O crescimento sustentado do número de estudantes no ensino superior ao longo das últimas duas décadas não foi acompanhado por um reforço proporcional do corpo docente, criando um desequilíbrio estrutural que começa agora a impor limites claros à expansão do sistema. Um novo observatório dedicado ao ensino superior privado conclui que a capacidade de crescimento está “fortemente limitada” pela falta de professores, um problema que se torna mais agudo nas instituições privadas, noticiou o PÚBLICO.
Os dados analisados mostram que, em apenas dez anos, o sistema de ensino superior acolheu mais 106 mil estudantes, mas o número de docentes não acompanhou esse ritmo, sobretudo no setor privado. Enquanto nas instituições públicas o aumento de professores foi, em termos globais, suficiente para acompanhar o crescimento do número de alunos, no privado o desfasamento é evidente, com um aumento muito mais rápido das inscrições do que da contratação de docentes, gerando uma pressão crescente sobre os recursos existentes.
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De acordo com declarações recolhidas pelo PÚBLICO, a ausência de profissionais qualificados é particularmente crítica em áreas consideradas estratégicas para o país, como a formação de professores, a informática, a robótica, o multimédia e outras áreas tecnológicas emergentes. A dificuldade em encontrar doutorados especializados, tanto para o ensino público como para o privado, está a condicionar a abertura de novos cursos e a resposta às necessidades do sistema educativo e do mercado de trabalho.
Outro fator identificado prende-se com a preferência de muitos docentes por uma carreira no ensino superior público, onde existe um estatuto de carreira definido, maior previsibilidade e garantias de progressão profissional. No setor privado, a ausência prolongada de um estatuto de carreira docente tem dificultado a atração e retenção de profissionais, situação agravada pela concorrência recente do setor público, impulsionada por concursos associados a programas de investimento.
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O retrato do corpo docente revela ainda um envelhecimento acentuado, com quase metade dos professores do ensino superior a ultrapassar os 50 anos. Apesar de alguns sinais de abrandamento desta tendência, os dados indicam que a renovação geracional está longe de estar assegurada, sobretudo no ensino universitário privado, onde a idade média dos docentes é superior à média nacional.
Ainda assim, o PÚBLICO sublinha que há mudanças relevantes ao nível das qualificações: pela primeira vez, o ensino superior privado passou a ter, em termos percentuais, mais docentes doutorados do que o setor público. Este dado reflete um esforço de qualificação, mas não anula o problema central identificado pelo observatório: sem um reforço estrutural e políticas consistentes de valorização da carreira docente, a capacidade de crescimento e a qualidade do ensino superior continuarão seriamente comprometidas.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Yanhao Fang.