Consequências do Ensino “Tutti Frutti” para Gestão e Economia

A seguinte intervenção representa as minhas convicções pessoais, convicções que provavelmente não correspondam às de outro pessoal do Departamento de Gestão e Economia.

É completamente óbvio que a esmagadora maioria das reformas é resultado de activismo político, ou seja, consequência da convicção de muita gente que seria obrigatório deixar obra feita para o futuro. Depois vão ao “trabalho” e gastam 90% do seu tempo com o “marketing” da ideia. E se a coisa correr mal, então passam novamente 90% do seu tempo com explicações porque a culpa não foi deles. Toda o circo político a volta de “Bolonha” vai acabar na mesma miséria. Deixa-se, não obra feita, mas sim, um atoleiro de problemas, para as futuras gerações só não terem nenhum descanso.

Sendo professor de Economia e responsável pelas duas áreas de Gestão e Economia no DGE, devem perceber que vou (ego-)centrando-me nas consequências da Banda Larga, de Bolonha e de Harvard para as duas áreas. Pois, acho que mesmo numa instituição de dimensão tão pequena como a UMa, não me sinto obrigado a elaborar um plano abrangente para a instituição como um todo. Considero que este “plano mestre” deverá prender-se muito mais com questões administrativas do que educativas. Infelizmente é que há muita gente na nossa instituição – e, sempre às Ordens, ainda mais fora dela – que acha que todos deviam decidir sobre todo. Chamaria a esta gente aficionados do “fundamentalismo democrático”. A minha filosofia é mais: os que não sejam da minha área científica é que sff não mexam no ensino nela, que eu também não mexo no ensino na vossa. Se procurarem competências para os vossos alunos, sempre bem-vindos, que também vou ter com vocês se procuro competências para os nossos.

As consequências do fundamentalismo democrático já se fazem sentir desde há algum tempo no que diz respeito ao programa de ensino universitário em Gestão e Economia. E aqui chegamos ao primeiro dos problemas que estão intimamente ligados.

Banda Larga

O DGE deve abrir as suas portas aos alunos de todos os cursos que queiram adquirir competências a sério em determinadas áreas coerentes da Gestão (Marketing, Contabilidades, etc.) e/ou da Economia (Microeconomia, Macroeconomia, etc.).

A ênfase nas competências a sério quer dizer que se deve fechar a porta à errada interpretação da filosofia da “banda larga” de que toda gente deve ter uma noção de todo – mas depois acaba por não ter competências em nada. Com a consequência que o ensino em Gestão e Economia se vai centrando em cadeiras optativas, e não só, para as quais não é necessário ter nenhumas precedências, ou até em cadeiras específicas para as licenciaturas em “banda larga”. Repare-se que isto não quer dizer que se deve fechar as portas à “banda larga”, mas sim, que é imprescindível adaptar as competências dos alunos da “banda larga” às exigências das cadeiras em Gestão e Economia que desejarem frequentar. Exemplos crassos: As cadeiras “Noções da Análise de Projectos de Investimento”, “Noções de Contabilidade” e “Gestão de Projectos” que, por inerência, pouco mais conseguem do que informar os alunos da existência de áreas importantes – mas competência é que não lhes pode ser transmitida uma vez que faltem os fundamentos para um ensino mais aprofundado. (Ainda mais grave é que para tais cadeiras, que ao máximo andam ao nível do politécnico, um doutora(n)do é um desperdício – pois este deveria em primeiro lugar ser investigador e fomentar a disseminação de conhecimentos científicos junto de alunos universitários.)

Quem queira competências nas contabilidades no seu curso, então é que mande os alunos para um ciclo como Contabilidade I, Contabilidade II (mais Auditoria e Fiscalidade, caso considere útil). Quem queira não só ter “noção” da Análise de Projectos de Investimento no programa, mas sim, ter alguma competência, terá de seguir um caminho um bocadinho mais difícil: Matemática I, Cálculo Financeiro, Gestão Financeira I, Contabilidade Analítica, Análise de Projectos de Investimento. Pois, é um caminho um bocadinho mais longo e “matemático” de 3-4 semestres, mas pelo menos apanha-se algumas competências úteis para a vida profissional. Exemplo: Os inúmeros cursos em outos países em que se combina a Engenharia e a Gestão. Sem competências mais aprofundadas, sejam elas em Gestão, Economia ou noutra área, não prevejo futuro radiante para as licenciaturas de “banda larga”.

