente de ter um futuro brilhante, de descobrir a cura para o cancro. Quero viver a minha vida. Não tenho interesse em ser extraordinária”, declarou ao PÚBLICO, procurando recentrar a atenção na pessoa e não apenas no percurso académico.
A mãe partilha dessa visão e recorda que nem a idade nem o quociente de inteligência definem quem a filha é. Fora da escola, Leonor gosta de pintar, praticar equitação e voleibol, sair com as amigas e continua a viver com a família. Quando imagina a apresentação aos futuros colegas da Faculdade de Medicina, resume-a numa frase que espelha a forma como deseja ser vista: “Dizia tudo menos a minha idade.”
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Jesse Orrico.
