A investigadora e professora universitária Sandra Morais Cardoso defende, num artigo de opinião publicado no P3, que o debate sobre o ensino superior em Portugal tem sido sistematicamente desviado do essencial. Como escreve, “em Portugal discute-se exaustivamente o ensino superior, os indicadores, os relatórios, os rankings e o financiamento”, mas, sublinha, “discute-se tudo, excepto o essencial: o que deve ser um professor universitário”. Para a autora, esta omissão ajuda a explicar a crise estrutural que atravessa a carreira académica.
No texto, Sandra Morais Cardoso traça um retrato severo da transformação do professor universitário num agente sobretudo administrativo. A investigadora diz que há muitos professores que se comportam “sobretudo como funcionários da burocracia, produtores de relatórios em série”, afastando-se da missão central da universidade. Esta realidade tem impacto direto na qualidade do ensino e da investigação, uma vez que “ensinar sem investigar é repetir; e repetir não é ensino superior, é estagnação”.
Revistas e Comunicação Científica para a Ciência Aberta decorre em março no Porto
O 2.º Encontro PUB IN, dedicado à ciência aberta e comunicação científica, realiza-se a 26 e 27 de março de 2025, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto.
Doutorados em Portugal em alta
O crescimento dos doutoramentos em Portugal enfrenta desafios de eficiência formativa, financiamento inadequado e integração no mercado de trabalho, exigindo mudanças
A autora sustenta que a separação entre docência e investigação é um erro conceptual profundo, com consequências duradouras para o sistema científico nacional. É perentória ao afirmar que “ou o académico é investigador, ou não é académico”, defendendo que a universidade deve assumir claramente que a produção de conhecimento é o seu eixo estruturante. A manutenção de modelos híbridos e ambíguos apenas contribui, no seu entender, para a perda de relevância académica e internacional.
Para além da crítica à carreira docente, Sandra Morais Cardoso chama ainda a atenção para a inexistência, em Portugal, de uma carreira estável de investigadores técnicos. Alerta que esta lacuna impede a consolidação do conhecimento científico e desperdiça investimento público, uma vez que “produz talento, mas não o retém”. A inexistência de uma carreira própria de scientific staff, ao contrário do que sucede em muitos sistemas universitários europeus e norte-americanos, é um problema para o sistema universitário de ciência e tecnologia. Nos sistemas de outras nações, estas carreiras asseguram a continuidade dos laboratórios, a transmissão de conhecimento técnico e o apoio qualificado à investigação. Em Portugal estas funções são frequentemente desempenhadas de forma precária ou informal, por estudantes de doutoramento ou bolseiros. Esta ausência fragiliza os projetos científicos, promove a rotatividade forçada de profissionais altamente qualificados e compromete a eficiência do investimento público em ciência, ao impedir a consolidação de equipas e de competências especializadas a médio e longo prazo.
FCT anuncia data para resultados do concurso de emprego científico
Os resultados do novo concurso de estímulo ao emprego científico da FCT serão divulgados em setembro de 2025, num contexto de incerteza sobre o financiamento e a estabilidade da investigação em Portugal.
Novo Estatuto da Carreira Científica aprovado no Parlamento
O Parlamento aprovou na generalidade a revisão do estatuto da carreira científica, após 25 anos sem atualizações, visando combater a precariedade,
Segundo a autora, a reforma necessária “não se faz com cosmética terminológica”, defendendo uma mudança profunda que devolva a universidade à sua missão fundadora. É necessário criar conhecimento e formar a partir dele, defende Sandra Morais Cardoso.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Roel Dierckens.