Portanto, deverá aproveitar-se as reformas para pôr cobro ao ensino ‘tutti frutti’ das “noções de todo” mas competência em nada. O ensino em Gestão e Economia deverá centrar-se em módulos de competências, comuns a todas os cursos que as queiram, incluindo os próprios cursos de Economia e Gestão, pois nós não temos dimensão suficiente para soluções proprietárias!

O grande problema das áreas de Gestão e, mais ainda, de Economia é que, na percepção de ainda muita gente (até da própria área), pertencem às ciências sociais – o que está correcto do ponto de vista histórico – mas do ponto de vista metodológico e paradigmático já há meio século que foram ao encontro das ciências exactas. No que diz respeito à área científica de Gestão, e até certo ponto também de Economia, existe outro agravante ainda: não há pouca gente que anda com a percepção de que um departamento com estas áreas científicas deveria mostrar “dinâmica empresarial”, “atitudes de inovação”, e sei lá quantas mais frases deste género é que dão a volta pelo mundo. A consequência é que se exige a inovação de “Noções disso e daquilo e mais qualquer coisa” e sempre a resposta simpática: “no problem”.

Porquê não exigem ao Professor Benilov que ofereça uma cadeira de “Noções de Física Atómica e Nuclear” ou de “Noções de Mecânica Quântica” para a “banda larga” e que ainda assuma o ensino a nível politécnico na Universidade do Condutor, escola politécnica essa, de física aplicada, a integrar na UMa? Porque não pedir ao Professor Castanheira para dar uma cadeira “Relatividade Turística” a nível do ensino politécnico? Que os dois vão adorar!

Que não se entenda mal: não tenho nada contra o ensino politécnico na UMa — desde que bem separado a nível dos departamentos e do ensino. Quanto à “banda larga” também não me ralo – até dá alguns ETIs ao DGE – mas neste estado de grande superficialidade em que se encontra actualmente, cria externalidades negativas para o ensino do DGE.

E com Bolonha e Harvard as coisas não vão melhorar!

Bolonha

Fiquei surpreendido que alguém tenha falado na “agenda escondida de Bolonha” quanto à afirmação que “…Bolonha diminui o esforço financeiro do Estado na formação superior.”

Pois, eu, como académico de formação em economia, sempre desconfio por inerência que todo o que acontece no mundo tenha qualquer coisa a ver com o dinheiro. A nossa espécie desenvolveu o mau hábito de reduzir todo ao essencial – à massa: milhares de páginas em relatórios, pareceres e documentos de reflexão são reduzidos a um simples modelo.

Acontece que do ponto de vista da teoria económica uma diminuição do financiamento por parte do Estado do ensino superior é bem necessária. Isto porque o ensino superior não é nenhum bem público como é muitas vezes referido.

Porquê? Bom, vejamos um exemplo: Suponhamos que determinado indivíduo está a ponderar se, após o B.Sc. em Gestão, ainda deve fazer o M.Sc. Então, se o M.Sc. lhe serve para ganhar mais competências, “o mercado” certamente irá valorizar o “capital humano” adicional através de uma remuneração mais elevada, projectos que mais rendem, etc. De todo, o efeito deste capital certamente não se vai manifestar em forma de um efeito externo positivo e milagroso, no sentido de todas empresas com sede num raio de 500 km da morada do M.Sc. encontrarem de um dia para o outro a contabilidade em condições. Não, será aquela empresa que o contrata. Então que esta pague a ele, e ele que pague ao professor das contabilidades pelas lições! É tão simples.

Bom, vão argumentar que há aqui um pequeno problema: o benefício monetário das lições em contabilidade só se manifesta uns anos mais tarde, o professor, no entanto, quer ser pago já. Então, há que recorrer ao crédito. Vamos lá. Ah, mas os bancos! Só querem dar crédito a quem possa oferecer garantias, e os pobres muitas vezes não o podem. Então que cubram uma taxa de juro mais elevada para compensar o risco. Ah, mas isto não pode ser: juros mais altos para os pobres seriam uma enorme injustiça social. Talvez, mas melhor ter um bocadinho de injustiça do que um pobre a ficar pobre para sempre…

E se o sistema bancário não funcionar, então terá de ser o Estado a entrar no mercado através de um banco estatal para o efeito. Seja como for, todo isso não implica que a educação deve ser paga através do orçamento do Estado – afinal também não é o Estado quem paga, somos nós através dos impostos. As reformas de Bolonha vão na direcção certa neste respeito. Perdoem-me este discurso universitariamente incorrecto.

