Projecto de Bolonha na UMa

1. Demografia

Pelas minhas contas deve haver cerca de 3000 nascimentos por ano se 50% chegarem ao superior, teríamos 1500 novos alunos por ano.

É uma ilha. Merece algum planeamento cuidadoso das necessidades locais para algumas áreas. Estou a pensar nos docentes do básico e secundário, enfermeiros, etc. Um nível de formação, incluindo o vocacional que deverá ser local e portanto a exigir planeamento. Numa população grande esse planeamento tem de ser moderado; numa população muito pequena como a da ilha não se pode correr o risco de grandes desequilíbrios. Falo nisto porque não vi referência a estudos nesta área. Devem existir.

Lendo o documento, a meio, parecia-me que se esquecera do politécnico e perguntava-me que percentagem dos 1500 por ano deveriam ir para U. e para P. Depois vi que, sabiamente, o faziam depois com o “modelo profissionalizante”. Mas os números parecem-me optimistas: 120 Prof. vs. 360 Educ. liberal. A realidade é que é precisa mais gente nas formações desta área.

2. Liberal Arts

Quando comecei a ler a sua proposta tive dúvidas sobre a sustentabilidade deste modelo na UMa em concorrência com o modelo tradicional nas outras Universidades. Depois pensei que a insularidade poderia permitir esta experiência sem grandes riscos. Se o conseguirem seria uma grande contribuição para a modernização do nosso ES (…) Pareceu-me ver uma estratégia para juntar os méritos deste modelo às necessidades de introduzir racionalidade numa instituição que se manterá pequena mas oferecendo saídas diversificadas. Excelente estratégia. Espero que consiga seguidores e que tenha êxito.

3. Mobilidade

Pareceu-me que o problema da mobilidade não estava devidamente tratado. Creio que a mobilidade dos estudantes é crucial para o futuro socio-económico da Madeira. Imagino que a Madeira deva perder (p. ex.) 20% dos seus jovens para outras universidades e deve recuperar estes 20% de alunos de outras partes, do continente primariamente. Precisa de uma estratégia para este fim. Depois, os 80% de madeirenses que lá estudam devem poder fazer um Erasmus noutra universidade, no continente na maioria (o verdadeiro Erasmus atinge 10% dos licenciados actualmente). E deve tentar atrair estudantes das Universidades do continente. (…) Perderá alguns dos seus jovens. Terá de ir buscar jovens a outros sítios.

Esta minha reflexão é, obviamente, uma adaptação do que penso para Portugal. Para a Madeira é uma necessidade reforçada.

4. Qualidade

Actualmente a percepção generalizada é que os madeirenses que cá chegam não dizem muito bem do ensino básico e secundário madeirenses.

Compreende-se que haja alguma tentativa de protecção mas o sucesso da Madeira depende de ela não temer a “globalização”, aceitar perder alguns e atrair muitos, dos melhores que vão contribuir para o sucesso da Madeira. O que se faça na UMa tem de ter qualidade internacional! (Este objectivo não pode ser para todos! Não o é nos outros países).

A UMa tem necessidade de saber segmentar o seu público de oferecer educação de alto nível mas oferecer também o que outros jovens querem, um simples estacionamento enquanto crescem…

5. Segmentação

Toda a gente defende o sistema binário em Portugal. Ninguém assume isso na Madeira? Não sei qual é a solução. Não me chocaria minimamente que tivéssemos “new universities”. Na Madeira a UMa terá de ser uma “old” e uma “new” university. Até que ponto deve assumir isto não sei. Mas tem de o ser.

Tendo poucos alunos não poderá cometer o erro de aceitar todos! Nos próximos anos teríamos de fazer chegar cerca de 80% dos jovens aos 12 anos de escolaridade mas só 50% entrarem na universidade. Isso significa dizer ao governo (Lisboa ou Funchal) que o profissional também é importante. Ser capaz de dizer NÃO ao cómodo facilitismo de aceitar todos! O problema que resta é o de fazer conviver várias culturas numa mesma instituição.

6. Investigação & Inovação

Seria um erro pensar que todos os docentes da UMa vão ser investigadores de nível internacional! Mas seria preciso aproveitar a vontade de todos o serem e encaminhar essa capacidade para investigação aplicada à promoção da inovação no tecido socio-económico madeirense. Fazer pouca investigação e só da melhor. Fazer muita inovação e esta com ligação directa ao tecido local. Será que o governo regional poderá compreender isto melhor do que o nacional?

