O acesso ao ensino superior em Portugal continua profundamente condicionado pelo local onde os estudantes vivem e pelo tipo de percurso realizado no ensino secundário. Um estudo recente traça um retrato claro da mobilidade estudantil no país e mostra que, para muitos jovens, sobretudo os que vivem no interior, estudar longe de casa não é uma opção, mas uma imposição com custos económicos e sociais elevados, segundo avançou o PÚBLICO.
A análise revela uma forte concentração de estudantes no litoral, em particular em Lisboa, Porto e Coimbra, municípios que absorvem a maioria dos alunos que ingressam no ensino superior. Em contraste, os jovens oriundos do interior enfrentam aquilo que os investigadores descrevem como uma “mobilidade praticamente inevitável”, sendo obrigados a deslocar-se para outros concelhos ou a mudar de residência, com despesas adicionais em transporte e alojamento.
Ensino superior condicionado pela geografia e pelo rendimento
Um estudo recente confirma que as condições económicas das famílias e o local de residência continuam a pesar de forma decisiva nas escolhas e percursos dos estudantes do ensino superior em Portugal.
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O percurso no ensino secundário surge também como um fator determinante. Os dados indicam que os estudantes provenientes de cursos científico-humanísticos têm taxas de entrada no ensino superior muito superiores às dos cursos profissionais. Ainda que a participação destes últimos tenha crescido de forma significativa na última década, continuam a existir desigualdades marcadas, com escolhas mais limitadas e maior tendência para frequentar ofertas de proximidade, como cursos técnicos superiores profissionais.
O estudo mostra igualmente que a condição socioeconómica das famílias influencia diretamente a disponibilidade para a mobilidade. Municípios com maior proporção de alunos apoiados por ação social no secundário apresentam fluxos mais reduzidos de deslocação, evidenciando que a falta de recursos continua a restringir escolhas. Em sentido inverso, contextos mais favorecidos permitem maior liberdade na seleção de instituições e cursos, reforçando desigualdades já existentes.
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No âmbito da iniciativa Governo + Próximo foi assinado o acordo para cedência do edifício do antigo Clube de Sargentos da Guarnição Militar de Évora para futura residência estudantil da Universidade de Évora (UÉ), com verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e ao abrigo do Plano Nacional de Alojamento no Ensino Superior (PNAES).
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Outro dado relevante é o impacto destas dinâmicas no abandono escolar. Os investigadores sublinham que os estudantes colocados na sua primeira opção de curso tendem a abandonar menos, mas alertam que mais de 40% dos alunos não ingressam na opção desejada. Esta realidade afeta de forma particular quem vê as suas escolhas condicionadas pela distância, pelo custo de vida e pela ausência de apoios adequados.
Perante este cenário, o estudo aponta para a necessidade de políticas públicas que reduzam a chamada “mobilidade forçada”, através do reforço de bolsas de deslocação e residência, da adaptação dos mecanismos de ação social ao custo real de vida e do fortalecimento das instituições do interior. A distribuição das oportunidades educativas, concluem os autores citados pelo PÚBLICO, continua longe de ser neutra e permanece fortemente dependente da geografia e do ponto de partida de cada estudante.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Mediocre Studio.