Não há reforma, no entanto, que não seja aproveitada para melhorar as coisas para o pior.

Em vez de obrigar o aluno a pagar uma parte considerável dos custos da sua formação (~4500€ anuais na UMa) nas condições de ensino existentes, ou seja no sistema de 4 anos de licenciatura, os governos fazem-lhe acreditar que em 3 anos se consegue o mesmo efeito. Afinal só há que concentrar um bocadinho mais as coisinhas, deixar a teoria chatinha para mais tarde, para a agregação talvez. Deixam às universidades a opção de 6 – 8 semestres para o 1º ciclo, mas ao mesmo tempo diminuem o financiamento. Como resultado pouco surpreendente deste exercício, as universidades vão reduzindo para os 6 semestres. Para encobrir a aldrabice oferecem-se depois cursos de 2 anos para fazer do aluno um “mestre”, ou seja com mais 1 aninho tomando como base a licenciatura de hoje, cursos que ainda por cima constituem a parte escolar de um doutoramento de 3 anos. Todo este empreendimento faz-me lembrar a economia dirigida da União Soviética dos anos 50-80, em que o governo costumava decretar os níveis alvo da produção industrial e agrícola até ao final de cada ano – só que nunca lá chegaram por perto em nenhum dos anos.

E agora ainda Harvard…

Harvard

Para começar, concordo inteiramente com o Grupo de Bolonha, e com toda gente que em Conselho da Universidade votou a favor do projecto, que se deve dar … primado às competências em detrimento da informação científica e técnica e da formação profissional (p.20) Pois, competências é o que interessa. “Transmitir informação” soa muito a “encher chorizos” com “conhecimento” do qual o aluno não percebe com se lá chega, nem como depende das doutrinas que estão em moda. E afinal, por mais que o facto possa surpreender muitos, as universidades nunca foram e nunca deverão ser escolas de formação profissional, mas sim, de ensino superior. O ensino superior tem como objectivo proporcionar ao aluno uma introdução cada vez mais aprofundada às matérias em que os cientistas da área estão a trabalhar. Alguns abortam precocemente a aventura, estabelecendo-se como “simples” licenciados, enquanto outros vão até catedrático.

Portanto, acho óptimo este ponto de partida. A partir de agora certamente ninguém me vem insistir que se olhe com demasiada atenção para as páginas das Ordens, mas antes, para aquela de Harvard.

Permitem-me agora que vou entrando um bocadinho no festim do COPY+PASTE do Grupo de Bolonha de material sobre e de Harvard. Tomam lá outro:

“Economists believe that a wide variety of social issues can best be understood by using the tools of constrained optimization.”

Primeira frase na brochura informativa da Universidade de Harvard sobre o Curso de Economia.

Esta proposição é a descrição mais curta e simultaneamente a mais concisa que existe no planeta sobre a actividade e a metodologia do economista (e também do gestor). Deve perceber-se então o que as áreas de Economia e Gestão do DGE têm a ver com as percepções leigas sobre as mesmas e sobre seu relacionamento com as ciências sociais – por não falar das jurídicas — em geral.

Neste contexto vamos lá ver como a interpretação do ‘ensino liberal’ avançada pelo Grupo de Bolonha poderia contribuir para uma formação de maior qualidade de licenciados em Gestão e em Economia.

1. Comunicação escrita e oral

Sim, todo bem. Não se pode dizer que não, porque até seria politicamente incorrecto. O mundo de hoje está cheio de retórica e de discursos eloquentes, de documentos de reflexão, e de teses de 700 páginas nas ciências sociais. Não é necessário referir o filósofo Marcello Pêra para sublinhar que … na maior parte dos casos, é a retórica, o estilo usado pelo cientista, que faz vencer uma determinada tese (p. 27, GB) – pois, toda gente com QI acima do qual se deveria pisar numa Universidade já sabe disso.

E se não soubesse, então deveria ser a Universidade a colmatar esta ignorância extremamente lamentável. Pois, nas sociedades contemporâneas existe uma enorme tendência de substituir a competência científica por habilidades nas “ciências da polémica” – e as universidades, sempre às Ordens, contribuem o “touch” académico, ensinando “noções de todo” (não só na banda larga) aos seus licenciados para estes poderem intervir eloquentemente em qualquer discussão de “banda estreita” sobre os problemas do mundo.

