Prenda reutilizada

Vera Duarte, 'alumni' da Universidade da Madeira, escreve sobre os helicópteros, utilizados para o combate a incêndios, que Portugal enviará para o apoio à guerra na Ucrânia.

Nem de propósito. Parece que não, mas, daqui a dias, é Natal. E todos já recebemos ou já ouvimos falar daquelas prendas reutilizadas, que é o mesmo que dizer que são aquelas que o pessoal compra e não gosta, ou que recebe e não gosta, e… oferece para delas se livrar delas.

O que o Governo da República anunciou, por estes dias, sem salamaleques, ou sem uma ponta de vergonha, foi mais ou menos isto.

Ora Portugal vai enviar para a Ucrânia seis helicópteros Kamov (de origem russa), de combate a incêndios, que se encontram, atualmente, sem licença para operar e, inclusive, por reparar, sendo que um deles está mesmo inoperacional “porque foi acidentado”. A Ministra da Defesa, Helena Carreiras, disse que os helicópteros “não têm os seus certificados de aeronavegabilidade e nem sequer poderemos repará-los” e que serão “transferidos no estado em que estão”, com a certeza de que irão ser “muitíssimo úteis à Ucrânia”.

Aqui é que não eram prenda útil.

O negócio dos Kamov foi feito por António Costa, quando era Ministro da Administração Interna. Milhões depois, atualmente, o panorama é o que se conhece, sendo que o Ministério da Defesa alega um “contencioso entre o Estado e a empresa a quem estava entregue a operação e manutenção” dos helicópteros.

Recordemo-nos que, em 2017, já só apareceram três para ajudar no combate a incêndios. Este ano, nenhum. Os helicópteros estavam parados há anos, à espera de certificação e de manutenção. Nos últimos meses, o Governo da República chegou à conclusão de que não tinha condições para os manter e que, devido às sanções impostas à Rússia, não existe qualquer via para a sua reparação.

Ora, alegadamente agradecida, a Ucrânia vai receber esta prenda no sapatinho, mesmo no estado em que está, pelo que, como já se escreveu n’O Bom, o Mau e o Empresário, no Diário de Notícias da Madeira, no fim de contas, a Ucrânia é que ajudou Portugal.

Para eles, a prenda é reutilizada, mas para o governo luso é a cereja no topo do bolo. Muito obrigada, Ucrânia.

Vera Duarte
Alumni da Universidade da Madeira
Com fotografia de Kira auf der Heide.

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