7. Algumas notas soltas sobre a “Configuração Geral do Modelo”

a) Modelo 3+2

A conversão num 3+2 precisa de uma liderança que não temos. As engenharias tentam evitar um 3+2 firme e este precedente é grave por ir necessariamente contagiar muitas outras áreas dado o prestígio social da engenharia em Portugal. Outro problema para a aceitação do 3+2 foi a ambiguidade introduzida pela recente alteração da Lei de financiamento. A sociedade portuguesa vai sentir Bolonha mais fortemente através da redefinição da licenciatura. É um problema que eu tinha posto à Ministra Maria da Graça e que parece não ter sido ainda enfrentado. Muitos contratos colectivos de trabalho e toda a função pública estão organizados em torno dos velhos graus académicos. Como será possível conter as pressões de reclassificação quando aparecerem novos graus mais curtos?

b) 4 cadeiras por semestre

Inteiramente de acordo em que se fixem créditos á partida. Depois o docente terá de construir a sua disciplina para maximizar os objectivos de aprendizagem dentro desse tempo de trabalho do estudante que lhe cabe gerir, tele-gerir. Não sei se devem ser todas iguais, 4×7,5 ou, por exemplo, 3×9+3. As cadeiras normais seriam de 9 créditos. Os 3 restantes seriam ainda 80 hr de trabalho! Seriam, por exemplo, usadas para uma tarde semanal de actividade de projecto e uma noite de discussão-debate, isto durante as 10 primeiras semanas de cada semestre. A segunda metade do semestre ficaria para “coisas mais sérias”, quando o exame começasse a assustar.

c) Competências transversais

Não sei como está a pensar criar cadeiras para as competências transversais. Parece-me mais que estas deverão ser criadas com outras estratégias e dentro das aprendizagens normais. / cadeiras por semestre surpreende-me (por parecer muito).

d) Gabinete ECTS

Parece-me fundamental que haja uma entidade de certificação interna que ajude os professores e os directores de curso a afinarem a conversão do conceito de escolaridade (T+P) em ECTS.

e) Elevadas taxas de abandono

A nossa taxa de insucesso oficial é igual à norte americana! É um problema menor, o que não quer dizer que não seja ainda um problema. Problema maior, creio, é o de saber que aprendizagens com sucessos que rapidamente têm subido nos últimos anos. O problema do 1º ano é sério e devem explorar-se todas as possibilidades de ajudar o estudante a definir a sua orientação. Se for possível adiar por um ano a escolha de curso, isso seria óptimo.

f) Que a organização das disciplinas não emane dos departamentos…

Isto não é só para o primeiro ano…

g) Aprendizagem formal da comunicação escrita e oral.

É importante, crucial mesmo, mas não acredito que se faça em disciplina separada nem com créditos especiais. Cada unidade curricular poderá induzir aprendizagens e competências transversais.
Não será necessário separar as aprendizagens mas é necessário explicitar estes objectivos em formato matricial.

h) Língua estrangeira

A língua estrangeira é importante mas, se não foi aprendida em 12 anos de escolaridade, será agora numa disciplina?… Já disse acima que a mobilidade deve ter ainda mais atenção.

i) TIC

Não acredito que se aprendam numa disciplina autónoma. (Já no secundário a aprendizagem autónoma funciona mal.)

j) Redução da carga horária para 16-20hr/sem.

CUIDADO!!!

Creio que esta tendência faz correr grandes riscos! Depois da loucura da subida das escolaridades para dar trabalho a mais um docente… descobrimos que afinal com os rácios fixados isto não paga e que é melhor mandar os estudantes para o café!

Copiamos de instituições onde a cultura de aprendizagem é totalmente diferente. É falso que as escolaridades sejam mais baixas em toda a parte. Nas universidades francesas são mais baixas quando não têm professores… Nós estamos a pôr isto como uma modernização! Não é.

Depois de modernizarmos a cultura de aprendizagem, só depois podemos baixar a escolaridade.

o(s) primeiro(s) ano(s) e com alunos mais fracos ou menos motivados o desastre é garantido!

José Ferreira Gomes
Prof. Catedrático de Química, Vice-Reitor da U. Porto, D. Phil em Química Teórica pela University of Oxford.
Texto originalmente publicado no blog “Projecto Bolonha UMa”.
Proposta de Adaptação da UMa ao Espaço Europeu de Ensino Superior.
O título deste artigo, originalmente, era: “Contributo de José Ferreira Gomes”.

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