Considero os factos proferidos pelo Grupo de Bolonha argumento excelente em prol da implementação de um ensino que, em vez de entrar nos joginhos de “retóricas e polémicas”, serviria para transmitir uma (introdução à) análise científica dos mesmos. É justamente a partir dessas análises que se cria competências.

Acho que a questão que se coloca é: Será que as competências em comunicação depois farão vencer a tese do mais competente?

Admitamos que sim, para não chatear demasiadamente…desde que depois ninguém me venha a exigir que lhe dê razão só por ele ter discurso mais eloquente e retórica digna da “elite intelectual”.

2. Língua e cultura estrangeira

Língua alemã, perdão inglesa, sim. Porque é a língua oficial da ciência económica e da ciência empresarial. Mais línguas? Argumento turismo? Resposta: É mais provável que os “barmen” e as senhoras das limpezas do Grupo Pestana tenham oportunidade de brilhar com um turco fluente junto de um turista do que o contabilista daquela casa…

Até concordava leccionar algumas cadeiras do DGE em inglês. Porque não? Na FEUNL também o fazem em quase 35% da oferta lectiva sempre que haja alunos estrangeiros (e lá sempre há).

Mais línguas? Sim, o alemão. Se não for o alemão obrigatório, então também não pode ser outra!

Com a proposta redução a quatro cadeiras semestrais – proposta com a qual absolutamente concordo – e partindo do princípio que a carga horária por cadeira se mantenha, pergunto porque não deixar aos alunos a escolha liberal de aderirem a eventuais ofertas extracurriculares dos respectivos departamentos no que diz respeito a competências em línguas? Ao fim alista-se estas competências num anexo ao diploma.

Pois, se aplicarmos o liberalismo, também deveríamos admitir uma escolha livre, até certo ponto, do aluno – e a possibilidade de as coisas correrem mal caso este não pondere bem as opções.

Com a cultura é a mesma coisa. Serão os americanos (de Harvard) maiores especialistas em lidar com culturas estrangeiras porque há cadeira para tal? Duvido. Mais uma vez pergunto: porque não deixar aos alunos a escolha liberal de aderirem a eventuais ofertas extracurriculares dos respectivos departamentos? Ao fim alista-se estas competências num anexo ao diploma.

3. Domínio das tecnologias de informação

Sim, há que eliminar o analfabetismo tecnológico. Linux, FireFox, OpenOffice, LaTeX, PHP e MySQL é que toda gente deve apreender.

Os alunos em Economia e Gestão deverão apreender ainda uma linguagem de computação simbólica e/ou numérica, como Mathematica ou Gauss, integrando esta formação no ensino dos métodos quantitativos (ver abaixo).

4. Competências Quantitativas

Pois, aqui o Grupo de Bolonha aparentemente esqueceu-se de tomar conhecimento de um pequeno pormenorezinho: o “quantitative reasoning” está excluído dos “Core Curriculum Requirements” dos cursos de Economia e Gestão de Harvard.

Está excluído, não pelo motivo de os alunos em Economia e Gestão não necessitarem dos métodos quantitativos, mas sim, pelo facto de precisarem de “tratamento” um bocadinho mais intensivo do que os das outras ciências da categoria “Ciências Sociais e Jurídicas” do CRUP.

Portanto, já que estamos a colmatar, tratemos disso em colaboração com o DME. “Banda larga” nos métodos quantitativos? Nem pensar!

5. Conhecimentos Científicos Básicos

Acho uma óptima ideia, porque gosto das ciências, e relativamente aos “Core Curriculum Requirements” em Science A e Science B, em Harvard são:

Science

The common aim of the courses in Science is to explore the phenomena, ways of observing and understanding them, theories that synthesize them, and the undergirding methodology that, taken together, result in the scientific perception of our world. This world encompasses the very small—elementary particles, nuclei, atoms, molecules, genes, and cells; the very large—the Earth, the solar system, and the universe; and living things, including human beings in the past and present. Each course addresses one or several of these topics in some depth. Students participate by solving problems and observing or experimenting in the laboratory. This exposure helps to develop scientific literacy and numeracy, thereby leading to a better understanding of today’s technologically and scientifically oriented society.

