O artigo de opinião de Alberto Amaral, publicado no PÚBLICO, parte de uma preocupação central: a qualidade do ensino superior depende diretamente da qualidade da investigação desenvolvida pelos seus docentes, uma exigência que está claramente inscrita no Estatuto da Carreira Docente Universitária. Para o autor, investigar não é um complemento opcional da atividade académica, mas uma condição essencial para garantir a atualização científica, pedagógica e intelectual das universidades portuguesas.
Neste contexto, Amaral critica aquilo que identifica como uma adesão governamental ao chamado “capitalismo académico”, uma lógica que aproxima a produção científica da maximização económica e da competição de mercado. Embora reconheça que a colaboração com a indústria possa gerar benefícios pontuais, o autor sublinha que esta orientação tende a desvalorizar a investigação fundamental e a ciência guiada pela curiosidade, favorecendo projetos com retorno económico imediato em detrimento do conhecimento de longo prazo.
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O texto chama ainda a atenção para as consequências desta mudança de paradigma, nomeadamente o aprofundamento das desigualdades dentro da academia. Áreas mais afastadas do mercado, como as humanidades e as artes liberais, correm o risco de ser marginalizadas, enquanto a autonomia científica das universidades fica condicionada pela necessidade de provar relevância económica. Amaral lembra que organizações internacionais como a OCDE e o Conselho Europeu de Investigação defendem precisamente o contrário: uma aposta clara na ciência aberta e na investigação fundamental de excelência.
O autor aponta críticas diretas à reorganização recente do sistema científico nacional, argumentando que faltou uma análise séria de impacto e um verdadeiro diálogo com a comunidade académica. Apesar dos anúncios sobre reforço orçamental, Amaral questiona a coerência das opções políticas e deixa em aberto dúvidas fundamentais sobre a governação, a autonomia e o futuro da investigação em Portugal, num texto que funciona como um alerta claro para os riscos de decisões tomadas sem visão estratégica.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de NCI.
