A Praxe já não é o que era?

A Praxe já não é o que era?

Há um saudosismo que pode atingir quem passou pela Praxe. A Universidade da Madeira, ao contrário de outras instituições, apenas atravessou cinco décadas desde a sua fundação, no final do anos 80 do século passado. Esta juventude, que desvanece, também pode ajudar a fixar tradições que, mesmo assim, não são estanques. Em 2023, estarão os estudantes a perpetuar as tradições que foram plantadas na fundação da Academia madeirense? Como era a praxe nos primórdios da Instituição? A ET AL. conversou com dois antigos estudantes, figuras emblemáticas da nossa História.
Caloiros no Colégio dos Jesuítas do Funchal, nos anos 1990.

Depois da tragédia do Meco, na madrugada de 15 de dezembro de 2013, a comunidade civil esteve especialmente atenta às atividades de praxe, que se foram tentando adaptar a um novo ciclo. A “praxe solidária”, que envolve ações de solidariedade no quadro das tradições académicas, tentou ser um braço de apoio aos praxistas, mas acabou desvanecendo, sem a força que possuía em outros anos.

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Recentemente, numa escola, surgiu uma dúvida linguística no grupo de docentes de Português. Em conjunto, os professores decidiram colocá-la numa plataforma de internet que pretende resolver questões linguísticas e gramaticais.

Em 2006, alguns anos antes do episódio imortalizado na série “Praxx” da SIC, a praxe da Universidade da Madeira (UMa) enfrentava um duro golpe com um escândalo que ganhou proporções inéditas. Um “rally das tascas”, reunindo dezenas de estudantes nas ruas do Funchal, envolveu episódios de violência e as autoridades policiais intervieram, na Baixa da cidade, em plena luz do dia. O mediatismo gerado, incluindo a abertura do telejornal, acabou gerando uma grande cicatriz, escondida na atualidade, mas que fazia muitos estudantes terem vergonha de utilizar o traje académico, erradamente associado apenas à praxe.

Após a sua criação, em 1991, a ACADÉMICA DA MADEIRA estabeleceu um traje académico na Universidade da Madeira, para todos os estudantes, quer participem da praxe ou não, e organizou os primeiros anos de praxe. Em 2023, muito mudou na praxe académica da UMa e o traje académico ultrapassou a praxe. Há quatro trajes que integram a praxe académica e há uma estrutura informal que se dedica à preservação dos usos e costumes, organizada por estudantes e alumni. A praxe tenta sarar, atualmente, as feridas deixadas pela pandemia e pela implementação de um sistema remoto de matrículas, um golpe que atingiu essa tradição e sem solução à vista.

Os caloiros podem não ser tão numerosos como foram no passado, anterior à pandemia, mas a energia e a alegria dos que participam nas atividades continua a mesma. João Tiago Camacho, estudante da UMa, acredita que a publicidade sobre praxe poderia ser uma alternativa para aumentar a pouca adesão. Estima-se que, de cerca de seis centenas de estudantes matriculados no primeiro ano das licenciaturas, são menos de duzentos os que participam nas atividades de praxe. Não há dados nacionais, ou locais, conhecidos que permitam comparações entre outras realidades ou com outros períodos.

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A pressão sobre a praxe continua do exterior. Elvira Fortunato, que tutela o Ensino Superior, repudiou a praxe e defendeu “alternativas de integração mais positivas” para promoção de um “ambiente inclusivo, inspirador e seguro” nas instituições de ensino, tal como os seus antecessores fizeram em comunicações análogas na década passada.

Hélder Maurício trabalha na UMa e foi estudante nos anos 90. Viveu a praxe e participou ativamente depois do seu ano de caloiro, chegando a ser Dux, a designação que era usada ao Presidente do Conselho de Veteranos. A praxe, decorria no Colégio dos Jesuítas do Funchal, quando não existia um campus universitário na Penteada.

É com “enorme saudade” que Hélder Maurício olha para os seus tempos de praxista. Tratava-se de “uma outra época, tudo era novidade e sentíamo-nos bem ao participar nas atividades. Em algumas atividades tentávamos uma envolvência da sociedade, de modo a marcarmos a nossa presença na cidade”.

Branca de Almeida, que foi caloira do curso de Engenharia de Sistemas e Computadores, no ano letivo 1994-1995, também recorda com saudade os seus tempos de estudante. As tradições, desse período, encontram alguns pontos comuns com a atualidade, como a existência de uma insígnia, ainda que única: “os Caloiros eram obrigados a usar sempre a insígnia, que era igual para todos os cursos e era uma chucha, pois éramos os bebés da nossa academia”.

Branca Almeida e Hélder Maurício foram entrevistados pela ET AL. que publicará, amanhã, a entrevista na íntegra.

As tradições de 2023 são, certamente, muito diferentes das tradições que começaram a ser implementadas e testadas nos anos 90, quando os nossos entrevistados eram estudantes da UMa. Os antigos estudantes são meros observadores, mas poderão desempenhar um papel no registo das tradições, tal como os atuais devem ter essa preocupação.

As próprios estruturas que organizam a praxe podem fazer uso dos vários estudos que existem, especialmente profusos nos últimos anos, sobre o tema. Catarina Sales Oliveira, Susana Villas-Boas e Soledad Las Heras, publicaram “Assédio no ritual da praxe académica numa universidade pública portuguesa”, no n.º 80 da revista Sociologia, Problemas e Práticas. A investigadora Maria Mendes, do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, defendeu, em 2018, a dissertação de mestrado Praxe académica no ensino superior: preditores da motivação de estudantes para praxar. Após o 10.º Congresso Português de Sociologia, cinco investigadores publicaram o artigo “Um olhar sociológico sobre a praxe académica”. Em 2019, a Análise Social, recebeu o contributo de cinco investigadores com o artigo “Antiguidade e poder simbólico na praxe académica”. Apenas alguns estudos, entre muitos, que retratam a variedade que existe sobre a praxe académica.

Curso terminado: um sonho ou um pesadelo?

Mensalmente, a ACADÉMICA DA MADEIRA tem um espaço de opinião no ‘JM Madeira’. Em agosto, Ricardo Freitas Bonifácio, um dos responsáveis pela pasta da cultura na ACADÉMICA DA MADEIRA e por outras atividades e programas de apoio aos estudantes da Universidade da Madeira, escreveu sobre a empregabilidade.

Em 2023, estarão os estudantes a perpetuar as tradições que foram plantadas na fundação da Academia madeirense? Em setembro e outubro muitos que passaram pelo campus construído na Penteada, no final do século passado, puderam assistir, com revolta, paixão ou indiferença, os rituais que os atuais estudantes continuam a praticar. Algumas tradições continuam intactas e outras perderam-se. Mas tal como em 1991, quem participa na praxe em 2023 continua a garantir que partilha um sentimento de alegria difícil de medir.

Luís Eduardo Nicolau
ET AL.
Com fotografia do arquivo da ACADÉMICA DA MADEIRA.
As declarações de Hélder Maurício e de Branca de Almeida foram recolhidas em outubro de 2022.