Science A

Courses in this section, largely concerned with the physical sciences, deal with the analysis of natural phenomena through quantitative descriptions and synthesis of their simple elements.

Science B

Courses in this section, emphasizing biological, evolutionary, and environmental science, present semiquantitative and frequently descriptive accounts of complex systems that cannot yet be fully analyzed on the basis of their simple elements.

Portanto, acho óptimo. Faz bem aos alunos de Gestão e Economia apreenderem sobre estas matérias. Eu, a título pessoal, é que não me vou queixando que os ETIs correspondentes vão para o DME, o DQ, o DB e o DF.

6. Raciocínio Ético e Deontológico

Pois, … morally responsible citizens and leaders … (p. 30, GB), seria bom se lá se chegasse. Será que os americanos (de Harvard) já lá chegaram? Será que um “ensino” nestas áreas faz gente melhor, como os católicos são melhores do que os agnósticos?

Se fosse cínico diria que do ponto de vista normativo não há muita coisa útil a ensinar, antes de mais, do ponto de vista positivo: esconde-te atrás das maiorias e soube nas hierarquias.

Mas não vamos lá demasiado perto à verdade, até seria politicamente incorrecto. Se alguém me dissesse que conhecia a verdade sobre moral e ética, não teria problema em chamá-lo vigarista, porque nem eu, com tendências de chauvinismo, é que me atreveria a reclamar este conhecimento para mim. Quem já conhece a verdade? E sobre o quê? Que o Darwinismo não é teoria científica comprovada? Que deve existir um ser superior porque, afinal, como é que um ser inferior jamais poderia ter construído este universo tão complexo?

Existe na área da Economia uma literatura chamada “Social Choice”, e há departamentos de economia em que se oferece mesmo uma cadeira sobre a matéria. Só que é uma matéria que não se dá no primeiro semestre, mas sim no 3.º ou 4.º ano – porque necessita de algumas precedências…

Mas julgo que não vão querer isto, antes mais as ‘noções’.

Em Resumo

A proposta avançada pelo Magnífico Senhor Reitor, ou pelo Senhor Vice-Reitor Nuno Nunes — que me perdoem que não me lembro bem qual dos Conselheiros é que tinha sido — no Conselho da Universidade contém algumas ideias que apontam na direcção certa.

Quanto ao “Grupo de Bolonha”, sempre parti do princípio que foi instaurado pelo Senhor Reitor. Tinha sido contactado, como Presidente do DGE, para indicar docente da casa – mas não o presidente (porquê terá sido?) — para colaborar nele. Na minha percepção na altura, o Grupo de Bolonha iria acompanhar os desenvolvimentos em torno de “Bolonha”. Estava à espera de surgirem deste trabalho documentos de carácter informativo, sobre aspectos legais, sobre experiências e planos de outras instituições europeias, etc., documentos que pudessem esclarecer as opções dos departamentos. Não contava, de todo, com a elaboração de um plano mestre para cada um dos departamentos, pois a proposta prevê que todos os departamentos sigam a mesma doutrina de Harvard – pelo menos no que diz respeito a algumas superficialidades da mesma. Do ponto de vista informativo, lamentavelmente, não me resta a não recorrer a documentos externos.

Nem por isso, na minha opinião a proposta tem elementos interessantes que o DGE deveria ponderar na sua inevitável transição para o sistema 3 + 2 de “Bolonha”, nomeadamente no que diz respeito às competências em comunicação (reconheço que deveria ser eu o primeiro a me inscrever), língua alemã, perdão inglesa, tecnologias de informação e conhecimentos científicos básicos.

No entanto, não hesito em admitir que a proposta não mereceu o meu voto no Conselho da Universidade.

É uma proposta que vai demasiado longe, e até em partes importantes na direcção completamente errada, mesmo visto da perspectiva manifestada pelo próprio Grupo de Bolonha, que pretende dar … primado às competências em detrimento da informação científica e técnica e da formação profissional (p.20). Mesmo àquelas competências, digamos profissionalizantes, que acabei de referir como ponderáveis, não podem ocupar 1/3 de uma “licenciatura” do sistema 3 + 2. Ou seja: Ter um “licenciado” em Economia ou Gestão com 2 anos de contacto com a sua ciência é completamente inaceitável.

