No passado, o PEÇO A PALAVRA tratou do tema da excelência académica. Entrar no ensino superior com média de 20 valores continua a ser um feito reservado a muito poucos estudantes. Entre os quase 50 mil candidatos colocados na primeira fase do concurso nacional de acesso deste ano, menos de uma dezena alcançou a classificação máxima. Embora os percursos sejam distintos, há traços que se repetem nas histórias daqueles que chegaram ao topo.
Longe da imagem do estudante que passa os dias fechado a estudar, os testemunhos revelam uma realidade diferente. Há tempo para praticar desporto, tocar um instrumento, conviver com amigos e manter uma vida familiar ativa. O equilíbrio entre o estudo e o tempo pessoal surge como uma constante, acompanhado por uma boa gestão do tempo e pela capacidade de definir prioridades sem recorrer, na maioria dos casos, a métodos de estudo excessivos.
Será cedo demais?
“Porque a universidade não é apenas um destino académico. É um espaço onde se cresce, se falha, se aprende, se criam amizades para a vida, se descobrem talentos e se ganha autonomia”, escreve Miguel Barata.
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Constança Lobo, colocada em Engenharia e Gestão Industrial na Universidade do Porto, resume essa ideia ao afirmar que “eu não estudava todos os dias, eu gostava de estudar”. Na reportagem publicada pelo PÚBLICO, a estudante explica que nunca precisou de explicações e atribui grande parte do seu percurso ao prazer que sempre encontrou na aprendizagem, à autonomia desenvolvida desde cedo e aos “professores excelentes” que a acompanharam. Também destaca o ambiente familiar, lembrando que nunca sentiu pressão para atingir determinadas classificações.
A mesma reportagem acompanha André Cavaleiro, que ingressou em Engenharia Aeroespacial, e Bárbara Vaz Fernandes, colocada em Arquitetura na Universidade do Minho. Apesar de seguirem áreas muito diferentes, ambos identificam fatores semelhantes para explicar o sucesso. André fala em “disciplina, trabalho e espírito de sacrifício”, sem abdicar completamente do desporto, enquanto Bárbara destaca o apoio constante dos pais e dos professores, admitindo que algumas renúncias, como deixar o ballet, foram necessárias para cumprir os objetivos que definiu.
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As histórias reunidas mostram ainda que não existe um único perfil de excelência académica. Entre os estudantes com médias superiores a 19,5 valores encontram-se candidatos às engenharias, à medicina, à arquitetura, ao direito, às línguas ou à história. O talento académico distribui-se por áreas muito diferentes, contrariando a ideia de que os melhores resultados pertencem exclusivamente às ciências ou à saúde.
Mais do que fórmulas infalíveis, a reportagem deixa uma conclusão clara. O sucesso escolar constrói-se ao longo de vários anos e resulta de um conjunto de fatores que se reforçam mutuamente: gosto pelo conhecimento, organização, apoio familiar, qualidade dos professores e capacidade para manter um equilíbrio saudável entre a escola e a vida pessoal. Para estes estudantes, chegar ao ensino superior com média de 20 não foi o resultado de um esforço concentrado nos últimos meses, mas a consequência de um percurso consistente e sustentado.
Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Wander Fleur.
