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Digitalizar os exames exige corrigir o processo

Digitalizar os exames exige corrigir o processo

Carlos Louro defende que os problemas registados este ano na classificação dos exames não devem travar a digitalização do sistema, mas antes servir para aperfeiçoar o modelo.

Os problemas que marcaram a classificação dos exames nacionais dominaram o debate público ao longo do verão, expondo fragilidades na implementação do novo modelo digital. Para Carlos Louro, contudo, este episódio não deve ser entendido como uma razão para abandonar a modernização do sistema. O autor considera que a digitalização continua a representar um caminho mais eficiente do que o modelo anterior, desde que sejam corrigidas as falhas que se tornaram evidentes durante este processo.

Na análise publicada pelo PÚBLICO, defende-se que a intenção do Ministério da Educação era compreensível, procurando tornar a classificação das provas mais organizada, mais planeada e mais eficiente através da tecnologia. O problema, escreve Carlos Louro, não esteve na opção pela digitalização, mas na forma como foi conduzida a transição. A precipitação, a deficiente comunicação entre estruturas intermédias e a sucessão de decisões pouco coordenadas acabaram por comprometer um projeto que, do ponto de vista técnico, poderia trazer vantagens ao sistema educativo.

O autor faz questão de distinguir a tecnologia da política educativa. Muitos dos professores classificadores reconhecem benefícios no novo modelo, considerando-o menos burocrático e mais consistente. Ainda assim, alerta que a digitalização constitui apenas um instrumento ao serviço da classificação e não um indicador da qualidade do ensino. Quando uma melhoria operacional foi apresentada como uma transformação estrutural do sistema, criou-se um conflito entre a lógica técnica e a realidade vivida por alunos, famílias e escolas, contribuindo para a perda de confiança no processo.

Ao longo do artigo são recordados vários episódios que alimentaram a polémica, desde os problemas identificados no projeto-piloto até às dificuldades de comunicação institucional, passando pelas imagens dos exames armazenados em Mem Martins e pelas sucessivas alterações de orientações dirigidas às escolas. Apesar disso, Carlos Louro sublinha que o trabalho desenvolvido nos estabelecimentos de ensino decorreu com profissionalismo, destacando o esforço dos professores classificadores que asseguraram o funcionamento do sistema, muitas vezes à custa das férias, dos fins de semana e do tempo pessoal.

Em vez de defender um regresso ao modelo anterior, o autor apresenta um conjunto de propostas para aperfeiçoar o processo. Entre elas, destaca a manutenção das provas físicas nos territórios, a melhoria do programa informático, a concentração da classificação num grupo mais especializado de professores, a remuneração deste trabalho e a revisão do sistema de reapreciação das provas. Na sua perspetiva, importa igualmente reforçar as garantias de equidade e proteger os direitos dos estudantes durante todo o processo de avaliação.

A reflexão termina com uma ideia de futuro. Carlos Louro entende que a tecnologia deve reforçar a confiança no sistema educativo e nunca colocá-la em causa. Os problemas verificados este ano revelam que a inovação exige preparação, capacidade de adaptação e uma liderança eficaz. Se essas condições forem asseguradas, considera que será possível transformar uma das maiores crises recentes dos exames nacionais numa oportunidade para construir um modelo mais sólido, mais transparente e mais justo.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Bethany Legg.

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