Na Alemanha existem já bastantes cursos dentro da lógica do Bachelor/Master, tipicamente no sistema 3 + 2, mas não só. No entanto, é bastante interessante constatar que só uma única faculdade de Economia (a da Universidade de Essen) se desligou desde já do diploma de 4 anos. É bem possível que muitos vão para o sistema 4 + 1. Pois, em 4 anos consegue-se um licenciado a rigor. Quanto às competências genericamente profissionalizantes (tradução literal minha) como lá são chamadas, estes no sistema 3 + 2 ocupam tipicamente 1/6 dos ECTS, não 1/3.

Não te rales, ouvi o argumento, que até ao final do 2.º ciclo chegaremos também aos 4 anos e ai vamos ter um digno graduado da nossa casa, intitulando-se este “mestre”. Mas que “maestro” esse, com 80% do conhecimento (nominal) na sua área de um M.Sc. formado a rigor? Todo isso para colmatar as deficiências do ensino pré-universitário? E depois, quem vai colmatar as deficiências que nós criamos com um modelo à Harvard completamente desproporcionado?

E o quê acontece se não conseguirmos o segundo ciclo? O quê se um futuro “licenciado” vai querer tirar um mestrado lá fora? Vai apanhar uma tampa em qualquer lado, porque se os outros fizerem 3 + 2, sem “ensino liberal à Harvard”, então certamente é que irão apreciar um “Bacalhau” de 2 anos de Economia ou de Gestão da UMa para entrar num mestrado deles. E será que o governo vai permitir que alguém se chame “licenciado” com efectivamente 2/3 do conhecimento dos licenciados de outras escolas — só por ele reclamar de ser ainda um “well educated gentleman”?

O mais grave, de todo, é que ainda não o referi. Pois, se seguirmos o plano proposto pelo Senhor Reitor, ou pelo Sr. Vice-Reitor, plano esse elaborado pelo Grupo de Bolonha e aprovado em Conselho da Universidade, ficaria o DGE então com 4 anos para pelo menos formar um “mestre” digno do nível do licenciado de hoje.

Então, vamos tirar do plano de estudos do 1.º ciclo em Economia de 2 anos (!) simplesmente as cadeiras de Gestão, Sociologia e Direito, e do plano de estudos em Gestão tiramos as cadeiras de Economia, Sociologia e Direito. Assim vamos conseguir compensar a redução para 4 cadeiras semestrais e 2 anos e, em simultâneo, ganhar capacidade para o 2.º ciclo. Será que vai ser assim?

Duvido. Porque depois vai haver gente a dizer: ah, mas economia sem gestão não pode ser, sem direito também não, e de sociologia o licenciado em Economia é que também deve saber – porque são as “áreas gémeas” na categoria do CRUP. Sobre a Gestão vão dizer a mesma coisa, trocando na frase anterior meramente as palavras economia e gestão. Além disso ainda vão argumentar: ah, mas com a possibilidade de o aluno sair depois do primeiro ciclo, também não podemos “soltá-lo” só com matemáticas e teorias, deve ter uma noção da área.

Pois, é aqui é que vão começar as “noções” e a “banda larga” em Economia e Gestão…

A consequência disto todo será que não se vai preparando o aluno com vista a um 2º ciclo, mas sim para este poder eloquentemente meter conversa de “banda estreita” sobre uma área científica, que tanto dominará como um futebolista a bola, apreendendo o jogo através da Playstation II.

Portanto, deve ser mais do que óbvio que o brilhante “plano mestre”, se for adiante na forma como foi apresentado, vai criar problemas das maiores para as áreas de Gestão e Economia. Para as outras áreas? Vocês sabem.

Uma Proposta Adequada

Sendo assim, não me resta a não apresentar uma proposta adequada para as áreas de Economia e Gestão que assenta no modelo 3+2, contemplando ainda uma maior flexibilidade e sistemática na formação de competências para alunos de outras licenciaturas interessados em adquirirem as mesmas. Simultaneamente irei ao encontro daqueles elementos da proposta elaborada pelo Grupo de Bolonha que considero úteis para a formação de um digno graduado do DGE.

Günther Lang
Professor do Departamento de Gestão e Economia da Universidade da Madeira
Texto originalmente publicado no blog “Projecto Bolonha UMa”.
Proposta de Adaptação da UMa ao Espaço Europeu de Ensino Superior.
As hiperligações do texto original foram eliminadas por terem deixado de existir.
Título original: “Banda Larga, Bolonha e Harvard: Consequências do Ensino “Tutti Frutti” para Gestão e Economia”.

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