A poluição luminosa passou a ser reconhecida como uma problemática ambiental desde os anos 70. Trata-se de uma ameaça global em rápido crescimento, resultante do uso excessivo ou inadequado da iluminação artificial. No contexto de iluminação exterior, distinguem-se quatro tipos principais da manifestação da poluição luminosa: o brilho difuso (skyglow), causado pela reflexão e dispersão da luz artificial durante o período noturno, dificultando a observação das estrelas; a luz intrusiva (light trespass), que invade espaços onde não é desejada, como residências ou áreas naturais; o encandeamento (glare), resultante de luzes intensas que provocam desconforto visual; e a luz desordenada (light clutter), associada à presença excessiva de luminárias em locais onde a sua intensidade ou número excede largamente as necessidades efetivas.
Mais do que uma questão de visibilidade, a poluição luminosa tem impactos reais e abrangentes sobre o ambiente e a saúde. Os seus efeitos vão desde a alteração do comportamento dos animais e o desequilíbrio dos ecossistemas até à dificuldade em observar o céu estrelado, ao desperdício de energia com impactos económicos e ambientais e, ainda, ao comprometimento da saúde humana.
Atualmente, sabe-se que os efeitos da poluição luminosa na saúde humana ultrapassam apenas as perturbações do sono, levando potencialmente a doenças graves, como a obesidade, os transtornos mentais, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e vários tipos de cancro. Há evidência crescente de que a luz artificial durante a noite interfere na produção de melatonina, hormona responsável não só pela regulação do ritmo biológico, mas também pelo fortalecimento do sistema imunitário e proteção antioxidante, o que poderá estar na origem de várias condições clínicas observadas em seres humanos e noutras espécies. Afinal de contas, dormir bem é mais do que um conforto, é uma necessidade biológica. O nosso corpo segue um ritmo natural, o ciclo circadiano, que depende da alternância entre luz e escuridão. A exposição excessiva à luz artificial durante a noite desequilibra esse ritmo, afetando a produção de melatonina e, a longo prazo, prejudicando a nossa saúde.
Oportunidades de voluntariado e estágios na conservação de aves marinhas
A SPEA Madeira está a divulgar oportunidades de voluntariado e estágios para estudantes de Biologia, com foco na conservação de aves marinhas e projetos de investigação científica.
O papel dos jovens na mudança das alterações climáticas
Qual é o papel dos jovens na discussão sobre as alterações climáticas? Como em tudo não somos todos iguais nem pensamos
Para além dos seus efeitos na saúde humana, a poluição luminosa acarreta também um peso económico substancial. Uma grande parte da energia destinada à iluminação pública é desperdiçada devido a sistemas de iluminação mal concebidos. Este desperdício representa cerca de 50% da energia utilizada na iluminação pública e custa à União Europeia aproximadamente 5,2 mil milhões de euros por ano, o equivalente a 10 euros por cidadão. No contexto da Macaronésia, este valor poderá atingir os 30 euros por pessoa, totalizando um encargo anual de cerca de 36 milhões de euros investidos em iluminação mal direcionada. Um dos fatores sociais que mais contribui para este uso excessivo é a ideia generalizada de que mais luz se traduz em maior segurança durante o período noturno. Contudo, alguns estudos já demonstraram que luzes intensas e mal direcionadas podem, paradoxalmente, criar condições mais favoráveis à ocorrência de crimes, em vez de os prevenir.
A poluição luminosa também traz consigo outras consequências mais subtis, mas não menos importantes. Uma delas sendo a impossibilidade de observar o céu estrelado, um património natural e cultural da humanidade. Ao iluminarmos o céu noturno, privamo-nos não só do espetáculo visual milenar que acompanhou a história da nossa espécie, mas também de uma fonte de inspiração artística, científica e espiritual que moldou a nossa cultura ao longo dos séculos passados. Simultaneamente, o excesso de luz artificial impacta profundamente os ecossistemas, alterando comportamentos, ciclos reprodutivos e padrões migratórios de inúmeras espécies. Aves são desorientadas durante os seus voos noturnos, tartarugas e outros animais confundem rotas vitais, e insetos noturnos, como as borboletas noturnas, tornam-se presas fáceis ou deixam de cumprir o seu papel ecológico. Estes desequilíbrios, ainda que muitas vezes invisíveis ao nosso quotidiano, repercutem inevitavelmente sobre o ser humano, comprometendo serviços ecológicos essenciais, a biodiversidade que sustenta a nossa sobrevivência e a herança cultural que o céu noturno representa.
Evento Desertas… 25 Anos
Diário de um participante “Dia 7 de Setembro de 2013, 08h:00m Logo pela manhã, e já a bordo, estávamos ansiosos sobre como iria correr o dia… Tudo tinha sido organizado
Turismo sustentável na Madeira
O STARS Sustainable Tourism Agents in Rural Societies é um projeto desenvolvido no âmbito do programa de voluntariado da Comissão Europeia
Apesar da dimensão global desta problemática, existem ações simples e eficazes que cada um de nós pode adotar para minimizar a poluição luminosa. Reduzir o número de luzes exteriores ou substituí-las por modelos com temperatura de cor mais quente, evitando a emissão excessiva da luz azul típica de muitos LEDs, é um excelente primeiro passo. Sempre que possível, prefira luzes com sensores de movimento, garantindo assim uma poupança energética acrescida. Para além destas alterações individuais, a mudança pode também passar pela sua participação cívica: demonstre que se importa com esta temática, sensibilizando familiares e amigos e participando em projetos de ciência cidadã que contribuam para o aumento do conhecimento científico sobre a prevalência e efeitos da poluição luminosa, transformando-o a si num agente ativo. Se estiver interessado em salvar aves marinhas, vítimas de encandeamento, contamos consigo durante as patrulhas noturnas coordenadas pela SPEA, no âmbito da Campanha Salve uma Ave Marinha, na Madeira, durante os meses de outubro e novembro.
Sabia que existem iniciativas dedicadas a proteger a biodiversidade dos efeitos da luz artificial? O projeto LIFE Natura@night, coordenado pela SPEA e cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia, atua nos arquipélagos da Madeira, dos Açores e das Canárias com o objetivo de adaptar os sistemas de iluminação pública em áreas da Rede Natura 2000. Ao reduzir a poluição luminosa, o projeto procura mitigar os impactos negativos sobre os ecossistemas noturnos. Para mais informações, consulte o portal do projeto.
Laura Sousa
SPEA
Com fotografia de Landon Martin.