A investigadora e professora universitária Sandra Morais Cardoso defende, num artigo de opinião publicado no P3, que o debate sobre o ensino superior em Portugal tem sido sistematicamente desviado do essencial. Como escreve, “em Portugal discute-se exaustivamente o ensino superior, os indicadores, os relatórios, os rankings e o financiamento”, mas, sublinha, “discute-se tudo, excepto o essencial: o que deve ser um professor universitário”. Para a autora, esta omissão ajuda a explicar a crise estrutural que atravessa a carreira académica.
No texto, Sandra Morais Cardoso traça um retrato severo da transformação do professor universitário num agente sobretudo administrativo. A investigadora diz que há muitos professores que se comportam “sobretudo como funcionários da burocracia, produtores de relatórios em série”, afastando-se da missão central da universidade. Esta realidade tem impacto direto na qualidade do ensino e da investigação, uma vez que “ensinar sem investigar é repetir; e repetir não é ensino superior, é estagnação”.
João Sàágua defende fusão da FCT e ANI como passo necessário
João Sàágua defendeu no PÚBLICO que a fusão da FCT com a ANI representa uma oportunidade para reforçar a eficácia e articulação do sistema científico nacional, recusando visões pessimistas sobre a reforma.
Combater a precaridade na ciência
A Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Elvira Fortunato, destacou as novas medidas tomadas pelo Governo para «combater a precariedade
A autora sustenta que a separação entre docência e investigação é um erro conceptual profundo, com consequências duradouras para o sistema científico nacional. É perentória ao afirmar que “ou o académico é investigador, ou não é académico”, defendendo que a universidade deve assumir claramente que a produção de conhecimento é o seu eixo estruturante. A manutenção de modelos híbridos e ambíguos apenas contribui, no seu entender, para a perda de relevância académica e internacional.
Para além da crítica à carreira docente, Sandra Morais Cardoso chama ainda a atenção para a inexistência, em Portugal, de uma carreira estável de investigadores técnicos. Alerta que esta lacuna impede a consolidação do conhecimento científico e desperdiça investimento público, uma vez que “produz talento, mas não o retém”. A inexistência de uma carreira própria de scientific staff, ao contrário do que sucede em muitos sistemas universitários europeus e norte-americanos, é um problema para o sistema universitário de ciência e tecnologia. Nos sistemas de outras nações, estas carreiras asseguram a continuidade dos laboratórios, a transmissão de conhecimento técnico e o apoio qualificado à investigação. Em Portugal estas funções são frequentemente desempenhadas de forma precária ou informal, por estudantes de doutoramento ou bolseiros. Esta ausência fragiliza os projetos científicos, promove a rotatividade forçada de profissionais altamente qualificados e compromete a eficiência do investimento público em ciência, ao impedir a consolidação de equipas e de competências especializadas a médio e longo prazo.
Dívida da FCT a instituições de ensino superior e investigação está próximo dos 99 milhões de euros
O Ministério da Educação, Ciência e Inovação revelou que a dívida da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) a instituições de ensino superior e investigação científica totaliza 98,7 milhões de euros, destacando um cenário preocupante de atrasos significativos nos pagamentos.
FCT lança novas funcionalidades para simplificar gestão de bolsas de doutoramento
A FCT lançou novas funcionalidades no sistema MyFCT, simplificando a gestão digital das bolsas de doutoramento no âmbito do PRR.
Segundo a autora, a reforma necessária “não se faz com cosmética terminológica”, defendendo uma mudança profunda que devolva a universidade à sua missão fundadora. É necessário criar conhecimento e formar a partir dele, defende Sandra Morais Cardoso.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Roel Dierckens.
